O último livro de Julian Barnes tem, em português, o título Partida, Departure(s) no original - «porque há uma partida principal, que é a nossa partida da vida, e depois há várias outras referidas no livro, que são partidas do amor e coisas assim».
É o livro em que o escritor, como em nenhum outro, fala com o leitor, para se despedir, talvez, mas sobretudo para o convidar a sentar-se com ele «na esplanada de um café numa cidade não identificada de um país não identificado. O tempo está agradável e temos uma bebida gelada à nossa frente. Lado a lado, olhamos para as muitas e variadas expressões de vida que passam diante de nós. Observamos e trocamos impressões».
É aqui que entro, num qualquer café, numa qualquer cidade, num qualquer país, para partilhar que a literatura, para mim, sempre foi isto: ler e trocar impressões imaginárias com os escritores. Julian Barnes está entre os meus escritores britânicos vivos preferidos - ainda, poderia acrescentar, contagiada pelo sarcasmo de Barnes, que fez 80 anos a 19 de Janeiro.
«Não acho que seja a chegada da maturidade o que me torna filosófico: é, antes, o oposto, o reconhecimento da decadência», escreve Barnes em Partida. Uma coisa não se sobrepõe à outra, tudo se enreda em múltiplas histórias, ou ‘Episódios Biográficos’, convocando inúmeros autores e lembrando-nos o prazer à maneira de Proust, saboreando a madalena ensopada no chá.
Partida chega-nos percorrendo os caminhos da ficção, do ensaio e do livro de memórias. Anda às voltas com Em Busca do Tempo Perdido - Barnes gosta de falar de Proust para dizer que é antiproustiano -, inclui uma referência a uma entrevista da Playboy em que adúltero de coração, o católico Jimmy Carter diz que não sentia culpa e tinha a certeza de que Deus lhe perdoava as infidelidades sentimentais, e dá-nos ainda páginas inusitadamente divertidas sobre o ‘busto de Napoleão’ - ou, mais exatamente, o prazer de enfiar no rabo um busto de Napoleão.
Há também tempo e páginas para nos desafiar a pensar na loucura da memória autobiográfica involuntária e, com isso, desdramatizar a forma como nos libertamos da nossa memória, num movimento que oscila entre o terror e a obsessão à medida que envelhecemos. A primeira frase do livro é: «Há dias descobri uma possibilidade alarmante». Nas primeiras páginas, confronta-nos com a outra: «Este será o meu último livro».
Numa entrevista ao El País, Barnes explicou: «A ideia começou a germinar quando já estava a meio dos setenta. Disse para mim mesmo: ‘Um destes dias estarei a escrever o meu último livro e a morte cortá-lo-á abruptamente’. Por isso decidi escrevê-lo já e tê-lo guardado, embora terminado. Mas, enquanto o escrevia, pensei de repente que, de facto, este tinha mesmo de ser o meu último livro».
Barnes é a favor da eutanásia. Partida é uma espécie de eutanásia literária, ou então é só «um bom livro para sair de cena» de alguém que não quer continuar a escrever romances sem «plena convicção». Ainda assim, faz um último esforço: o narrador Julian Barnes quebra uma promessa e conta-nos o romance de Stephen e Jean, que correu mal duas vezes, à falta de melhor explicação - e não haverá - Jean descobriu, aos 60 anos, que «a felicidade não me faz feliz».
Abrimos espaço para Barnes falar do livro que «é sobre o amor e a morte e o tempo e o envelhecimento e um Jack Russell Terrier muito divertido» (que, entretanto, também faleceu) «e muitas das coisas sobre as quais já escrevi antes, mas de forma diferente».
E prossegue num pequeno reel de 45 segundos: «É um livro híbrido, como alguns dos meus. As duas personagens principais chamam-se Stephen e Jean, conhecem-se quando são estudantes e apaixonam-se, mas depois - como tantas vezes acontece no fim da vida de estudante - ou se casa ou se acaba. É um lugar-comum, e no caso deles acabam. E depois, em parte por intermédio de uma personagem chamada Julian Barnes, voltam a encontrar-se cerca de 40 anos mais tarde e voltam a apaixonar-se. Obviamente, apaixonam-se de uma maneira diferente, mas, ao mesmo tempo, conservam as memórias e as ilusões da primeira vez. É um tema que não vi tratado muitas vezes na ficção e que achei muito interessante, também do ponto de vista técnico: como contar uma história com um buraco no meio».
Julian Barnes publicou 14 romances e cerca de uma dezena de obras de não-ficção. Dois dos romances foram adaptados ao cinema - Metroland (1997) e The Sense of an Ending (2017) - e Arthur & George deu origem a uma minissérie em 2015. Está traduzido em cerca de 50 línguas e vendeu mais de 10 milhões de exemplares em todo o mundo.
Em 1983, foi escolhido pela Granta como um dos 20 melhores jovens romancistas britânicos, numa lista que incluía Salman Rushdie, Kazuo Ishiguro, Martin Amis e Ian McEwan. A lista revelou talentos que se tornaram amizade. A amizade de Barnes com McEwan mantém-se; a de Barnes com Amis morreu antes de Amis falecer, cansado de lutar contra um cancro na garganta - mas regressa agora em Partida.
«Estou a escrever este livro aos 77 anos» - seria publicado pouco antes de Barnes fazer 80 - «e chegou agora a vez da minha geração morrer. Martin gosta (em breve será ‘gostava’) de dizer, em tom melancólico: ‘o problema é que não se podem fazer novos velhos amigos’».
Martin Amis morreu em 2023. Julian Barnes e Martin Amis foram amigos durante décadas. Conheceram-se em Oxford, nos anos 1960. A relação foi intermitente, feita de cumplicidade intelectual e rivalidade literária. A morte de Amis surge como um dos momentos mais comoventes do livro. Barnes fala de Amis vivo, mesmo com o pretérito da morte entre parêntesis, a enfrentar com dignidade cansada o cancro, e não se deu ao trabalho de rever o que tinha escrito, porque, entretanto, o escritor morreu.
Barnes, como Ismail Kadaré, não recebeu - ou ainda não recebeu - o Prémio Nobel da Literatura. Publicou o primeiro romance em 1980; a consagração chegou em 1984, com O Papagaio de Flaubert. Venceu o Booker Prize em 2011 com The Sense of an Ending. England, England (1998) e Arthur & George (2005) estiveram também na short list do prémio.
A morte é um tema recorrente na sua obra. Escreveu sobre a morte da mulher, Pat Kavanagh, agente literária, que faleceu em 2008, 37 dias depois de diagnosticada com um tumor cerebral agressivo. Foram casados durante 30 anos. «Tive um envolvimento ao longo de toda a vida com a morte, tanto teórico como real, e escrevi muitas vezes sobre ela».
Numa entrevista recente à NPR, em Janeiro, Barnes disse: «Sinto-me bastante entusiasmado. Casei-me em agosto, fiz uma operação séria à coluna em dezembro e agora faço 80 anos e sai o livro. Não me lembro de um período com tanta coisa a acontecer». Falou também do cancro do sangue que lhe foi diagnosticado durante os primeiros meses da pandemia, com o qual, passado o choque, lida com relativa complacência.
Barnes escreve livros ‘híbridos’ - ficção e não-ficção - e criou, ao longo de 45 anos, uma secção própria a que gosta de chamar Julian Barnes. Em Partida, escreve sobre memória, amor, amizade, envelhecimento e morte. Não é a primeira vez. Será a última - pelo menos em livros. «Continuarei a escrever jornalismo e crítica. Mas, no que diz respeito a livros, este é o meu último».
Partida é um livro de intimidade bruta e elegante. Um adeus sem melancolia. Fala da morte - inevitavelmente - mas num tom que não deprime, antes apazigua. Irónico, lembra-nos que «a velhice não é para meninos» e atira-nos com as últimas palavras do primeiro Lorde Grimthorpe, às portas da morte, para a mulher: «Já temos pouco doce de laranja amarga».