Era uma vez três mulheres que ingressaram na polícia. Cada uma delas recebeu missões muito perigosas para cumprir, mas eu livrei-as de tudo isso e agora trabalham para mim. O meu nome é Charlie». Estas palavras foram ouvidas todas as semanas, entre 1976 e 1981, durante a abertura da série Charlie’s Angels, na ABC, que se tornou num dos maiores ícones da televisão americana dos anos 70, marcando a cultura pop de forma duradoura. Recorde-se que antes desta produção – que foi uma ideia de Ivan Goff e Ben Roberts, e que Aaron Spelling tornou um sucesso –, as mulheres em séries policiais eram geralmente secretárias ou vítimas e, por isso, as protagonistas acabaram por introduzir a ideia de mulheres emancipadas e autossuficientes que não precisavam de heróis masculinos para salvá-las. Lutavam, conduziam carros a alta velocidade e resolviam crimes mostrando a sua inteligência. Além disso, o destaque dado aos seus penteados impecáveis e ao seu estilo criou um padrão de beleza que definiu uma era. Ou seja, a série rompia com a ideia de que uma mulher bonita não pode ser inteligente. A sua imagem chegou a estar gravada em plásticos de pastilhas elásticas, pósteres, lancheiras, bonecas e nas revistas (incluindo a Time – a mais importante publicação americana da época). O programa chegou a ocupar a quarta posição entre os mais vistos nos EUA.
Ao longo das cinco temporadas de Charlie’s Angels, várias atrizes interpretaram as protagonistas. Na primeira temporada, Farrah Fawcett deu vida a Jill Munroe; Kate Jackson, a Sabrina Duncan e Jaclyn Smith interpretou o papel de Kelly Garrett. Na segunda temporada foi adicionado um novo rosto. Farrah Fawcett saiu do projeto e Cheryl Ladd entrou como Kris Munroe. Interpretava a irmã mais nova de Jill. Shelley Hack interpretou Tiffany Welles, uma ex-polícia de Boston que substituiu Kate Jackson. Na quinta e última temporada Tanya Roberts foi adicionada ao elenco. A atriz dava vida a Julie Rogers, o último anjo da série original. A atriz substituiu Shelley Hack.
Segundo a MondoModa, a operação quotidiana da agência ficava sob a responsabilidade de John Bosley (David Doyle). O braço direito de Charlie Townsend atuava como o elo vital entre as detetives e o patrão invisível. O mistério sobre a identidade de Charlie era um dos fios condutores da narrativa. O contacto com ele ocorria exclusivamente através de um aparelho de voz, (objeto que se consolidou como o dispositivo tecnológico mais icónico da televisão naquela década).
Recentemente, ao Los Angeles Times Smith, admitiu: «Os críticos não nos deram o valor que merecíamos. Eles só viam beleza – era só isso que éramos para eles. Mas obviamente éramos mais do que isso, ou não estaríamos a falar sobre a série 50 anos depois». E os prémios que receberam provaram isso mesmo: Em 1977, a série venceu como Novo Programa de TV Favorito, provando que a conexão com o público foi instantânea e avassaladora. Além disso, a série acumulou diversas indicações ao longo dos anos. Kate Jackson foi indicada três vezes seguidas como Melhor Atriz em Série de Drama (1977, 1978 e 1979). Farrah Fawcett também recebeu uma indicação pela sua única temporada (1977). Já Kate Jackson recebeu duas indicações ao Emmy Awards e o veterano David Doyle foi reconhecido com uma indicação ao Emmy de Melhor Ator Coadjuvante.
Os 50 anos da estreia da série levaram as protagonistas ao PaleyFest – o festival de televisão mais importante dos EUA –, no dia 6 de abril. Kate Jackson, Jaclyn Smith e Cheryl Ladd apareceram juntas em Los Angeles pouco mais de três décadas depois da sua última aparição conjunta. Os bilhetes esgotaram poucas horas após o início das vendas, no final de janeiro.
«A série retratava mulheres por conta própria», reforçou Jaclyn Smith à France-Presse (AFP) na passadeira vermelha do Dolby Theatre, em Hollywood. «As mulheres impuseram-se, foi uma série revolucionária, uma mudança para as mulheres (...) Eram mulheres a perseguir o perigo (...) Não éramos uma esposa, uma enfermeira, uma secretária, uma namorada… éramos mulheres fortes, capazes de derrubar um homem de 90 quilos», lembrou a atriz de 80 anos, adiantando que parte do legado da série é ter «sublinhado o poder da amizade entre as mulheres». «Era única, era invulgar e nós as três temos química… continuamos irmãs até hoje», disse Kate Jackson, de 77 anos.
Segundo o Los Angeles Times atualmente Smith possui uma linha de roupas, perfumes e joias que promove na HSN, além de um livro de memórias a ser lançado, intitulado I Once Knew a Guy Named Charlie (Eu Conheci um Rapaz Chamado Charlie, em português). Caso surja o projeto certo, Ladd está aberta a voltar à representação. Jackson deixou a carreira artística há décadas para se dedicar integralmente à maternidade, mas insinuou durante o painel que também tem vontade de voltar.