Há cerca de quinze dias, entrei na livraria Galileu, em Cascais, no dia em que esta fez cinquenta anos: parabéns, Caroline!
Na criativa e artística montra que esta livraria sempre apresenta, vislumbrei, a um canto, um livro que, de imediato, me chamou a atenção.
Refiro-me a Nacionalismo, de Rabindranath Tagore, um renomado pensador e escritor indiano que, entre nós, é mais conhecido por ter escrito A Casa e o Mundo.
Este último é um magnífico romance cujas personagens dão vida ao pensamento do autor sobre a relação entre culturas diferentes, a dignidade da vida de todos os homens e o papel da mulher.
Tagore foi, em 1913, o primeiro escritor asiático a receber o Prémio Nobel de Literatura.
Em Nacionalismo, Tagore alerta, ao longo de três ensaios, para o perigo do ‘nacionalismo’ sempre que este transforma a ‘nação’ numa abstração que serve para justificar todas as injustiças sociais, quando os celebrados interesses desta deixam de coincidir com os daqueles que a integram.
Exemplo evidente daquilo a que Tagore então aludia é a já famosa afirmação de um nosso governante de que «Portugal está melhor; os portugueses é que não».
Tagore criticou, ainda, os discursos culturais que corroem a própria base ética da democracia: aqueles que pretendem acentuar negativamente as diferenças entre o homem e a mulher, os que enfatizam a distinção entre nacionais e migrantes, os que visam justificar e perpetuar a iniquidade que resulta da existência dos muito ricos e dos muito pobres.
Ele condenou, igualmente, o imperialismo e colonialismo inglês, mas, simultaneamente, elogiou o contributo que a administração inglesa – representando a racionalidade jurídica Ocidental – deu, à época, para a resolução do sistema de castas, quando, através das leis que impunha na Índia, não fazia distinções entre os cidadãos indianos.
A Índia era e é povoada por povos com culturas e costumes distintos que, no entanto, coexistem num mesmo território, na base da aceitação passiva do outro e das diferenças entre todos.
Tais dissemelhanças justificavam, todavia, um esquema social rígido que permitia – permite ainda hoje – que uns beneficiassem de um status superior ao de outros, o que se traduzia, por exemplo, numa predeterminada e rígida atribuição de posições sociais e laborais, em função da casta que cada um integra.
Tagore distinguia, ainda, o patriotismo cultural (amor à língua, à história, às tradições) do nacionalismo político mesquinho, gerado por um manipulador discurso de «nós contra eles».
Num outro plano, Tagore sustentava, também, que o trabalho só é justo quando respeita a humanidade dos que o executam, impedindo que o trabalhador seja considerado e reduzido a um simples instrumento económico.
Esta perspetiva convergia, por via de outra inspiração filosófica, com o pensamento de Karl Marx, que havia denunciado, já antes, a ‘alienação’ a que o trabalhador era submetido no sistema capitalista.
Leão XIV reafirmou, exatamente, a mesma preocupação na homilia da mais recente ‘missa do galo’, no Vaticano.
Talvez fosse bom, por isso, que, quando analisamos, agora, as propostas de leis laborais, bem como as políticas migratórias e o regime de atribuição da nacionalidade, tivéssemos sempre em conta as inquietações humanistas de pensadores como aqueles. O desenvolvimento da ciência e da técnica permitem, com efeito, que se rasguem, hoje, horizontes generosos na projeção da condição humana dos trabalhadores, em vez de, como acontece ainda, se insistir em usufruir de tais aquisições para os amarrar cada vez mais a métodos de exploração sofisticados e asfixiantes.