terça-feira, 10 fev. 2026

Khaleda Zia. A mãe dos dragões do Bangladesh 

194?-2025. As tantas peripécias da primeira mulher a liderar o Bangladesh davam uma epopeia
Khaleda Zia. A mãe dos dragões do Bangladesh 

«Portugal não é o Bangladesh!»... Eis uma frase que, por estes dias, e depois de o Chega fazer dela um slogan de campanha em cartazes espalhados por todo o nosso território, denuncia a baixeza da nossa vida política, que permite que este tipo de ‘pérolas’ sejam proferidas como se se tratassem de tiradas clamorosas. Sendo Portugal um país anão, parece que alguns reconheceram uma oportunidade em adoptar também uma mentalidade anã, de forma a não apenas se resignar com os seus limites, mas desenvolver uma sobranceria face ao que desconhece.

Este não é o arranque que se espera de um obituário, mas dar uma notícia começa, idealmente, por demonstrar como esta, de algum modo, nos diz respeito. Morreu Khaleda Zia, a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Bangladesh, mas o que faz dela a protagonista ideal, isto se quiséssemos construir uma fábula de modo a explicar às criancinhas portuguesas o que é isso do Bangladesh, é a rivalidade de décadas com outra mulher à frente de uma dinastia política rival e como esta definiu o drama central que moldou o destino da jovem nação asiática.

Comecemos pelo fim, já que até a morte aqui é reveladora do quadro político. Khaleda Zia morreu num hospital de Daca depois de uma década passada entre camas, escoltas e processos judiciais, como se o Estado a tivesse reduzido a um problema administrativo que se arrasta até ao fim. Teria cerca de 80 anos. A idade exata permanece um dado incerto, o que, no Bangladesh, está longe de ser irrelevante. Mesmo a data de nascimento se pode transformar em matéria penal quando a política dá lugar a uma contabilidade de ofensas acumuladas.

A sua vida pública confundiu-se com a história violenta do país, pois nunca deixou de estar atravessada de um significado histórico profundo. Nasceu ainda sob o Raj britânico, atravessou criança a primeira partição do subcontinente, regressou a leste quando o Paquistão se partiu de novo em 1971, assistiu à fundação do Bangladesh entre massacres e repressão cultural, viu o primeiro presidente ser assassinado em casa com quase toda a família, casou com um general. 

Ziaur Rahman, o marido, fora um oficial do exército paquistanês convertido em figura central da guerra de independência e depois em chefe militar do novo Estado. Quando tentou vestir o poder com fatos civis e legitimar-se por via eleitoral, foi abatido em 1981, em Chittagong, apesar de escoltado por meia dúzia de guarda-costas. Khaleda Zia ficou viúva aos trinta e poucos anos, com dois filhos, num país onde as viúvas de generais raramente permanecem invisíveis. Entrou para o Partido Nacionalista do Bangladesh e, em pouco tempo, assumiu-lhe a liderança. Não foi o carisma ou a retórica que lhe garantiu a posição, mas o nome, o luto, a memória armada.

A década seguinte decorreu sob nova ditadura militar. Khaleda Zia passou por detenções, vigilância, confinamentos. Boicotou eleições, organizou protestos, enfrentou a polícia nas ruas de Daca. Foi nesse período que o antagonismo com Sheikh Hasina começou a definir o conflito essencial na história contemporânea daquele país. Filha do presidente assassinado em 1975, Hasina encarnava outra dinastia política, com uma longa lista de mortos também a exigir um ajuste de contas. Durante algum tempo, combateram lado a lado contra o general Ershad. Mas este foi apenas o preâmbulo de um enredo político bem mais denso e trágico.

Quando Ershad caiu, em 1990, Khaleda Zia chegou primeiro. Em 1991 tornou-se a primeira mulher a chefiar o governo do Bangladesh. O país estava exausto, pobre, institucionalmente frágil. O seu primeiro mandato ficou marcado por decisões práticas: expansão do ensino básico, sobretudo feminino; consolidação da indústria têxtil de exportação; uma abertura económica que começou a retirar o país da categoria de desastre permanente. Falava, então, de um Islão sem fanatismo, de mulheres no espaço público, de normalidade. O sistema, porém, não permitia continuidades. O segundo mandato foi interrompido; o terceiro, iniciado em 2001, assentou numa coligação com partidos islamistas que minaria a sua posição. As acusações de corrupção, envolvendo ministros, aliados e os próprios filhos, tornaram-se matéria da intriga diária. O poder regressou a Sheikh Hasina, que o conservaria durante quinze anos, apertando gradualmente o campo político até à asfixia.

Para Khaleda Zia começou então a fase mais longa e excruciante: processos sucessivos, detenções domiciliárias, prisão efetiva em 2018 por alegada apropriação de fundos de um orfanato, sentenças agravadas, saúde em declínio. Doenças crónicas, covid, necessidade de tratamento no estrangeiro recusada pelos tribunais. O Estado mantinha-a viva e imóvel, uma presença incómoda que não desaparecia. Sucediam-se episódios de crueldade minuciosa, desde o despejo da casa oficial onde vivera durante décadas à acusação de celebrar um falso aniversário a 15 de agosto (data do massacre da família de Hasina) como se o calendário pudesse ser reescrito judicialmente.

Quando Sheikh Hasina caiu e fugiu do país, em 2024, Khaleda Zia já estava confinada ao leito. Foi libertada, vários processos foram arquivados, mas nada se reverteu verdadeiramente. Ainda assim, do hospital, celebrou a queda da rival como «o fim da tirania». Foram as suas últimas palavras públicas, tendo sido ditadas já sem grande fôlego nem margem para qualquer triunfo.