terça-feira, 10 fev. 2026

A Escolha que nos Protege

Portugal não precisa de um Presidente que descubra a geopolítica por resumos de imprensa internacional. Precisa de alguém que saiba ler o mapa antes que o mundo mude outra vez durante a noite.

Durante anos, habituámo-nos a pensar que a Presidência da República era sobretudo um cargo de equilíbrio interno, de palavras certas em momentos difíceis e de presença institucional nos feriados. Tudo muito civilizado, muito europeu, muito confortável.

O problema é que o mundo decidiu, entretanto, deixar de colaborar com essa visão serena.

A recente escalada de tensão na Venezuela - acompanhada por discursos inflamados vindos de Washington - é apenas mais um sinal de que o cenário geopolítico internacional está a mudar rapidamente. O tom adotado por Donald Trump, evocando um regresso à Doutrina Monroe, com a ideia explícita de que os Estados Unidos intervirão sempre que os seus interesses no hemisfério ocidental estejam em causa, não é coisa menor.

Trata-se de uma lógica do século XIX reaplicada no século XXI, com mísseis mais modernos, menos paciência diplomática e um multilateralismo cada vez mais opcional.

Quando se fala abertamente numa segunda vaga de ataques à Venezuela, quando se normaliza a ideia de intervenção unilateral - passando por cima do direito internacional -, o mundo entra numa fase menos previsível. E, de repente, países como Canadá, Dinamarca (via Gronelândia) ou Panamá passam de aliados tranquilos a potenciais peças num tabuleiro de risco. Se até os amigos podem acordar como “problemas estratégicos”, imagine-se o resto.

É neste contexto que convém lembrar um detalhe frequentemente esquecido: o Presidente da República Portuguesa é o Comandante Supremo das Forças Armadas. Não é uma nota de rodapé constitucional. É uma responsabilidade real. E, francamente, talvez não seja o melhor momento histórico para entregar essa função a alguém cuja experiência militar se resume a desfiles de 10 de Junho vistos da tribuna.

Aqui entra o nome de Henrique Gouveia e Melo. Não como figura messiânica, mas como alguém com experiência militar real, conhecimento estratégico e contacto direto com cenários de crise. Décadas de carreira nas Forças Armadas, liderança operacional, coordenação em contextos de elevada pressão e uma compreensão clara do funcionamento das alianças internacionais - tudo isto conta quando o mundo começa a falar mais em força do que em comunicados conjuntos.

Convém sublinhar um facto simples, ainda que desconfortável para alguns: nenhum dos restantes candidatos tem experiência militar relevante. Nenhum comandou operações, nenhum lidou com cadeias de comando reais, nenhum teve de tomar decisões onde o erro não dá direito a conferência de imprensa explicativa. Num mundo estável, isso poderia ser apenas um detalhe. Num mundo instável, é um problema.

Isto não significa desejar conflitos, nem adotar discursos belicistas. Pelo contrário. Muitas vezes, a melhor forma de preservar a paz é garantir que quem representa o Estado compreende profundamente a lógica militar e estratégica dos seus aliados e potenciais adversários. Diplomacia sem conhecimento da força é ingenuidade; força sem diplomacia é imprudência. O equilíbrio exige alguém que conheça ambas.

Portugal não precisa de um Presidente que descubra a geopolítica por resumos de imprensa internacional. Precisa de alguém que saiba ler o mapa antes que o mundo mude outra vez durante a noite. Num tempo em que o direito internacional é testado, as alianças são reavaliadas e os velhos fantasmas imperiais regressam ao discurso político, a Presidência exige preparação, não improviso.

E, goste-se mais ou menos do estilo, há uma evidência difícil de contornar: Gouveia e Melo está preparado para este mundo que já não é o de ontem. E isso, hoje, não é pouco.