sexta-feira, 06 fev. 2026

Um Ano Novo para viver melhor

Todos conhecemos alguém, no trabalho ou na escola, que não está bem.

Quando terminei o curso de Psicologia Clínica, há cerca de vinte anos, falava-se pouco de saúde mental. As saídas profissionais eram escassas e, simultaneamente, a psiquiatria era, dentro da medicina, uma espécie de parente pobre.

Com o tempo – e sobretudo após a pandemia de covid-19 – a saúde mental tornou-se uma preocupação central e um tema recorrente um pouco por todo o mundo. Hoje discute-se saúde mental na televisão, no café, nas escolas e nos locais de trabalho.

Sem dúvida, estamos mais atentos e informados. Há mais diagnóstico e menos preconceito. Ainda assim, torna-se difícil ignorar o aumento do mal-estar psíquico, visível sobretudo na crescente expressão de sintomas de ansiedade e depressividade, nas várias faixas etárias.

Todos conhecemos alguém, no trabalho ou na escola, que não está bem. Alguém que, numa conversa mais profunda, deixa escapar a tristeza, as preocupações, a ansiedade, a pressão... e, muitas vezes, as lágrimas.

E não será apenas aumentando a oferta de apoio psicológico – que continua escassa, sobretudo face ao aumento da procura – que resolveremos este problema. O mal-estar não se resolve apenas no consultório, onde se ajuda a cicatrizar as feridas que já existem.

O problema está na base. Está no pouco tempo que os pais têm para estar com os filhos desde o nascimento e durante a infância e a adolescência. Está nos horários alargados e no excesso de exigência desde os primeiros anos da escolaridade. Está na competitividade excessiva e nas metas irrealistas.

Dos jovens aos adultos, sentimos que muitos vivem em esforço permanente, como se se esperasse sempre mais do que aquilo que podem dar. E, para responder a essas exigências, acabam por abdicar de algo essencial: do tempo, da vida pessoal e familiar, do bem-estar – da sua saúde mental.

Enquanto não olharmos seriamente para a forma como estamos a tratar as pessoas, enquanto valorizarmos as jornadas de trabalho intermináveis, as metas impossíveis e a sobrecarga resultante da falta de contratação, em nome da produtividade e da redução de custos; enquanto as mães tiverem de deixar os filhos de poucos meses em infantários para voltar ao trabalho; enquanto os horários escolares forem pensados em função dos horários dos pais e não do bem-estar das crianças; enquanto lhes exigirmos demasiado dentro e fora da escola; enquanto pedirmos que, ao chegar a casa depois de um longo dia, se sentem a fazer os trabalhos de casa, entre zangas e desespero de todos, em vez de terem tempo para o desejado, merecido e precioso encontro de família, para a brincadeira e o descanso – será uma ilusão esperar que a saúde mental melhore.

Não será com mais psicólogos nas escolas, nas empresas, nos centros de saúde ou nos hospitais que resolveremos este problema. Jamais seríamos suficientes para dar resposta a todo o sofrimento que atravessa a nossa sociedade.

Há algo de profundamente desconcertante em falar de investimento em saúde mental enquanto mantivermos intactos os mesmos padrões que adoecem as pessoas. Enquanto exigirmos demais, respeitarmos e valorizarmos de menos e organizarmos a vida em função da produtividade e não do bem-estar. Enquanto continuarmos, coletivamente, a produzir doença – por excesso de exigência, pressão e desumanização.

Que 2026 traga a oportunidade de concretizar sonhos, desejos e projetos, colocando o bem-estar pessoal e familiar em primeiro plano. E que as relações, a amizade e a disponibilidade – para nós e para os outros – possam ser reconhecidas como o mais poderoso preventivo contra a doença.

A todos um excelente Ano Novo!