O Matuto gosta de fazer listas. Listas de livros para comprar, livros para ofertar, livros para arrumar, livros para catalogar, livros para baixar no Kindle, livros para passar a outro e não ao mesmo, livros de Inglês, livros de Teologia, livros para pesquisar, livros para recomendar, livros para dias chuvosos, livros para combater a nostalgia, livros para inspirar projectos, livros para ler à mesa do café, nos centros comerciais, nos restaurantes, no autocarro, no Uber, na praia, no sótão, na varanda, livros por temas, como guerra, paz, aventura, vingança, livros para meditar, chorar, sonhar, dançar, listas de livros de autores premiados pelo Nobel (não esquecendo os livros de António Lobo Antunes que merecia ser Nobelizado).
O Matuto, como se depreende, é um morigerado literato. Ele dá preferência a listas que tenham... livros. Ora bem! Nesta categoria há algumas bizarrias. Há listas de livros para ressonar (roncar, no Brasil, por favor), listas de livros para ler debaixo da cama, para ler com apenas uma meia no pé ou para equilibrar na cabeça, listas de livros para pesos de porta ou para usar como apoio de copo, listas de livros para ler enquanto se come pizza ou pipoca ou para se apreciar com um pastel de nata ou mastigando uma pastilha “Gorila”, listas de livros para ler em voz alta para as pombas da “Casa das Pontes” ou para o Óscar, a lagartixa residente das “Pontes”, listas de livros para ler em noites de lua cheia e uivar ao vento ao mesmo tempo ou para ler ao contrário ao espelho, listas de livros para ler segurando um guarda-chuva e enrolando uma toalha à volta da cabeça ou quando estamos sentados em cima da mochila no aeroporto...
O Matuto sabe de fonte segura que por esta altura do ano, muitos exemplares homo sapiens têm o hábito de fazer listas. Bem-intencionadas, é certo, mas... Enfim, adiante! O Matuto não se quer armar em carapau de corrida e timidamente fez duas listas, coladas com cuspo, de modestos objetivos para não desistir por dá cá aquela palha. Vejamos:
1. Lista de hábitos matinais milagrosos
(todos antes das seis da manhã, como se a santidade tivesse despertador)
– Acordar às 4h58, mas fingir que foi às 4h30 (ganda marosca!).
– Não tocar no telemóvel, porque o Matuto não tem telemóvel (esta está no papo).
– Beber um copo de água morna com limão, gratidão e muita mindfulness.
– Fazer exercício “funcional”, (o que será isso?), de preferência a sofrer.
– Fazer afirmações positivas ao espelho: “claro que não és gordo! Só cheinho!”
2. Lista de coisas para deixar para trás
(mas sem muita coragem nem dedicação)
– Hábitos antigos, com nomes novos (afinal, é tudo igual ao litro).
– Ressentimentos bem estimados, guardados como herança.
– Medos antigos, agora chamados de atentados à saúde mental.
– Desculpas recicladas, já com certificado de sustentabilidade ambiental.
– A ideia confortável de que o problema nunca é do Matuto.
O Matuto traz à memória que isto das listas não é uma mania moderna - é moléstia antiga. Já Eça de Queirós desfia listas inusitadas, no livro “A Cidade e as Serras”. Zé Fernandes é hóspede de Jacinto no nº 202 dos Campos Elíseos, em Paris. Zé Fernandes tem a sua profanidade serrana espicaçada por exemplo pela magnífica biblioteca: “majestoso armazém onde jaziam 30.000 volumes”. Havia “a região dos economistas. Avancei e percorri, espantado, oito metros de economia política”. “Depois, Zé Fernandes, avistou os filósofos, desde as escolas pré-socráticas até aos neo pessimistas”. Depois havia as secções de ciências naturais, história universal, morfologia, cristalografia, paleontologia, exegese religiosa, história religiosa. Sobre a escrivaninha tinha Jacinto vários “instrumentozinhos”, sendo que um “desavergonhado, picou” o Zé Fernandes. Jacinto explicou que simplificavam o trabalho e apontou: “este arrancava as penas velhas; o outro numerava rapidamente as páginas de um manuscrito; aqueloutro, além, raspava emendas... E ainda os havia para colar estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos”. À mesa abundavam os garfos: seis no total, e todos de feitios astuciosos. “Um era para ostras, outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro para as frutas, outro para o queijo”. Dona Sirlei, a gentil esposa do Matuto teria adorado esta artilharia pesada para mesa posta.
Jacinto rodeava-se de mimos: “E o aparador vergava sob o luxo assustador de águas. Águas esterilizadas, águas carbonatadas, águas fosfatadas, águas oxigenadas, águas de sais, outras ainda em garrafas bojudas, com tratados terapêuticos impressos em rótulos”. Mesmo assim Jacinto queixava-se: “ainda não encontrei uma boa água que me convenha, que me satisfaça... Até sofro sede!” Jacinto tinha na sua mesa de toilette, inúmeras escovas que regalavam o espírito: “porque as havia largas como a roda maciça dum carro sabino; estreitas e mais recurvas do que um alforge dum mouro; côncavas, em forma de telha aldeã; pontiagudas, em feitio de folha de hera; rijas que nem cerdas de javali; macias que nem penugem de rola!” Entretanto, é o descalabro no 202. Eça descreve vários episódios que um leitor desavisado consideraria uma sacripantice sabuja, mas que culminam numa valorosa resistência de Jacinto. Em menos de um fósforo a casa dos campos Elíseos é restaurada à sua glória apolínea. E, vem “a invasão dos livros no 202! Solitários, aos pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de autoridade, envoltos em plebéia capa amarela ou revestidos de marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiram por todas as largas portas a biblioteca, onde se estiravam sobre o tapete, se repimpavam nas cadeiras macias, se entronizavam em cima das mesas robustas, e sobretudo trepavam contra as janelas, em sôfregas pilhas, (será que uma pilha de livros chegou à lua? Ver texto de JC Saraiva aqui) como se sufocados pela sua própria multidão, procurassem com ânsia espaço e ar”.
O Matuto confessa que gostava de ser coevo do grande Eça, para manusear, cheirar e folhear em atávica reverência, todos os livros do universo. Juntos fariam listas de livros para ler... em 2026. Certinho como os figos a caírem de maduro é o Matuto desconfiar das listas de Resoluções de Ano Novo. Já tentou mudar de vida em Janeiro. Em Fevereiro, voltou a ser ele próprio, aliviado. A verdade é que o Matuto prefere as listas que nunca acabam — como a dos livros por ler ou a das graças divinas que se renovam sem calendário. Mas isso são outros quinhentos!