Henrique Gouveia e Melo reagiu esta segunda-feira às declarações de Luís Montenegro, acusando o primeiro-ministro de tentar condicionar a escolha dos portugueses nas próximas eleições presidenciais. O candidato a Belém deixou claro que o futuro Presidente da República não pode ser “nem uma marioneta de um Governo” nem alguém eleito para fazer oposição ao Executivo.
As declarações foram feitas após uma visita à fábrica da Delta, em Campo Maior, quando Gouveia e Melo foi questionado sobre o facto de o líder do PSD e primeiro-ministro o ter incluído no grupo de candidatos populistas às presidenciais. O antigo chefe do Estado-Maior da Armada começou por assegurar que, se for eleito, terá “uma relação construtiva e institucional” com o Governo, mas não escondeu o incómodo.
“Ouvi com desagrado as declarações do primeiro-ministro”, afirmou, acrescentando: “Acho que o senhor primeiro-ministro esteve mal, porque não se pode esquecer que, mesmo enquanto presidente do PSD, continua a ser um primeiro-ministro. Não consegue dissociar as duas coisas.”
Gouveia e Melo foi mais longe e acusou Luís Montenegro de querer influenciar diretamente a decisão dos eleitores. “Não pode condicionar os portugueses a escolherem o Presidente da República que ele acha que lhe dá jeito”, afirmou.
O candidato recusou de forma categórica o rótulo de populista e voltou a posicionar-se no centro político, defendendo uma economia social. Sem citar nomes, deixou críticas aos seus principais adversários na corrida a Belém. “Portugal precisa de um Presidente que seja um árbitro do sistema, que seja equilibrado. Ser uma marioneta de um Governo não é bom para o sistema, até porque o Governo nem tem maioria absoluta. Mas também tentar escolher uma pessoa que vá para lá para fazer uma oposição ao Governo não me parece igualmente uma coisa muito boa”, sustentou.
Na sua leitura do atual cenário presidencial, Gouveia e Melo considera que existem “dois candidatos do sistema: um a querer ir para Presidente para ajudar o Governo; e outro a querer ir para dizer que, de alguma forma, contraria o Governo”. Para o almirante, esta realidade compromete a independência exigida ao cargo. “Um Presidente da República tem de ser equilibrado e independente, mas essa independência está perfeitamente posta em causa, porque o que temos são candidatos verdadeiramente partidários”, disse.
Num novo ataque indireto aos candidatos apoiados pelo PSD e pelo PS, afirmou que estes não são suprapartidários. “Nem sequer conseguem ter o pleno dos seus partidos. Portanto, nem no partido conseguem o pleno e querem convencer a população portuguesa de que são suprapartidários. Não são suprapartidários. São verdadeiramente uma pequena cor do arco-íris”, atirou.
Gouveia e Melo repudiou ainda a comparação feita por Luís Montenegro entre si e André Ventura. “O primeiro-ministro pode chamar-me o que quiser, mas eu não sou aquilo que ele me quer chamar, porque nunca fui populista”, afirmou, sublinhando que não adota “as coisas fáceis”.
Ao recordar o seu percurso profissional, insistiu na imagem de moderação. “Na minha vida toda, se não fosse moderado e se não fosse equilibrado, se calhar teriam acontecido muitos acidentes ao longo da minha carreira”, disse, numa alusão ao seu papel na Marinha e à coordenação do plano de vacinação contra a covid-19. “Tive que tomar decisões muito difíceis, em muitos momentos. E a prova mais evidente foi o que aconteceu na pandemia”.
Sublinhe-se que as críticas de Gouveia e Melo surgem na sequência de declarações de Luís Montenegro no primeiro dia da campanha presidencial, ao lado de Luís Marques Mendes, candidato apoiado pelo PSD. Questionado sobre o panorama eleitoral, o primeiro-ministro afirmou que o país devia estar atento a “candidaturas de perfil populista”, enquadrando nesse grupo figuras que, segundo disse, se apresentam como independentes mas usam uma linguagem simples e apelativa para captar eleitorado. Foi nesse contexto que Montenegro incluiu Gouveia e Melo, aproximando-o do discurso do líder do Chega, André Ventura, uma comparação que o almirante considera injusta e politicamente condicionadora da escolha dos eleitores.