O principal acontecimento mundial de 2025 foi o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA. Inúmeros fatores conduziram ao seu êxito político e ao seu retorno, agora desenfreado, sem as peias que o retiveram no avatar anterior (2017-2021). Entre os fatores que permitem explicar o seu êxito, um ponto fundamental não é normalmente observado. Trata-se da perfeita indiferença de grande parte do eleitorado perante as falsidades óbvias que o presidente lança permanentemente.
Dada a falta de adesão à realidade do seu discurso, parece difícil compreender o êxito eleitoral e político de Trump e a extensa base de apoio que conquistou. Condenado pela justiça por diversos crimes, o presidente falta à verdade com muito mais frequência e desfaçatez ainda do que é corrente em política, abusa das hipérboles fantasiosas, do elogio em boca própria, repete, por exemplo, que venceu as eleições de 2020, que Biden ou Zelenski iniciaram a guerra da Ucrânia, que venceu o confronto comercial com a China ou, como o alfaiate mata-sete, que terminou com sete guerras – embora ninguém precise de perceber de que guerras exatamente se trata.
Como entender isto? A explicação para o fenómeno não deve ser buscada nem na alegada ignorância do eleitorado, nem nas ‘fake news’ ou nas ‘bolhas mediáticas’, mas no uso da linguagem por Trump.
Para entender Trump os princípios básicos da teoria da linguagem podem ajudar. Parte importante do êxito político de Trump resulta da alta intensidade do uso específico que faz da linguagem. O fenómeno não é novo, mas Trump é o primeiro político pós-1945 que faz uso público, ostensivo e sem restrições do que é mais específico, e mesmo constitutivo da política: o uso performativo da linguagem.
O que muitos críticos de Trump não compreendem é que a linguagem tem muitos usos. Um dos mais importantes é a representação de factos. Essa representação pode ser verdadeira ou falsa, verdade ou mentira, mas pouco tem que ver com a política. Outro uso fundamental é o performativo, quando se visa obter resultados, não apresentar factos. Ao contrário do discurso representativo, o performativo não pode ser falso ou verdadeiro, mas apenas ter ou não ter êxito.
A mentira que indigna os críticos de Trump pertence ao uso performativo. Mas Trump vai mais além. Não só explora sem limites esse uso da linguagem como, ao contrário do que é habitual, fá-lo de modo ostensivo.
É assim que cria um código tácito de acordo com os seus admiradores, que os torna imunes à verdade e à mentira. Não são estas que estão em causa. O segredo de Trump é que a falta de consideração pela verdade é subliminarmente captada pela base de apoio como expressão de poder e de uma vontade de obter resultados. E esta vontade é percebida como tanto mais forte quanto maior é o desprezo pela verdade. É por isso que, para os seus admiradores, não só é irrelevante que Trump diga a verdade ou a mentira, mas soa tanto mais verdadeiro quanto mais falta à verdade.
Como repete Cícero: «Há três meios de conduzir os homens à nossa opinião: instruí los, agradar lhes, tocá los. Destes três meios, um só deve ser confessado: é preciso parecer que só visamos instruí los». Ou seja, o uso performativo que, indiferente à verdade ou a falsidade, visa manipular sentimentos, tem de permanecer sempre como a parte inconfessável da prática política.
O que Trump torna óbvio e ostenta é que a política assenta muito mais no uso performativo do que no representativo. Não que a verdade não exista, como é hoje quase consensual, e não só à esquerda. Só que não é o critério principal do uso político da linguagem. Bem adaptado aos tempos pós-modernos, Trump falta ostensivamente à verdade para teatralizar esse inconfessado. Para cúmulo, e paradoxalmente, consegue parecer aos seus adeptos mais autêntico do que os seus adversários, que procuram evitar mentir com demasiada frequência.
Ou seja, respeitando o espírito da política na era da pós-verdade, Trump soa a muitos tanto mais verdadeiro quanto mais falso o conteúdo do que diz.