Outrora uma das mulheres mais desejadas do mundo, enfrentou os dramas do envelhecimento, da doença e do declínio longe dos holofotes e das câmaras. Se de quando em quando ainda fazia uma rara aparição pública, era para advogar pelos direitos dos animais ou para mostrar a repugnância que sentia pela sociedade contemporânea. «Sou mais feliz na minha rotina hoje do que quando era perseguida por 100 fotógrafos», esclareceu em tempos numa entrevista.
Brigitte Bardot, ou simplesmente B.B., a musa do cinema francês que redefiniu os padrões de beleza feminina, morreu na madrugada do passado domingo no seu refúgio de Saint-Tropez, onde vivia rodeada de animais. Tinha sido sujeita a uma intervenção cirúrgica há cerca de dois meses, o que gerou rumores acerca da sua morte, rapidamente desmentidos. Bernard d’Ormale, o quarto marido, acompanhou-a até ao último suspiro.
Considerada a mulher francesa mais célebre depois de Joana d’Arc, Brigitte Anne-Marie Bardot nasceu em Paris a 28 de setembro de 1934, no seio de uma sólida burguesia católica e conservadora. O pai, Louis Bardot, era engenheiro e proprietário de fábricas; a mãe, Anne-Marie Mucel, 16 anos mais nova do que o marido, também provinha de um meio abastado.
A família vivia num apartamento grande e confortável, localizado num bairro elegante. A casa tinha um grande corredor, dependências para as criadas, sete quartos, mobiliário de época, lareiras em todas as divisões e uma varanda que dava para a Place de la Muette.
Mas a infância de Brigitte e da sua irmã mais nova, Mijanout, ficou marcada sobretudo pela disciplina rígida imposta pelos pais. As maneiras à mesa eram uma preocupação constante e as roupas das meninas criteriosamente escolhidas. A atriz recordava como ela e a irmã tinham sido um dia castigadas com 20 chicotadas por terem partido um jarrão de porcelana. Além da punição física, os pais passaram a tratá-las pelo formal vous (você), para acentuar a distância, o que lhe causou um ressentimento que nunca viria a dissipar-se por completo.
A mãe esperava que Brigitte pudesse vir a ser bailarina e, a par da escola, onde só ia três dias por semana, inscreveu-a no ballet. Isso permitiu-lhe em 1949 anos entrar para o Conservatório de Paris, sob a orientação do coreógrafo russo Boris Knyazev. Mas o seu destino estava prestes a mudar. Nesse mesmo ano, a diretora da revista Elle convenceu a família a deixá-la trabalhar como modelo.
A sessão fotográfica para a Elle haveria de revelar-se o seu passaporte para o cinema e não só, tendo chamado a atenção do realizador Marc Allégret, que pediu ao seu assistente, Roger Vadim, para encontrar a jovem e a levar às audições do filme Les Lauriers sont coupés (1952). Brigitte não foi escolhida para o papel, mas a atração entre ela e Vadim foi mútua e imediata. Os dois iniciaram uma relação amorosa, que os pais dela não viram com bons olhos, até porque ela tinha apenas 15 anos e ele 22. Quando o pai lhe anunciou que, para cortar o mal pela raiz, a mandaria estudar para Inglaterra e que até já tinha comprado o bilhete de comboio, Brigitte, em desespero, ligou o forno, abriu a porta e pôs a cabeça lá dentro. Os pais acabaram por ceder – a relação com Vadim seria tolerada desde que se casassem assim que a filha fizesse 18 anos.
Apesar da primeira rejeição, as portas da representação abriram-se ainda em 1952, com um pequeno papel na comédia Le Trou normand, de Jean Boyer. A partir daí os convites para filmes iriam suceder-se, impedindo-a até de completar o liceu, o que provocou consternação na família. A participação n’A Rapariga do Bikini (1952), de Willy Rozier, também não terá sido vista com bons olhos pelos pais.
No ano seguinte, Brigitte já tinha conquistado estatuto suficiente para contracenar com Kirk Douglas em Act of Love, um filme de Hollywood rodado em Paris que a catapultou para o Festival de Cannes, com o qual haveria de ter uma longa ligação. Em Doctor at Sea, um dos filmes mais vistos em Inglaterra em 1955, era a personagem interpretada por Dirk Bogarde quem se apaixonava por ela.
O círculo alargava-se cada vez mais e em 1956 vestia a pele de Popeia Sabina, a segunda mulher do imperador em O meu filho Nero, uma paródia italiana ambientada na Roma clássica. Para o papel, pintara o cabelo de louro, e o resultado agradou-lhe tanto que decidiu manter o cabelo assim.
Já o cartaz do musical Cette sacrée gamine (em inglês Naughty Girl, 1956) mostra-a numa pose provocante, com um vestido diminuto e as pernas à mostra, à boa maneira das coristas do Pigalle. Em suma: uma estrela. Foi o seu primeiro contacto com Alain Delon, que não lhe deixou saudades. «O Alain é bonito, sem dúvida, mas a minha cómoda Luís XVI tambémo é», escreveria nas suas memórias. «Não há nada no seu rosto ou nos seus olhos que provoque a mínima emoção». E rematava: «É um ser frio, extremamente egocêntrico».
Mas, evidentemente, 1956 é sobretudo o ano de E Deus Criou a Mulher, a estreia na realização de Roger Vadim, celebração de uma beleza feminina espontânea e sem artifícios, uma espécie de musa ao natural. Com os seus cabelos soltos, os pés descalços e os dentes subtilmente desalinhados, Bardot simbolizava um novo tipo de mulher, altamente inflamável, impudica, um pouco inconsciente, embora sem ignorar o efeito que provocava nos homens. O oposto do que os pais haviam tentado incutir nela.
«Então, vais ser uma boa esposa?», perguntava-lhe a certa altura do filme o noivo. Ao que ela respondia sem rodeios: «Gosto demasiado de me divertir». O local escolhido fora uma pequena vila de pescadores, Saint-Tropez, que parava para assistir às filmagens.
Nos puritanos Estados Unidos da América, o filme alcançou um tremendo sucesso de bilheteira. Mas também foi proibido em muitas salas e reputado de sacrílego, obsceno, indecente, lascivo e imoral.
Simone de Beauvoir, que crescera num meio muito semelhante ao da atriz, tinha outra opinião. «BB não é perversa, nem rebelde, nem imoral, e é por isso que a moralidade não tem a mínima hipótese com ela. O bem e o mal fazem parte de convenções às quais ela nunca pensaria curvar-se», escreveu no ensaio ‘Brigitte Bardot e a síndrome de Lolita’, de 1959. Ao mesmo tempo, admitia: «o seu andar é lascivo e um santo venderia a alma ao diabo só para a ver dançar».
Durante as filmagens, BB iniciou um caso com Jean Louis Trintignant, o que levou à separação de Vadim – que não se mostrou ressentido. Mas o seu segundo casamento é com Jacques Charrier, de quem tem um filho, em 1960. Mais tarde confessaria que chegou a automutilar-se e que só não abortou porque era proibido. Chorara ao ver-se ao espelho e pensar que deixaria de ter um corpo perfeito; considerou a gravidez «um castigo de Deus». Compreensivelmente, as relações com o filho, Nicolas, seriam sempre tumultuosas.
Outro dos seus amantes é o cantor Serge Gainsbourgh, com quem grava uma versão escaldante de ‘Je t’aime moi non plus’, que continuará secreta durante duas décadas, abrindo espaço a uma outra versão, com Jane Birkin, que se tornará célebre.
Seguiu-se Günter Sachs, um playboy e milionário alemão de olhos azuis, que usava a camisa aberta até meio do peito, chegava a casa dela de helicóptero e a cobria de rosas. «Um ano com Bardot equivale a dez anos com outra mulher», disse Sachs.
Em 1963 nasce outro marco na sua carreira, Le Mépris (O Desprezo), de Jean-Luc Godard, obra icónica da Nouvelle Vague, em que Bardot volta a ser um objeto de desejo carnal, mas numa versão mais madura e intelectualizada. O que estava de acordo com a sua personalidade, uma vez que adorava ler Sartre.
Fará cinema durante mais dez anos até que um dia, em junho de 1973, está a rodar, com um cordeiro no set, e um homem lhe diz:«‘Despacha-te lá e acaba a cena, que domingo é a comunhão do meu sobrinho e ainda temos de o assar’. Comprei o animal, amarrei-o com uma corda e levei-o para o hotel de cinco estrelas. Subi com ele para o meu quarto, que escândalo! Nesse dia, decidi deixar o cinema e ajudar os animais». Criou uma espécie de arca de Noé na sua propriedade de Saint-Tropez, adquirida em 1958, La Madrague.
«Dei a minha juventude e a minha beleza aos homens. Vou dar aos animais a minha experiência e a minha sabedoria», afirmou. Viria a revelar que, na altura em que abandonou a representação, bebia duas garrafas de champanhe e três garrafas de vinho por dia. «Em dez anos passei pelo que uma mulher normal passa talvez em trinta. Chegou tudo ao mesmo tempo, tudo muito forte e muito depressa. E quando as coisas são assim e não estamos preparados é terrível». Fez três tentativas de suicídio, cortando os pulsos e com comprimidos.
Abandonar os palcos e abraçar a causa dos animais parece tê-la serenado. Em 1986 criou a sua fundação pela proteção e bem estar animal. Passou as últimas décadas refugiada em La Madrague, cada vez mais desgostosa com o mundo. Não tinha telemóvel e recusõu sempre as operações plásticas e a internet. Achava a sociedade «horrível» e mais de uma vez se expressou contra a vaga de imigração, que acusou de destruir a identidade de França. Também criticou o movimento MeToo. O seu quarto e último casamento, que durou de 1992 até ao fim, foi com Bernard d’Ormale, homem de negócios e em tempos conselheiro de Jean-Marie Le Pen. No seu livro de memórias, a atriz e ativista descreveu-o como um «amor à primeira vista».