segunda-feira, 09 fev. 2026

Boaventura de Sousa Santos: ‘Como sabiam as rés que iam ganhar?’

Sociólogo desistiu de processos contra as mulheres que o acusaram de suposto abuso e assédio. Mas vai continuar a ‘lutar contra as injustiças’
Boaventura de Sousa Santos: ‘Como sabiam as rés que iam ganhar?’

O sociólogo Boaventura de Sousa Santos — que em 19 de dezembro informou por escrito o Tribunal Judicial da Comarca de Coimbra de que desistia de uma ação cível contra algumas das mulheres que o acusaram de assédio — sugeriu esta semana, em declarações ao Nascer do SOL, que não sente confiança na Justiça. 

Questionado sobre a afirmação, ao Expresso, do chamado Coletivo de Vítimas, segundo as quais desistiu a poucos dias das alegações finais porque «sabe que vai perder», o sociólogo declarou: «Eu não sabia qual ia ser o desfecho. Se consideram que eu sei que ia perder, isso significa que elas sabiam que iam ganhar? Acho muito estranho e preocupante que façam tal afirmação quando ainda havia muita prova a produzir. Como sabiam as rés que iam ganhar essa ação?».

Boaventura de Sousa Santos, de 85 anos, ajudou a fundar em 1978 o Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, no âmbito do qual alegadamente teriam ocorrido ao longo de décadas atos de assédio sexual e moral contra investigadoras e estudantes do sexo feminino.

O suposto caso foi conhecido em março de 2023, depois de uma denúncia indireta  num capítulo do livro Sexual Misconduct in Academia, rapidamente associado a Boaventura de Sousa Santos, ao antropólogo Bruno Sena Martins e a outras pessoas do CES. 

Segundo o sociólogo, que até à eclosão do escândalo era diretor emérito da instituição, a desistência das ações — duas ações, uma contra quatro residentes em Portugal e outra contra nove residentes no estrangeiro — deveu-se ao facto de que «algumas das rés nessas ações continuaram a difamação na comunicação social e nas redes sociais, já na pendência do processo, o que tornou as suas condenações completamente inúteis».

«O mal já estava feito e a condenação das rés não iria reparar o mal que me haviam feito», argumentou, queixando-se de que «o processo contra as quatro residentes em Portugal esteve parado por mais de um ano», pois «estranhamente a gravação da sessão de julgamento de algumas das minhas testemunhas ficou danificada e só recentemente se conseguiu recuperar esses depoimentos».

Ainda assim, mantém neste momento uma queixa-crime que apresentou em agosto no Tribunal Judicial da Comarca de Coimbra contra as 13 acusadoras. «Sei que algumas das mulheres que integram o coletivo de vítimas foram já constituídas arguidas. Teremos de aguardar o decurso do inquérito. Sei também que três dessas mulheres, depois de terem conhecimento da minha queixa-crime — não sei como, mas é mais uma circunstância estranha — avançaram também com uma queixa contra mim», adiantou,  no que parece novamente uma crítica indireta à Justiça.

Boaventura de Sousa Santos garantiu-nos que até hoje não foi acusado por qualquer instância judicial. «Nunca fui condenado nem sequer acusado por qualquer facto relacionado com qualquer tipo de assédio, nem houve, em qualquer altura, qualquer queixa contra mim por assédio».

O sociólogo, que se tornou uma referência no pensamento político da esquerda, tem vindo a resistir ao que repetidamente classifica como «uma injustiça e um linchamento». Foi distinguido em 24 de novembro pelo Instituto dos Advogados Brasileiros, no Rio de Janeiro, e no dia 18 de dezembro foi defendido através do Manifesto Contra o Cancelamento, em que dezenas de figuras públicas portuguesas e internacionais, incluindo os juristas Baltasar Garzón e Vital Moreira, consideram que tem sido «vítima de uma difamação».

«Não sei se sou ou não um símbolo de resistência contra essa cultura de cancelamento. Lutei pelos mais desfavorecidos e contra as injustiças toda a minha vida» e «continuarei a lutar», acrescentou o sociólogo, fazendo notar que sente «um tratamento diferenciado na comunicação social», pela negativa, relativamente às suas posições.