segunda-feira, 09 fev. 2026

Adeus, Marcelo

O tempo será mais clemente com Marcelo do que os seus sucessores, opositores e comentadores. E isso já se vê nos índices de popularidade, que voltaram a subir…

Se soubesse o que sabe hoje, talvez Marcelo Rebelo de Sousa não se tivesse candidatado ao segundo mandato em Belém. Agora, o Presidente da República entra no seu pôr-do-sol com alguma placidez popular mas sem poder político efetivo. Os primeiros balanços que farão da sua Presidência serão menos justos que os mais tardios. Aliás, tal sucedeu com todos os Presidentes da democracia.

O desdém institucional com que o primeiro-ministro Luís Montenegro trata Marcelo é um ajuste de contas, só sustentável pela assincronia entre quem está ainda na entrada e quem já está de saída. Mais simbólica é a forma como praticamente todos os candidatos a suceder-lhe na Presidência se demarcaram dele, chegando a definir-se como opostos de Marcelo, criando o lugar-comum de que não serão comentadores de atualidades nem artistas de variedades.

O segundo mandato de Marcelo foi de declínio: quer por ser desestabilizador, quer por não lograr ser estabilizador, ele ficará associado a quedas de governo e a eleições antecipadas, incluindo depois da eclosão do caso das gémeas, que lhe tirou autoridade, energia e presença, e isto já depois de ter visto o balão do seu protagonismo esvaziado por António Costa depois do caso Galamba. E isto subentende que grande parte da importância política de Marcelo nos primeiros anos era-lhe concedida ou consentida por António Costa, com quem estabeleceu uma parceria longa e benéfica para ambos. Até ao dia em que acabou – e acabou na pequenez das vinganças.

A aliança entre PM e PR começou em 2016, quando Costa e Marcelo inventaram o conceito ‘descrispar’ para começar a reverter a austeridade, quer política quer psicológica, que marcara os anos anteriores, da troika e do governo de Passos Coelho. Essa aliança de interesses coincidiu com os anos solares de Marcelo: o Marcelo dos afetos, da proximidade, da palavra permanente, o Marcelo que dava carinho e ânimo, que foi determinante no princípio da pandemia, quer jurídica, quer humanamente – mas também um Marcelo que condicionava. 

Essa é porventura a estratégia menos compreendida hoje sobre a forma como Marcelo exerceu a sua presidência: alimentar em permanência a sua popularidade para poder usá-la como alavanca de um poder permanente, e não resignado a ser usado apenas ocasionalmente em momentos-chave, como aconteceu com outros Presidentes. Marcelo soube desde o início (e muitos de nós soubemo-lo no início por ele) que o aparelho institucional democrático estava sob ameaça, com a emergência de forças políticas, sindicais, sociais e comunicacionais não-orgânicas, que pretendiam impor-se pela emocionalização do discurso e radicalização da proposta de ação. Marcelo quis ser vacina contra esse vírus, ou pelo menos glóbulo branco de defesa do corpo institucional sob ataque. E assim se fez um ‘populista bom’ contra os ‘populistas maus’. Falhou, porque o contra-sistema é caoticamente eficaz na exploração destrutiva de um sistema tornado vulnerável por dentro, por aqueles que o ferem com os seus próprios vícios, mediocridades e cedências. Mas falhou também porque perdeu poder.

O tempo será mais clemente com Marcelo do que os seus sucessores, opositores e comentadores. E isso já se vê nos índices de popularidade, que voltaram a subir, sobretudo entre os mais velhos, que ele sempre acarinhou, e entre as mulheres, que se vão distanciando das escolhas políticas pelas doutrinas dos brutos. 

Não é ainda hora de fazer a biografia de Marcelo, talvez o político mais exagerado, frenético e contraditório em décadas, mas é tempo de sublinhar os traços de uma Presidência que entra no seu último período, o da sucessão. Intrinsecamente católico, talvez Marcelo tenha querido merecer o cognome de Pio. E talvez o seu lado luminoso venha mesmo a prevalecer sobre as sombras onde, neste final de mandato, se encolheu.