A união que não existe

O modelo dual que Proença criou, com o presidente do Conselho de Arbitragem, Luciano Gonçalves, e o Diretor Técnico Nacional de Arbitragem, Duarte Gomes, não se articula e as avaliações públicas e intermitentes deste último só contribuem para o caos instalado

Há pouco mais de um ano escrevi nesta coluna sobre o futebol e os desafios que se colocavam ao futuro presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF).Ora, com menos de um ano de mandato, Pedro Proença não se cansa de proclamar os seus sucessos pessoais. Integra agora o comité das competições de seleções masculinas na FIFA, o que considera ser um reconhecimento do estatuto internacional do futebol português. Mas parece-me fraco consolo para a derrota na eleição para o Comité Executivo da UEFA, depois do seu antecessor, Fernando Gomes, ter enviado uma carta a todas as federações europeias a dar conta de que não o apoiava. 

Como a vingança se serve fria, Proença ordenou a realização de uma auditoria forense aos mandatos do seu antecessor, a quem não deixa de reconhecer méritos. Fê-lo ao completar mais uma fase da Cidade do Futebol, em Oeiras, um projeto ambicioso, com um valor final acima de cem milhões de euros, que é apontado por alguns como incompreensível, havendo tantas lacunas a nível nacional, e que Proença quer ampliar.

Proença até tem razões para estar satisfeito com os resultados desportivos. Como realçou há dias, «2025 é um ano absolutamente marcante, porque nunca tinha acontecido estarmos presentes em seis finais e, dessas seis, ganharmos cinco». Ainda assim, a poucos meses do Campeonato do Mundo de Futebol, levantam-se dúvidas quanto à capacidade da nossa Seleção, a quem Proença exige o título, coisa nunca antes ouvida e improvável. 

Temos um leque de jogadores com potencial para serem campeões do mundo, mas ‘as laranjas são melhores do que o sumo’: o selecionador faz escolhas discutíveis, vergado ao peso dos nomes, e apresenta uma equipa intermitente, capaz do melhor e do pior.

No plano nacional, Proença considera que «o futebol português vive hoje um momento de grande união». Há dias pedia-nos: «Acreditem que digo isto com convicção. O futebol português está vivo e está bom». A verdade é que só mesmo o presidente da FPF acreditará em tal diagnóstico. Desde logo porque desvaloriza o papel da Liga Portugal, a que anteriormente presidiu, promovendo o diálogo direto com os clubes e curto-circuitando, assim, o papel do seu sucessor Reinaldo Teixeira, por quem não morre de amores. Depois, e talvez por ter sido árbitro, Proença finge não conhecer a séria crise de transparência que envolve a arbitragem, que se adensa a cada semana, com episódios vergonhosos. É hoje consensual que os árbitros têm uma influência determinante no desfecho das partidas de futebol. Tudo começa com as nomeações sem critério claro, que condicionam as equipas e reforçam o favoritismo de um ou outro clube. Não há ‘jarra’ que suspenda ou afaste árbitros que são useiros e vezeiros em cometer erros graves. 

O VAR profissionalizado, com um leque de ex-árbitros de fraca valia e reputação, que devia ser um instrumento de auxílio ao trabalho do árbitro, ora ignora situações em que deveria intervir, ora interfere diretamente, e muita das vezes erradamente, no julgamento que não lhe caberia fazer. Dirigentes, treinadores, jogadores e adeptos insurgem-se contra uma situação que esbarra no corporativismo da classe e no comentariado especializado, formado por antigos árbitros, que se esforçam para branquear sucessivos escândalos. Nas redes sociais grassa a convicção, por parte de adeptos de todos os clubes, de que estamos confrontados com sucessivas roubalheiras. 

A reação da associação da classe tem sido colérica e a postura dos árbitros nunca foi tão arrogante. Nunca houve tantas expulsões de elementos do banco, nunca se vira, em direto, um árbitro a ‘crescer’ provocatoriamente contra um jogador, quando tem a possibilidade de, querendo, utilizar os recursos disciplinares. O modelo dual que Proença criou, com o presidente do Conselho de Arbitragem, Luciano Gonçalves, e o Diretor Técnico Nacional de Arbitragem, Duarte Gomes, não se articula e as avaliações públicas e intermitentes deste último só contribuem para o caos instalado.

Não, a união e o sucesso não se proclamam, por vaidade ou ilusionismo, contra a evidência. O futebol nacional não está bem, nem está melhor do que há um ano.