quarta-feira, 11 fev. 2026

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A reação à imigração descontrolada – que em 10 anos mais que quadruplicou o número de imigrantes – foi um aspeto incontornável da cena nacional

No final de ano é costume passar em revista os temas que o dominaram. Vou fazê-lo, socorrendo-me dos três temas que mais consistentemente abordei nesta minha coluna. 

1. À cabeça destaca-se o primeiro ano da administração de Donald Trump (DT). Não espanta, pois DT continua a desafiar os limites do que julgávamos admissível e o mundo dança a um ritmo por ele marcado. Começou com as tarifas ditas compensatórias que, depois de avanços e recuos, elevaram a taxa efetiva a níveis nunca vistos nos últimos cem anos. Foram racionalizadas como instrumento para corrigir os ‘défices comerciais bilaterais’ (bizarramente encarados como ‘roubos’), mas rapidamente se revelaram um chicote imperial para punir os países ou líderes que de alguma forma desagradaram a DT. É uma política ignara do ponto de vista económico e cujos principais prejudicados serão os próprios cidadãos americanos. Felizmente, com exceção da China, o mundo não retaliou e evitou-se uma guerra comercial global. Ao comércio seguiu-se a ideologia. A propósito de combater o antissemitismo, a administração lançou um ataque sem precedentes em democracia à autonomia da Universidade de Harvard e, por implicação, à própria liberdade académica. As universidades, movidas pelo desejo dos seus órgãos de governo de promover ideais ‘progressistas’, há muito haviam deixado de ser exemplos de espaços de liberdade de expressão e puseram-se a jeito. Contudo, os ataques da administração Trump esconderam mal o desejo de substituir o ‘progressismo wokista’ pelo ‘reacionarismo maganista’. Estes dois desenvolvimentos foram a salva inicial de uma cruzada global contra as instituições multilaterais (substituindo-as pelo império dos mais fortes nas respetivas esferas de influência) e contra a suposta degenerescência moral das sociedades modernas e em favor de valores cristãos reacionários, (para o que Putin é um aliado mais próximo do que as elites europeias), e que encontrou expressão articulada, já no final do ano, com a divulgação da Estratégia de Segurança Nacional.

2. A reação à imigração descontrolada – que em 10 anos mais que quadruplicou o número de imigrantes – foi um aspeto incontornável da cena nacional. A imigração foi discutida sob os mais diversos ângulos: crime, segurança, economia, habitação, saúde e integração. Todas estas dimensões são relevantes e nenhuma deve ser ignorada. A esquerda, tantas vezes enredada em batalhas identitárias, escolhe aqui privilegiar as necessidades da economia, juntando-se assim a muitos patrões, geralmente em atividades de baixo valor acrescentado, a quem aproveita a mão-de-obra barata. Os limites desta visão utilitarista ficaram expostos com a crise do Talude militar em Loures.  À direita enfatiza-se a matriz civilizacional da nossa sociedade, que reflete muitas influências, mas que foi forjada principalmente pelo Cristianismo e está recheada de pressupostos, normas e referências cristãs. E, por isso, as nossas instituições não são universais nem partilhadas por todos. E renegá-las é renegarmo-nos. É, assim, razoável esperarmos que aqueles que convidamos para a nossa casa e que não comungam desta mundivisão, a respeitem e aceitem das regras e crenças que dela decorrem. Felizmente, parece existir convergência para soluções legislativas equilibradas patentes na lei da burqa ou nas recentes leis de estrangeiros e da nacionalidade. 

3. Em 2025 tivemos duas eleições – legislativa e autárquicas – e uma pré-campanha presidencial. Globalmente confirmaram um país virado à direita sem que, contudo, essa inclinação encontrasse necessária tradução política, tal é o grau de heterogeneidade nesse espaço político, fragmentado entre conservadores, liberais, social-democratas, social-liberais e nacionalistas. Todavia, o facto mais marcante é a ascensão do Chega a segundo partido parlamentar e de André Ventura a figura de primeiro plano. O gatilho que espoletou essa ascensão foi a entrada maciça de imigrantes, muitos deles de culturas dificilmente integráveis, que trouxe à superfície sentimentos nacionalistas e mesmo xenófobos latentes. Depois, sobreveio uma difusa revolta antissistema alimentada pela impotência do centro político para resolver os problemas do cidadão comum e pela rejeição de um dado tipo de político e um estilo da fazer política, habilidosa, meias-tintas e politicamente correta. Veremos como este sentimento influenciará as escolhas nas presidenciais. 

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