segunda-feira, 09 fev. 2026

Um homem de consensos que ‘dormiria mal’ se desistisse da corrida a Belém

António Filipe, 62 anos, candidata-se a Presidente da República depois de quase 50 anos de atividade política. Rosto conhecido dos portugueses, não tivesse sido ele o deputado que mais tempo exerceu funções na AR. Conta com o apoio do PCP, onde entrou em 1983
Um homem de consensos que ‘dormiria mal’ se desistisse da corrida a Belém

Depois de quase 50 anos de atividade política, não só no cargo de deputado à Assembleia da República, mas também exercendo várias funções ao serviço do PCP, António Filipe, de 62 anos, candidata-se a Presidente da República. O anúncio foi feito em julho, perante uma plateia cheia na Voz do Operário, assumindo ser a «voz dos anseios de todos os trabalhadores», bem como «de todos os que criam riqueza e não usufruem dela» ou que «nunca desistem de lutar pela sociedade livre, justa e solidária». 

Nem o falecimento da mulher pouco tempo antes fez o candidato presidencial recuar. O político casou aos 22 anos com a também militante comunista Orlanda Rodrigues, com quem viveu quatro décadas. O desfecho já esperado por António Filipe. «Era muito previsível, a situação era de agravamento, sabia e disse aos meus camaradas que estamos confrontados com uma eventualidade e se for muito próximo do momento em que tínhamos combinado a apresentação da candidatura, adiamos», admitiu no programa Júlia, mas optou por não adiar. 

Quando oficializou a entrada na corrida a Belém, admitiu que não se tratava de uma candidatura de um homem só. «Esta candidatura corporiza um desígnio coletivo, uma ideia para o país, um caminho para o futuro». Um caminho que, no seu entender, «exige a afirmação da alternativa que se impõe face à situação insustentável a que chegámos, que exige coragem para a rutura e para abrir um rumo novo para o país assente nos valores de Abril e no cumprimento da Constituição».

O candidato que conta com o apoio do PCP nasceu a 28 de janeiro de 1963, na Amadora, distrito de Lisboa, e tinha 12 anos quando se deu o 25 de Abril. Um dia em que, nas suas palavras, «a vida passou a ser a cores» e que o levou, em junho do mesmo ano, a ter o primeiro encontro com o partido. «Fiquei fascinado ao conhecer a vida de um velho dirigente do PCP, aquela conversa abriu-me uma perspetiva do papel que tinham tido [na luta antifascista] e eu devo dizer que, naquele turbilhão, ganhei uma grande vontade de intervenção política. Até hoje. Foi uma paixão que ficou», disse no mesmo programa. 

O pontapé de partida para a sua entrada na política foi com a JCP, em 1979, ano da fundação, tornando-se seu dirigente em 1985.

Dois anos depois, António Filipe seria convidado para integrar as listas da CDU nas legislativas de 1987. Torna-se deputado em 1989, cargo que manteria ininterruptamente até 2021. A sua saída marcou o fim de uma geração de deputados eleitos pela primeira vez na década de 1980 e respeitando a tradição do Partido Comunista de manter os seus deputados por mais tempo na Assembleia da República.

Regressou ao Parlamento nas eleições de 2022, altura em que a CDU conquistou quatro mandatos. Em 2024, no arranque de um novo ciclo legislativo, António Filipe assumiu as rédeas da presidência dos trabalhos, nomeadamente para a eleição do presidente da Assembleia da República, por ser o deputado mais antigo e já que o socialista Augusto Santos Silva tinha falhado a eleição. «Quando, aos 26 anos, entrei pela primeira vez na Assembleia da República estava longe de imaginar que me iria acontecer isto na vida», referiu. 

Um Longo Percurso

Um trabalho que mostrou para fora o seu perfil de gerar consensos –ao conseguir um acordo entre o PSD e o PS para eleger José Pedro Aguiar-Branco, que deveria ser substituído, ao fim de duas sessões legislativas, pelo candidato socialista Francisco Assis, mas que acabou por não acontecer depois da rejeição da moção de confiança que derrubou o primeiro Governo de Luís Montenegro e precipitou eleições legislativas antecipadas –, uma característica valorizada pelos seus colegas do Parlamento, incluindo pelos seus adversários, a par do seu sentido de humor, por ser uma pessoa séria e aberta ao diálogo.

Foi vice-presidente da Assembleia da República em três Legislaturas (2005-2009, 2011-2015 e 2019-2022) e é membro da direção do grupo parlamentar do PCP desde 1990.

No plano autárquico, foi membro da Assembleia Municipal da Amadora entre 1993 e 2001 e da Assembleia Municipal de Sintra entre 2004 e 2019. Em 2001, foi candidato pela CDU à Presidência da Câmara Municipal da Amadora, tendo sido eleito vereador.

No plano académico, é licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (1986) – foi colega de turma do ex-primeiro-ministro e presidente do Conselho Europeu, António Costa, e aluno do atual chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa –, mestre em Ciência Política, Cidadania e Governação pela Universidade Lusófona (1999) e doutor em Direito Constitucional pela Universidade de Leiden (2013).

Foi professor auxiliar convidado da Universidade Lusófona entre 2001 e 2012; da Universidade Europeia entre 2012 e 2024; e do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro. Foi membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico de Santarém entre 2017 e 2021.

Foi agraciado com a Ordem do Mérito Civil de Espanha e com a Medalha da Defesa Nacional de 1.ª Classe em Portugal. É sócio desde os 13 anos e membro do Conselho Geral do Clube de Futebol Os Belenenses.

O candidato é autor de obras científicas como As Oposições Parlamentares em Portugal – 1976-2000 e O Referendo na Experiência Constitucional Portuguesa. É também co-autor da Legislação Fundamental de Governo Local e Administração Autárquica, e da Enciclopédia da Constituição Portuguesa. A par das obras conta ainda com vários artigos publicados em revistas científicas em Portugal, Itália, Espanha e no Reino Unido.

‘Levar até ao fim’

Apesar das críticas que têm sido feitas no que diz respeito à dispersão de votos à esquerda, António Filipe já prometeu que a sua candidatura «é para levar até ao fim», classificando-a como diferenciadora, identificada com os trabalhadores e com os seus direitos. «A minha candidatura não é para desistir, a minha candidatura diferencia-se dos demais e, portanto, é uma candidatura que só pode ser para levar até ao fim. Disse isso desde o primeiro dia, e não sou daqueles políticos que dizem uma coisa hoje e amanhã dizem outra», afirmou. 

O candidato disse ainda que «dormiria mal se traísse aqueles que querem votar» em si, respondendo assim a António José Seguro, que no debate televisivo entre os dois atirou que António Filipe «não dormirá bem» se o confronto final for entre um candidato de direita e outro de extrema-direita.

António Filipe é perentório: «Candidaturas que pensam que só vão a algum lado se os outros desistirem, não têm grande futuro, é um sinal de fragilidade. Pela minha parte, não equaciono a possibilidade de desistir a favor de ninguém porque a minha candidatura é insubstituível e também não apelo a desistências de ninguém». Tá dito e redito.