Marcelo. 10 anos de grandes decisões

Com 2ª volta quase certa, o próximo Presidente da República deverá tomar posse daqui a dois meses. É o que sobra ao atual inquilino de Belém. E vai haver um Conselho de Estado em ‘phasing out’? Uma vez Marcelo, para sempre Marcelo
Marcelo. 10 anos de grandes decisões

Há um Conselho de Estado marcado para janeiro para tratar de questões internacionais que acabou por causar um turbilhão nas questões nacionais – algo que Marcelo Rebelo de Sousa não ignorava –, uma vez que dois candidatos a suceder-lhe têm lugar no órgão consultivo do Presidente da República – Luís Marques Mendes e André Ventura – e assumiram posições distintas sobre o assunto. Ventura vê a marcação, para o dia 9, a apenas dez dias das eleições presidenciais, como uma forma de o ainda Presidente «interferir e participar» na campanha eleitoral; Marques Mendes argumenta que «são apenas três horas a menos na campanha».

Em meados de dezembro, Marcelo admitia aos jornalistas que estava em phasing out, com uma atividade circunscrita às questões do dia a dia e já a arrumar papéis. Mas decorrem as conversações de paz para a Ucrânia, com os líderes da União Europeia inevitavelmente envolvidos, tal como é inevitável que o Presidente da República e comandante supremo das Forças Armadas tenha uma palavra a dizer sobre o assunto, para além do que disse o primeiro-ministro, e queira ouvir o Conselho de Estado – também porque, como esta semana Marcelo Rebelo de Sousa dizia ao Nascer do SOL, a propósito deste artigo, «os mandatos ainda não acabaram». E também não acabou uma das campanhas eleitorais presidenciais mais competitivas de sempre, onde nada é neutro.

Um ‘bromance’ e uma união de conveniência

O Presidente da República, também conhecido como ‘O Dissolvente’, responde com candura que só trabalhou com dois primeiros-ministros nos 10 anos em que está no Palácio de Belém. Contas feitas, temos um Presidente, dois primeiros-ministros e quatro eleições legislativas – uma no primeiro mandato presidencial e três no segundo –, o que ajuda a explicar o epíteto de ‘Dissolvente’. A tudo isto junta-se um paradoxo: Marcelo gostava de António Costa e disse, há um ano, «éramos felizes e não sabíamos», referindo-se ao atual presidente do Conselho Europeu e ao tempo em que, enquanto primeiro-ministro, viveram um ‘bromance’ em palácios separados, e tolera agora Luís Montenegro, o atual primeiro-ministro, que «é difícil de entender” e tem “comportamentos rurais».

Em 24 de abril de 2024, na véspera dos 50 anos da Revolução, o Presidente reuniu-se com a imprensa estrangeira acreditada em Lisboa, num jantar informal, garantindo aos jornalistas que não haveria perguntas inconvenientes. As respostas do Presidente é que foram – e esse momento ajuda a definir como poucos Marcelo Rebelo de Sousa, precisamente porque o mostra a falar sem filtros, de forma deliberada.

Mais tarde, o Presidente acabaria por justificar algumas das coisas que dissera nesse jantar, à sua maneira, como uma criança apanhada na dispensa a comer doces: explicou que os jornalistas lhe perguntaram se podiam questioná-lo sobre tudo, que ele respondeu a tudo e que não estava arrependido de nada do que tinha dito.

Marcelo nunca responde ‘sim’ ou ‘não’, é pedagógico, explica. Explicou, por exemplo, comparando Costa, que «é oriental» e, por isso, «lento», a Montenegro, que «não é oriental, mas é lento», acrescentando: «Não imaginam como é difícil eu adaptar-me a um novo primeiro-ministro». Por essa altura, Montenegro já era o líder do Governo, mas, para Marcelo, «não é lisboeta nem portuense, é uma pessoa que vem de um país profundo, urbano-rural, urbano com comportamentos rurais» e, por isso mesmo, «é difícil de entender».

Marcelo entendeu que, depois de Costa, não havia nenhum outro socialista de quem gostasse tanto para convidar a formar Governo e a visitá-lo às quintas-feiras e não hesitou em criar as condições para que o ‘rural’ do PSD chegasse ao poder. De certa forma, foi um casamento por conveniência, e queixou-se: «Todos os dias tenho surpresas», lamentando que «com o primeiro-ministro António Costa era ao contrário, tentava informar». Mais tarde, em dezembro, voltaria ao assunto: «Dizia muitas vezes a um governante com o qual partilhei quase oito anos e meio de experiência inesquecível: um dia reconhecerá que éramos felizes e não sabíamos».

Essa felicidade foi quebrada por uma procuradora-geral da República nomeada pelo Presidente. No mesmo jantar, Marcelo referiu-se a Lucília Gago como alguém que teve um ato «maquiavélico» durante a Operação Influencer, que levou à demissão de António Costa em 7 de novembro de 2023. «Se a senhora procuradora, com a mesma presteza com que teve a iniciativa de abrir um inquérito envolvendo também o primeiro-ministro um mês antes de os portugueses saberem… descubro, umas semanas mais tarde, que tinha aberto um inquérito contra terceiros e em que dia? No dia 7 de novembro. Que eu achei maquiavélico. Género de equilíbrio, equilíbrio sofisticado. Muito bem…abriu, abriu», disse Marcelo aos jornalistas estrangeiros.

O equilíbrio tinha a ver com outro caso que envolveu o Presidente – ou, pelo menos, o seu nome. Na manhã em que Lucília Gago foi ao Palácio de Belém falar com Marcelo sobre a operação que levou à demissão de Costa, não o terá informado da abertura do inquérito que lhe dizia respeito, ainda que «sem pessoa determinada», e que corria no DCIAP de Lisboa, tendo como objeto o crime de tráfico de influência.

Foi também nesse jantar que o Presidente assumiu ter cortado relações com o filho, Nuno Rebelo de Sousa, depois do caso que marcou como nenhum outro o seu segundo mandato – o chamado ‘caso das gémeas’ e um medicamento de milhões de euros, o Zolgensma, a que as crianças luso-brasileiras tiveram acesso, com o nome Rebelo de Sousa a abrir portas através de email, sem que o filho tivesse informado devidamente o pai, o que, para o Presidente, «foi imperdoável».

O Presidente alargou ainda o tema do perdão às responsabilidades pelos crimes cometidos durante o tempo colonial, outro dos temas polémicos do segundo mandato. «Temos de pagar os custos. Há ações que não foram punidas e os responsáveis não foram presos? Há bens que foram saqueados e não foram devolvidos? Vamos ver como podemos reparar isto», afirmou no jantar em que estavam presentes vários jornalistas brasileiros.

No ano anterior, pela mesma altura, durante a sessão de boas-vindas ao Presidente Lula da Silva, que antecedeu a sessão solene comemorativa do 49.º aniversário do 25 de Abril no Parlamento, o Presidente disse: «Não é apenas pedir desculpa – devida, sem dúvida – por aquilo que fizemos, porque pedir desculpa é, às vezes, o que há de mais fácil; pede-se desculpa, vira-se as costas e está cumprida a função. Não, é o assumir a responsabilidade para o futuro daquilo que de bom e de mau fizemos no passado».

Finalmente, e ainda no referido jantar, Marcelo disse que António Costa seria presidente do Conselho Europeu, mas não acertou quando afirmou que o processo judicial contra o ex-primeiro-ministro iria decorrer «mais facilmente, mais rapidamente».

Não há segundo como o primeiro

A afirmação de que o segundo mandato presidencial é sempre diferente do primeiro é um lugar-comum, mas sabemos que os lugares-comuns são úteis porque interpretam consensualmente a realidade. Os dois mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa foram, sem fugir à regra dos presidentes antes dele – Eanes, Soares, Sampaio ou Cavaco –, completamente diferentes, por inúmeras razões, desde logo pela fragilidade pessoal e física do Presidente da República. O coração do homem que entrou no Palácio de Belém não é o mesmo, e Marcelo também não.

Marcelo Rebelo de Sousa chegou pelo seu próprio pé, literalmente, ao Palácio de Belém, em 9 de março de 2016, para assumir o cargo de Presidente da República. Ir a pé para o Palácio não foi uma atitude banal, aliás, Marcelo transformou, como nenhum outro, atitudes banais em atos simbólicos, como aquele em que foi, no meio de uma crise política, e mais uma vez a pé, ao multibanco pagar contas – foi em 27 de outubro de 2021, depois de o Parlamento ter chumbado o Orçamento do Governo liderado por António Costa, que ainda assim não se demitiu.

O ato inaugural, em que o Presidente da República eleito à primeira volta nas eleições presidenciais de 24 de janeiro de 2016 se dirigiu a pé para a residência oficial, deu os primeiros sinais de que o protocolo é coisa de Estado, mas que, para Marcelo, foi sempre uma regra com incontáveis exceções. Até Donald Trump percebeu que o Presidente português, no que toca ao modo de ser e de estar, não era um chefe de Estado igual aos outros: para além de falar inglês, usava a mesma linguagem. Quando se encontraram, em junho de 2018, em Washington, durante o primeiro mandato de cada um deles, falaram do «melhor jogador do mundo», Cristiano Ronaldo, com Marcelo a usar habilmente palavras e gestos para se manter no mesmo patamar do Presidente norte-americano.

Reeleito para dissolver 

Em 24 de janeiro de 2021, Marcelo é reeleito, mais uma vez à primeira volta, com uma maioria largamente confortável (60,7%). Os portugueses gostavam de Marcelo, que gostava do primeiro-ministro António Costa, que por essa altura liderava um Governo minoritário do Partido Socialista, com o apoio da esquerda parlamentar… ainda. Em outubro, o BE e o PCP roeram a corda na aprovação do Orçamento do Estado e votaram contra.

Era o início de uma outra história. No início de novembro, o Presidente anuncia que vai dissolver a Assembleia da República, eleita a 6 de outubro de 2019, num contexto em que o BE e o PCP já desciam a montanha dos votos. Volta a dissolver o Parlamento, ainda que por razões diferentes, em 2024 e em 2025. Passou-lhe pelas mãos a mudança de um Governo de maioria absoluta do PS para outro de maioria relativa da AD. 

Entretanto, Portugal e o mundo tinham enfrentado a pandemia de covid-19 e, por cá, Marcelo foi incansável, como só ele sabe ser, no cuidado com os outros, mesmo quando desastradamente anunciou que iria passar o Natal em família. Quer dizer, nada mais normal – mas não depois de ter dito que «se for preciso repensar o Natal em família, repensa-se», colocando em causa o Natal tradicional, de reuniões familiares alargadas, com toda a carga emocional associada, o acabou por remediou.

Em maio de 2023, não teve outro remédio senão promulgar a lei que legaliza a morte medicamente assistida, depois de um primeiro veto.

Irremediavelmente infeliz foi a frase «400 casos não me parece particularmente elevado», quando se referiu aos abusos sexuais na Igreja Católica. As declarações, vistas como uma desvalorização do drama das vítimas, obrigaram a esclarecimentos posteriores e a uma comunicação de emergência, em que o próprio garantiu que não estava a minimizar a gravidade da situação.

A batalha perdida dos sem-abrigo

Em novembro de 2019, Marcelo declarou que queria acabar com as situações de sem-abrigo até 2023 – aquele que se revelou o seu annus horribilis. Na altura, disse que era uma tarefa «difícil, mas não impossível». Foi impossível. Os sem-abrigo aumentaram 10% de 2023 para 2024 e são agora mais de 14 mil em Portugal. Também por isso, em novembro deste ano, o Presidente reconheceu: «Se há tristeza que eu tenho no coração é porque a pobreza não diminuiu aquilo que devia ter diminuído», ao mesmo tempo que admitia que há no país 400 mil pessoas que precisam da ajuda do Banco Alimentar para matar a fome.

Um Presidente a acumular milhas

Marcelo é o Presidente que mais viagens oficiais realizou: mais de 150 deslocações a quase 60 países. Começou com uma viagem ao Vaticano, que incluiu uma audiência com o Papa Francisco, no mesmo dia em que jantou em Madrid com o Rei Felipe VI. Foi a Angola uma dezena de vezes, ao Brasil por diversas ocasiões e, logo em 2016, a Moçambique e a Timor-Leste, no mesmo ano em que visitou Cuba e o Reino Unido. Em 2018 foi aos Estados Unidos, percorreu inúmeros países europeus – sempre muito bem acolhido no Palácio do Eliseu – e visitou a Ucrânia em guerra. Em 2025, esteve na Alemanha, no Bürgerfest, numa visita que o líder do Chega, André Ventura, transformou numa festa mediática. Foi tão hiperativo no exterior como no interior e alimentou críticas pouco diplomáticas, como a de ser excessivamente informal em dossiês sensíveis.

Em 2017, Marcelo esteve entre os chefes de Estado que assistiram, em Luanda, à tomada de posse de João Lourenço como Presidente da República. Entretanto, em Portugal, o Ministério Público recusou o pedido de Angola para transferir o processo judicial conhecido como Operação Fizz, que envolvia Manuel Vicente, alegando que Portugal tinha competência para julgar o ex-vice-Presidente angolano. O juiz do caso concordou com o MP, mas a defesa de Vicente recorreu para o Tribunal da Relação de Lisboa.

Em Luanda, a Procuradoria-Geral da República e o Palácio Presidencial deram sinais de incómodo, amplificados pela imprensa angolana. O então ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, falou de um «irritante», que viria a ser ultrapassado em maio de 2018, quando a Relação de Lisboa decidiu enviar o processo de Manuel Vicente para Angola. O processo acabou por congelar em Luanda.

Na altura, Marcelo mostrou-se satisfeito com o desfecho e com o desaparecimento do ‘irritante’, sentimento partilhado por João Lourenço. O site da Presidência da República dava conta de que os dois Presidentes reiteraram «as relações fraternas e de amizade entre os dois países». Marcelo foi mais longe, afirmando que Portugal e Angola estavam «condenados a entender-se». E entenderam-se. Este ano, o Presidente português esteve mais uma vez em Luanda, por ocasião das celebrações dos 50 anos da Independência de Angola, e considerou que «é difícil encontrar um momento tão excelente nas relações» entre os dois países.

Ao cair do pano, Marcelo já decidiu o que fará quando deixar o Palácio de Belém. Aceitou o convite de uma universidade norte-americana para dar aulas e é na Califórnia que tenciona «juntar o útil ao agradável» e assistir aos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028.