Dos rendimentos às despesas: o que muda em 2026

2026 não traz uma revolução nos preços, mas soma algumas pequenas alterações que, juntas, podem fazer a diferença no orçamento mensal dos portugueses
Dos rendimentos às despesas: o que muda em 2026

Antes de se sentir o impacto do sobe e desce dos preços na eletricidade, na alimentação ou nos transportes, 2026 começa com mudanças diretas no rendimento e nas regras sociais que moldam o orçamento das famílias portuguesas. Há salários que aumentam, pensões que voltam a ser atualizadas e uma idade da reforma que continua a avançar.

A partir de 1 de janeiro, o salário mínimo nacional sobe de 870 para 920 euros brutos mensais, um aumento de 50 euros face a 2025. A medida abrange centenas de milhares de trabalhadores, representando um reforço do rendimento mensal, ainda que limitado pelo contexto inflacionista.

Também os pensionistas vão sentir um ajustamento positivo. Em 2026, as pensões são atualizadas de acordo com a fórmula legal que tem por base a inflação e o crescimento económico, com aumentos mais expressivos nos escalões mais baixos – estimados em torno dos 2,8% – e percentagens mais reduzidas nas pensões de valor mais elevado.

Em sentido inverso, a idade legal de acesso à pensão de velhice volta a aumentar. Em 2026, passa para os 66 anos e 9 meses, mais dois meses do que no ano anterior, refletindo a aplicação automática do mecanismo que liga a idade da reforma à evolução da esperança média de vida aos 65 anos.

É neste enquadramento – de rendimentos ligeiramente mais elevados, mas também de regras mais exigentes e custos em ajustamento – que se desenha o mapa das principais mudanças que vão mexer com a carteira dos portugueses ao longo de 2026.

Eletricidade, gás e água: ajustes em alta

No setor da energia, a eletricidade regulada vai ficar mais cara em 2026. A Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) aprovou uma subida média de cerca de 1% na tarifa regulada, valor que serve de referência para o mercado e que se traduz num ligeiro aumento da fatura mensal para muitas famílias. «No mercado regulado de Portugal continental, as tarifas transitórias de venda a clientes finais em Baixa Tensão Normal (BTN) apresentam, em média, uma variação de 1,0%, em 2026», pode ler-se no comunicado da ERSE.

Isto traduz-se num aumento entre 0,18 e 0,28 euros na conta mensal da luz, já com taxas e impostos.

Lembrar ainda que os consumidores com tarifa social vão ter um desconto de 33,8% sobre a tarifa normal. Será uma poupança média de 13,50 euros para um casal sem filhos, e de 32,95 euros para um casal com dois filhos.

No mercado liberalizado – e lembrando que a ERSE anunciou para 2026 um aumento médio de 3,5% das tarifas de acesso às redes de eletricidade – a EDP Comercial anunciou uma descida real de 1%, e a Galp de 0,5%.

Quanto ao gás natural, não existe um valor único fechado para 2026, mas a ERSE já sinalizou a manutenção de custos elevados e alguma volatilidade, dependentes da evolução dos mercados internacionais. Aliás, o gás natural já teve um aumento de 1,5% em outubro de 2025, que vigorará até setembro de 2026, impactando a fatura com uma subida média de 0,21  a 0,36 euros mensais, mas não há confirmação de novos aumentos para depois de 2026 neste momento.

Já no caso da água, não há um aumento nacional uniforme. As tarifas são definidas a nível municipal e várias autarquias já aprovaram ou discutem subidas nos preços da água e do saneamento, justificadas pela inflação, pelos custos de tratamento e pelas exigências regulatórias.

Rendas: coeficiente legal fixa subida máxima

As rendas de habitação poderão ser atualizadas em 2026 com base no coeficiente legal publicado pelo INE, que foi fixado em 2,24%. Este valor corresponde à variação da inflação sem habitação e define o limite máximo da atualização anual dos contratos.

A aplicação deste aumento não é automática nem obrigatória, dependendo da decisão do senhorio e do cumprimento dos prazos legais de comunicação. Ainda assim, em contratos que não tenham sido atualizados nos últimos anos, a aplicação acumulada de coeficientes anteriores pode resultar em aumentos mais expressivos.

Portagens e transportes: em linha com a inflação

As portagens nas autoestradas deverão subir em 2026 cerca de 2,3%, seguindo a fórmula legal que combina a inflação sem habitação com um fator de compensação às concessionárias. No entanto, não serão só aumentos. A partir de abril, deixam de se pagar portagens em toda a A25 e em dois troços da A6 e da A2 no Alentejo. No segundo caso, a isenção aplica-se apenas a residentes e empresas sediadas nas áreas de influência das autoestradas.

Recordar ainda que o Orçamento do Estado para 2026 prevê que os veículos pesados passam a estar isentos de portagens na Circular Regional Exterior do Porto (A41) e em troços da A19 e da A8, na região de Leiria.

No caso dos transportes públicos,  o destaque vai para a CP onde viajar vai ficar mais caro, com os serviços a aumentar 2,26%.  No entanto, a empresa garante que «o preço do Passe Ferroviário Verde e dos passes Navegante e Andante, não terão qualquer alteração». 

Já as tarifas de transportes urbanos também vão subir: em Lisboa, por exemplo, o bilhete de bordo sobe de 2,20 para 2,30 euros, e algumas tarifas combinadas de Carris/Metro aumentam ligeiramente.

Alimentos: inflação moderada, mas sem grandes descidas

Os preços dos alimentos deverão continuar a subir em 2026, embora a um ritmo mais contido. As projeções económicas apontam para uma inflação global próxima dos 2%, o que sugere aumentos moderados nos bens alimentares.

Segundo a própria distribuição,  a carne de vaca e o peixe devem continuar a subir cerca de 6%. O pão segue a mesma tendência e também deve continuar a aumentar de preço e os ovos também.

Quando ao café, os analistas preveem que, depois de máximos históricos no início de 2025, o mercado do café entrou numa fase de correção. Já o cacau, que começou 2025 com máximos históricos, para 2026, a expectativa é de continuação da correção.

No caso do leite é esperada alguma estabilidade. Aliás, a APROLEPjá veio manifestar a sua preocupação e «indignação face ao recente anúncio por parte das cooperativas associadas na Lactogal relativo à baixa de 3 cêntimos por litro no preço ao produtor, a partir de 1 de janeiro», garantindo que essa descida «atinge imediatamente 70% dos produtores portugueses e poderá arrastar outras descidas por parte dos restantes compradores». 

Comissões bancárias: revisões dependentes das instituições

Não há uma tabela nacional de comissões bancárias. Os bancos definem os seus preçários de forma autónoma e costumam proceder a revisões periódicas, muitas vezes associadas à inflação e aos custos operacionais.

Assim, embora não existam anúncios formais de aumentos generalizados, é expectável que algumas comissões sofram ajustes ao longo do ano, como tem acontecido no passado. E é preciso lembrar o fim da isenção da comissão de reembolso antecipado em créditos à habitação e a potencial subida nas comissões de cartões de crédito, embora não haja um aumento generalizado e específico anunciado para todas as comissões, mas sim uma tendência de subida impulsionada por fatores como o fim de apoios e a procura por maior rentabilidade, com algumas instituições a já a sentirem pressão para aumentar receitas.

Além disso, a taxa de juro do crédito bonificado para compra de casa por pessoas portadoras de deficiência vai aumentar 0,06 pontos, de 2,563% para 2,623%, no primeiro semestre de 2026.

Telecomunicações: operadoras confirmam aumentos

Este é um dos setores onde os aumentos estão claramente confirmados. MEO, NOS e Vodafone anunciaram que vão atualizar os preços de vários serviços em 2026, ao abrigo das cláusulas contratuais que permitem ajustes em função da inflação.

A Vodafone, por exemplo, informou que a atualização entra em vigor a partir de janeiro. A ANACOM lembra que estas alterações são legais quando previstas no contrato, mesmo durante períodos de fidelização.

A exceção é a DIGI, que comunicou que não irá aumentar preços no arranque de 2026.

Combustíveis e tabaco: caminhos diferentes

Os preços dos combustíveis continuam fortemente dependentes da evolução do petróleo nos mercados internacionais e da carga fiscal. As projeções económicas apontam para uma evolução mais moderada do preço do crude em 2026, o que poderá conter subidas acentuadas nos combustíveis, embora sem garantias.

Segundo Ricardo Evangelista, da ActivTrades, o petróleo termina 2025 com quedas superiores a 20%. A principal razão foi «um excesso de oferta a nível global, impulsionado pelo aumento da produção dos países da OPEP+ e dos Estados Unidos, bem como por um abrandamento da procura mundial provocado pelo choque das tarifas». Este cenário deverá prolongar-se em 2026, embora existam sinais de estabilização.

Já no caso do tabaco, a tendência é diferente. O Orçamento do Estado prevê aumentos da carga fiscal, o que tradicionalmente se reflete num encarecimento dos cigarros e outros produtos de tabaco ao consumidor final. Feitas as contas, o tabaco vai ficar mais caro devido ao aumento do preço dos selos fiscais em cerca de 2%, o que, combinado com uma subida geral da receita fiscal prevista pelo Orçamento do Estado para 2026 (cerca de 4,4% ou 72 milhões de euros a mais), fará com que o preço final por maço suba, podendo chegar a cerca de 1,22 euros a mais.

Setor automóvel: sem grandes alterações

Os preços no setor automóvel em Portugal não terão grandes revoluções. Ainda assim, o Orçamento do Estado prevê um aumento da receita fiscal automóvel (IUC, ISV, ISP) para mais de 5,3 mil milhões de euros, sem subir as taxas principais, mas contando com maior consumo e ajuste no ISV para híbridos plug-in.

IMI: valor de referência atualizado

Em 2026, o cálculo do IMI poderá mudar para alguns proprietários. O Governo fixou o valor base do metro quadrado para efeitos de IMI em 570 euros,  um aumento de mais de 7% face aos 532 euros do ano anterior. 

Este valor influencia a determinação do Valor Patrimonial Tributário (VPT) dos imóveis, que por sua vez pode refletir-se no IMI a pagar. No entanto, esta atualização só se aplica a imóveis novos, reconstruídos ou avaliados novamente, não afetando automaticamente o IMI de todas as casas existentes.

Recorde-se que o IMI não sobe automaticamente com a inflação. O impacto final depende da avaliação concreta de cada imóvel e das taxas definidas por cada município, o que significa que alguns proprietários poderão pagar mais e outros menos, consoante o caso.

Outros valores

Além de todos estes valores já mencionados que vão mexer com a carteira dos portugueses, há outros que se podem juntar. E há boas notícias. No caso dos medicamentos, os antibióticos, analgésicos, antidiabéticos e outros que custam até 30 euros não vão aumentar de preço no próximo ano. O mesmo não se pode dizer dos CTT, onde os preços vão aumentar cerca de 6,2% a partir de 2 de fevereiro de 2026, com o correio normal nacional até 20g a ficar mais caro em quatro cêntimos.

Já no que diz respeito aos seguros, o custo dos seguros de saúde deverá aumentar de forma significativa em 2026. Relatórios internacionais indicam que os prémios desses seguros podem subir até cerca de 10%, refletindo um aumento dos custos médicos e dos serviços de saúde, muito acima da inflação geral. Também os seguros automóvel vão ficar mais caros, tendo em conta que as seguradoras já antecipam aumentos entre 6% e 10% a partir de 2026