A prova organizada pela Amaury Sport Organisation (ASO) é uma aventura única e desafiante que marca a carreira de qualquer piloto. Durante duas semanas e 13 etapas, os concorrentes levam ao limite as emoções da velocidade e o desafio da navegação num percurso de 8.000 quilómetros, dos quais 4.840 são cronometrados, em pistas rápidas, zonas rochosas e campos de dunas, com a particularidade de passarem por Al Ula e Yanbu, duas cidades que são património da UNESCO. A edição deste ano não entra pelo assustador deserto do Empty Quarter, mas tem duas etapas maratonas que são um duro teste à condução e à resiliência dos pilotos. No final do dia, dormem em sacos-cama, recebem apenas água e uma ração militar e têm de fazer a assistência ao carro. É o regresso ao espírito original do Dakar.
A prova criada por Thierry Sabine em 1979 continua a despertar paixão nos amantes do todo-o-terreno, que começam o ano a milhares de quilómetros de casa só para sentir o ‘perfume’ do deserto. A edição deste ano conta com 812 concorrentes (pilotos e navegadores) de 69 nacionalidades e 433 veículos (automóveis, motos, SSV e camiões). Portugal está representado por 27 pilotos nas várias categorias.
A Dacia vai alinhar com Lucas Moraes, campeão do mundo de rally-raid, Nasser Al Attiyah, cinco vezes vencedor do Dakar, Sebastien Loeb e Cristina Gutierrez, ao volante do Dacia Sandrider (360 cv). A Toyota Gazoo Racing conta com Henk Lategan, Seth Quintero e Toby Price, que troca as motos pelo novo Toyota Hilux DKR GR (375 cv). A Ford alinha com Carlos Sainz, Nani Roma, Mattias Ekstrom e Mitch Guthrie com o imponente Ford Raptor T1+ Evo (360 cv). Estas equipas têm verdadeiros protótipos com chassis tubular em fibra de carbono, potentes motores V6 (Toyota e Dacia) e V8 (Ford) a gasolina, suspensões sofisticas e caixa sequencial de seis velocidades.
A Toyota Gazoo Racing South Africa está igualmente entre as favoritas. João Ferreira vai conduzir um carro com as especificações de 2026, e tem a seu lado Filipe Palmeiro, um dos melhores navegadores do mundo, que conhece a prova desde o tempo que atravessava África e terminava no Lago Rosa, em Dakar. É a quarta participação do piloto, que tem como melhor resultado o oitavo lugar em 2025, mas é primeira vez que está em pé de igualdade com pilotos que, até há pouco tempo, eram os seus ídolos, basta ver que o engenheiro e os mecânicos do seu carro são os mesmos que venceram o Dakar o ano passado com Yazeed Al Rajhi. João Ferreira registou um crescimento muito rápido entre a elite do todo-o-terreno mundial, com a particularidade ter mais participações em provas internacionais do que em Portugal. Recorde-se que, além dos dois títulos nacionais, venceu a Taça do Mundo de Bajas em 2024 e a Taça de Europa em 2022 e 2024. Só falta mesmo erguer o troféu Touareg, entregue ao vencedor do Dakar.
Toyota favorita
João Ferreira mostra-se orgulhoso por correr pela Toyota Gazoo Racing South Africa «é um passo muito importante na minha carreira», disse o piloto, de 26 anos, que adiantou: «Faço parte daquela que é a melhor estrutura e tem o carro que dominou o Dakar nos últimos anos, isso dá-me uma motivação extra para repetir a vitória de 2025. Trabalhámos bastante ao longo do ano para sermos competitivos e estou muito confiante». Quando lhe perguntámos o quanto confiante estava, não vacilou: «Só me importa a vitória. Tenho um excelente carro, as pessoas certas à minha volta e um navegador muito experiente, cabe-me a mim fazer o resto». E recordou: «Eu próprio, tenho vindo a preparar-me para que isso aconteça. Vencer o Dakar é um objetivo de carreira».
A prova prolonga-se por duas semanas e tem quase 5.000 quilómetros de setores cronometrados, pelo que a estratégia é fundamental para conseguir um bom resultado nesta aventura saudita. «Não podemos encarar o Dakar da mesma forma que encaramos as outras provas. É verdade que os carros estão cada vez mais rápidos, mas, por vezes, temos de adotar uma toada conservadora para poupar a mecânica e os pneus. É também importante gerir o esforço físico, sobretudo nas etapas mais longas. O segredo é encontrar um ritmo veloz e confortável, sem cometer erros. Temos uma estratégia delineada para cada dia, mas, obviamente, tudo isto é muito dinâmico e a estratégia pode ser ajustada», referiu o piloto, que adiantou: «Se conseguirmos cumprir o nosso plano o resultado vai ser seguramente muito bom». João Ferreira referiu ainda: «Não estou muito preocupado em vencer etapas como aconteceu o ano passado, o meu foco está em ganhar a prova. Os vencedores do Dakar não são aqueles que ganham mais etapas, mas aqueles que são bons em todas as etapas».
Carlos Sainz demonstrou isso mesmo ao ganhar o Dakar 2024 com o futurista Audi RS e-Tron sem vencer qualquer etapa! Se falhar esse objetivo, tem outro em mente: «Se não for a vitória, um pódio no Dakar era bem-vindo».
A Dacia e Ford têm pilotos que já venceram o Dakar, mas isso não assusta o português. «Há pilotos muito rápidos de gerações diferentes e todos querem o mesmo que é ganhar», afirmou João Ferreira, que lembrou: «Nem sempre ter o melhor carro garante a vitória, pois há muitos aspetos que podem condicionar o desempenho de um piloto. A Toyota tem um excelente carro e não tenho dúvidas de que vai andar na frente e lutar pela vitória».
Como se percebe pelas suas palavras, a motivação está em alta em vésperas de começar a 48.ª edição da maior e mais longa prova do desporto automóvel. O percurso «não assusta», mas mete respeito: «Este ano não temos as dunas do tamanho de prédios que havia no Empty Quarter, mas o Dakar tem sempre as suas dificuldades. Vamos ter outro tipo de dunas e zonas com muita pedra. Pelo nome das cidades, temos uma ideia do percurso, mas quando chegamos lá as condições são diferentes, o deserto está constantemente a mudar».
Entre os portugueses, destaque para as participações de Alexandre Pinto, campeão do mundo de SSV, e de Gonçalo Guerreiro, piloto oficial da Polaris. Ambos vão mostrar a sua rapidez nas dunas do deserto com o objetivo de ganhar a categoria. Maria Luís Gameiro vai conduzir pela primeira vez o Mini JCW 3.0D da equipa X-Raid no Dakar, e o objetivo é chegar ao fim.
Nas motos, o campeão do mundo de rally-raid, Daniel Sanders (KTM), parte como principal favorito, mas vai a ter oposição do colega de equipa Lucinano Benavides, e dos pilotos oficiais da Honda, em especial de Tosha Schareina e Adrien Van Beveren.
A prova mais exigente do mundo serve também para testar novas tecnologias no Mission 1000. A edição deste ano vai ter sete motos elétricas e o camião MAN KH7 6x6 com tecnologia híbrida diesel/hidrogénio, com 800 cv de potência. As 13 etapas são um verdadeiro laboratório ao ar livre, onde os concorrentes vão percorrer um total de 1.071 quilómetros.