sexta-feira, 06 fev. 2026

Quando até a corrida presidencial mergulha no lodo

O ano de 2026, que agora começa, pode ser uma oportunidade para recuperar uma certa dignidade perdida. Menos ruído e mais substância. Menos teatro e mais responsabilidade

Há momentos em que a política deixa de ser confronto de ideias e passa a ser um ruído permanente. A campanha para Presidente da República que agora atravessamos tem esse sabor amargo. Não porque discutir o futuro do país seja inútil, mas porque o fazemos de cabeça baixa, no meio de insinuações e ataques que ainda não percebi bem quem visam agradar no país. Demasiado ressentimento, demasiada maledicência e muito pouca elevação. Quando isto acontece numa eleição para a mais alta magistratura do Estado, o problema já não é de um candidato ou de outro. É de um sistema político que se habituou a viver de polémica e esqueceu a sua função. Lamento profundamente o ponto a que chegámos.

A Presidência da República não é mais um palco. É, ou deveria ser, o último refúgio de sobriedade institucional. O lugar onde a palavra pesa mais do que a vaia e onde o silêncio vale mais do que o soundbite. Quando vemos que ali também se instala a lógica do ataque fácil, algo se perdeu no caminho.

Nos últimos anos, a política transformou‑se num produto descartável, feito à medida do ciclo mediático. Governa‑se ao ritmo da reação e do "like", discute‑se como quem faz scroll. A frase rápida substitui o argumento, a indignação instantânea substitui o trabalho de fundo. Há uma cultura que confunde exposição com liderança e agressividade com coragem. O confronto é essencial em democracia, mas quando se transforma em lama deixa de esclarecer. Não mobiliza nada nem ninguém, só nos cansa a todos. Não aproxima ninguém, só degrada o meio político.

Enquanto se abrem telejornais com insinuações pessoais, há quem espere três meses por uma consulta no Serviço Nacional de Saúde ou não consiga pagar a renda. E o cenário já era crítico muito antes de a campanha começar. Não é uma crítica de direita ou esquerda. Este contraste é duro e real: a obsessão pela espuma dos dias, o descuido com a substância e propostas sérias. Portugal não cabe nos debates televisivos nem nas polémicas de campanha. Nos bastidores do país, muitos continuam a levantar a persiana às seis da manhã, a apanhar um comboio cheio de gente e a rezar para que o sistema de transportes não falhe para que consigam trabalhar.

A mesma campanha que fala da «respeitabilidade do cargo» ignora que há freguesias onde faltam médicos de família, escolas onde chove dentro das salas ou bairros onde a iluminação pública é escassa. Não é fantasia: conhecemos todos casos de casais que adiam planos por falta de creches para os filhos e de famílias que não conseguem manter a casa aquecida no inverno por falta de dinheiro ao fim do mês. Estes rostos devem entrar no nosso discurso porque, sem eles, a política é apenas retórica. Estes casos valem mais que os "casinhos" que os candidatos a Presidente da República atiram uns aos outros, e têm muito menos piada que os vídeos infantis que os TikToks de alguns candidatos publicam.

Não devia valer tudo quando se quer ser “mediático”. O silêncio fala muitas vezes com mais respeito do que a vacuidade e as infantilidades partilhadas em redes sociais em época de campanha. Diz‑se frequentemente que a democracia está em crise. Eu prefiro dizer que está cansada. Cansada de promessas recicladas, de conflitos artificiais ou de campanhas que parecem exercícios de demolição mais do que propostas de futuro.

As pessoas não rejeitam o regime democrático. As pessoas rejeitam a sensação de que nada muda, de que as palavras se gastam em discussões que pouco alteram os problemas que todos vemos. Esse cansaço é perigoso, mas não porque conduz inevitavelmente ao extremismo. Este cansaço é perigoso porque alimenta a indiferença. E a indiferença é o terreno mais fértil para os atalhos fáceis e para quem promete soluções instantâneas para problemas complexos. É o caminho para se falhar vezes sem conta.

Há também um desfasamento evidente entre o que domina os debates nacionais e o país real que vive fora deles. Lisboa continua a ser o centro do comentário e da decisão, enquanto os quilómetros que distam do Terreiro do Paço parecem aumentar a cada legislatura. Quem vive e trabalha na periferia sente‑se sempre espectador de um enredo que nunca termina. E esta sensação de distância cresce quando até uma eleição presidencial adota o tom de um programa de entretenimento sem conhecer o país real.

A eleição presidencial devia ser, por definição, um momento de exigência acrescida. Não de unanimismo, mas de respeito institucional. Não de silêncio cúmplice, mas de crítica responsável. O Presidente da República não governa, mas influencia. Não decide tudo, mas pesa em tudo. E essa função exige um patamar de debate que não pode ser nivelado por baixo — como infelizmente está a ser, sem exceções. Quando a campanha se torna lamacenta, ninguém ganha. Perdem os candidatos, perde a instituição e perde o país.

Talvez seja tempo de a política portuguesa decidir levantar a cabeça. O ano de 2026, que agora começa, pode ser uma oportunidade para recuperar uma certa dignidade perdida. Menos ruído e mais substância. Menos teatro e mais responsabilidade. A mudança começa quando nos lembramos que cuidar da democracia passa por cuidar das palavras com que a defendemos. E a Presidência da República, mais do que qualquer outro cargo, devia lembrar‑nos disso todos os dias. Talvez não seja preciso reinventar esta instituição, talvez baste voltar a respeitá‑la.