Os números valem o que valem, já se sabe. Veja-se o caso dos nascimentos fora dos hospitais, um dos assuntos que dominaram o espaço público em 2025. Os números que o INEM nos disponibilizou esta semana, relativos ao período de janeiro de 2022 a outubro de 2025, mostram um claro aumento de partos em ambulâncias, na rua e em casa.
Foram 169 em 2022, dos quais 25 em ambulâncias. E 186 entre janeiro e outubro de 2025, dos quais 45 em ambulâncias. Destes últimos, 15 estiveram a cargo dos Bombeiros Voluntários da Moita, segundo o comandante, Pedro Ferreira.
Tais cifras batem certo com a perceção pública, mas estão incompletas e não contam a história toda. O INEM assume que contabiliza apenas as ocorrências que tiveram intervenção de meios de emergência: do próprio INEM, de corporações de bombeiros e da Cruz Vermelha.
Mas, se recorrermos aos dados do Instituto Nacional de Estatística sobre locais de partos, vemos que a categoria ‘outro local’, que inclui nascimentos na rua e em ambulâncias, dá valores muito mais altos do que os do INEM. Foram 1.356 partos em 2022, 302 em 2023, e 303 em 2024 — valores descritos como provisórios.
Segundo uma fonte do Ministério da Saúde, os extraordinários 1.356 casos em 2022 constituem uma aberração estatística que terá provável relação com o contexto pós-covid que então se vivia. As pessoas evitavam ao máximo deslocações a serviços públicos, com medo de serem infetadas pelo coronavírus, o que no caso das grávidas significou atrasarem ao máximo a ida para o hospital ou escolherem deliberadamente o domicílio como local do parto.
Mas há mais. A mesma base de dados do Instituto Nacional de Estatística, trabalhada pela Pordata, revela que desde 2011 até 2024 tem sido consistente a subida de partos fora dos hospitais: 224 em 2011, 190 em 2013, 315 em 2016, 469 em 2018.
Quer isto dizer que os casos registados em 2025 e em 2024 estão abaixo do que aconteceu num passado recente. Seja como for, sendo um fenómeno residual — cerca de 0,36%, ou 36 nascimentos por cada mil em Portugal — está em subida consistente. E não apenas entre nós.
Irlanda, Finlândia, EUA, Austrália e Etiópia
Um levantamento não exaustivo feito pelo Nascer do SOL, a partir de estudos em revistas científicas com revisão por pares, mostra que os nascimentos em contexto extra-hospitalar são cada vez mais comuns em todo o mundo desenvolvido. Desde há pelo menos duas décadas.
Não nos referimos apenas à decisão planeada de ter filhos em casa, mas também a partos inadvertidos em ambulâncias ou na rua — que os médicos portugueses designam como partos precipitados. Na literatura científica surge muitas vezes a expressão inglesa BBA (‘Birth Before Arrival’, ou partos antes da chegada ao hospital).
Um estudo publicado em 2011 na Journal of Obstetrics and Gynaecology concluiu que na Irlanda os casos de BBA duplicaram entre 2006 e 2009, de 0,26% para 0,5%. «Deveu-se sobretudo ao aumento de cidadãos não-irlandeses e pacientes de grupos socioeconómicos desfavorecidos», lê-se.
Ainda na Europa, a revista Acta Paediatrica deu à estampa um estudo de 2015 em que se lia que os BBA na zona de Tempere, na Finlândia, foram de 0.10% entre 1996 e 2005, ano em que começaram a aumentar.
Apenas mais dois exemplos. Um artigo de 2018, publicado na Journal of Perinatology sob o título ‘Out-of-Hospital Births in California 1991–2011’, indicou um acréscimo na Califórnia, EUA, de 0,41% em 2005 para 0,61% em 2011.
Outro texto científico também de 2018 relativo à região australiana de Nova Gales do Sul — levado a cabo por académicas da Western Sydney University e publicado pela British Medical Journal — concluiu que entre 2000 e 2011 houve uma média de 0,46% de BBA. Sobretudo em zonas que distavam mais de duas horas de um hospital.
Segundo as autoras, as mulheres que protagonizavam partos precipitados tinham em geral baixo nível socioeconómico, já tinham sido mães anteriormente e tinham altas taxas de tabagismo.
Ainda assim, esta é uma realidade pouco expressiva no mundo desenvolvido em comparação com o que se regista em países com baixo Índice de Desenvolvimento Humano, na classificação da ONU. Um estudo relativo à Etiópia, feito pela Universidade de Wachemo e publicado em 2024 na revista Frontiers in Medicine, referia que no espaço de seis meses, numa região do sul do país, 15,2% dos nascimentos tinham ocorrido na rua ou em ambulâncias. Quase 15 vezes mais do que a média em Portugal ou na Califórnia.
Os motivos
Ao que nos explicou o obstetra Diogo Ayres de Campos, o «fenómeno residual» dos partos fora dos hospitais é ainda assim «preocupante». «Os partos precipitados tendem a provocar muitas contrações uterinas, mais associadas a baixa oxigenação dos fetos. Não conheço estudos portugueses, mas há estudos internacionais que mostram maiores complicações, quer para as mães, quer para os fetos, por falta do apoio hospitalar adequado». Ainda que por norma a parturiente e o recém-nascido acabem por ser transportados para o hospital e para serem observados por médicos e ficarem sob vigilância por um ou dois dias.
O também professor universitário e diretor do serviço de obstetrícia e ginecologia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, afirmou que estas situações ocorrem tendencialmente com mulheres que antes tiveram um ou mais filhos, pois o trabalho de parto do primeiro costuma ser mais demorado, não levando tantas vezes a nascimentos precipitados.
A médica Inês Nunes, em nome do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, transmitiu-nos que tais partos «não têm relação aparente com a idade» da puérpera e que «na maioria dos casos» se trata de gravidezes de termo.
Sobre os motivos para estas ocorrências, Inês Nunes, transmitiu-nos que os nascimentos inadvertidos «acontecem habitualmente com mulheres que têm trabalhos de parto muito rápidos ou precipitados, sem sintomas significativos antes do período expulsivo, o que permite que solicitem auxílio com antecedência»
Ayres de Campos sugeriu que além da óbvia falta de resposta dos hospitais ou de demoras na emergência pré-hospitalar pode também haver responsabilidades das próprias grávidas.
«Às mulheres que são vigiadas adequadamente durante a gravidez, é-lhes ditos quais os sintomas a que devem estar atentas e que devem levar a ligar atempadamente para a linha SNS24», disse-nos Diogo Ayres de Campos. «Se as contrações uterinas se tornarem rítmicas, com intervalos de 10 minutos durante 60 minutos, devem ligar. Ao que sei, o tempo de espera médio da linha, na área da obstetrícia e ginecologia, é de nove segundos».
No caso português, o médico aventou a «mudança na demografia das grávidas» como hipótese explicativa para o aumento deste fenómeno. «Em Santa Maria, cerca 53% das grávidas são portuguesas e as restantes nasceram fora de Portugal. Creio que na Maternidade de Alfredo da Costa a proporção de portuguesas será ainda mais pequena. Isto muitas vezes significa menos literacia, menos apoio e menos acessibilidade ao sistema», acrescentou.
No mesmo sentido, Inês Nunes, que já dirigiu o serviço de ginecologia e obstetrícia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho, fez notar que «a população obstétrica é hoje diferente» em Portugal. «A questão da imigração, das grávidas provenientes de outros países, por vezes sem assistência médica adequada durante a gravidez e que chegam a Portugal já numa fase avançada, poderá ser também um fator que poderá contribuir para a dificuldade no acesso no momento do nascimento».