terça-feira, 13 jan. 2026

‘Marques Mendes foi apanhado em escutas a meter cunhas’

A entrevista foi feita no dia seguinte ao debate com Marques Mendes e atualizada depois da notícia de que o Ministério Público está a investigar negócios na Marinha, no tempo de Gouveia e Melo, apesar da PGR já ter dito que o almirante não é arguido
‘Marques Mendes foi apanhado em escutas a meter cunhas’

Como se preparou para os debates? Quantos conselheiros tem a trabalhar consigo? Quais as áreas que investiu mais? Saúde, Justiça, Defesa, calculo que não, Educação, Habitação?

Tenho alguns conselheiros, mas não tenho uma estrutura partidária. Muito do trabalho é desenvolvido por mim próprio. Faço as minhas pesquisas. Fiz um texto, que é meu, que não divulguei, sobre todas as áreas. Compilei a informação, escrevi e reescrevi esse texto diversas vezes, até encontrar a formulação que considerava adequada para as diferentes áreas. Para a Saúde, para a Habitação, para a Imigração. As áreas mais críticas têm a ver até um bocado com a governação, mas que interessam e são os problemas pendentes do país. E esse é o meu texto de referência. Claro que não o divulguei, porque senão daria, digamos, aos meus adversários uma vantagem enorme. Mas depois escrevi uns artigos, que não foram exatamente as partes completas do texto, no Expresso, SOL e também no Público.

No tema da Saúde quem o ajudou?

O doutor Fróis dá-me algumas informações, o Correio de Campos também. O mesmo com o doutor Pizarro, o meu filho é médico, na área da Saúde tenho muita informação.

Antes de ir para os debates televisivos reunia-se com esses grupos?

Não, não. Estive a preparar-me até chegar aos debates. Repare, eu saí da Marinha, em dezembro, e depois estive três ou quatro meses praticamente inactivo, até declarar que ia ser candidato. E nesse período estive a fazer diversas coisas. Para já, a ver se era possível ou não concorrer. A ver se tinha logística, se tinha apoios suficientes, etc. Depois a preparar-me a mim próprio, mentalmente, se devia ou não concorrer. E a fazer estudos. Estudei bastante filosofia, economia, assuntos na área da saúde, da habitação, os problemas que preocupavam os portugueses. Quando chega ao mês quatro, já levava quatro meses de preparação. E depois fui-me reunindo com pessoas e fiz muitos almoços e muitos jantares de trabalho com gente de diferentes áreas. Ou eu pedia uma reunião ou eles queriam se reunir comigo, aproveitava essa reunião para ser informado. E depois fazia-lhes mesmo tipo inquéritos durante os almoços e os jantares. A preparação dos debates foi feita com um grupo muito restrito de pessoas, da minha confiança, e com a área da comunicação.

É óbvio que não tinha experiência para estar em frente a uma câmara e depois o discurso não era tão fluido.

O primeiro debate foi o mais difícil, porque tive que enfrentar...

Foi com Cotrim Figueiredo

Mas não é por ter sido com o Cotrim Figueiredo. Tive que enfrentar três coisas em simultâneo. O adversário e a argumentação do adversário, o moderador, que também interferia, e o tempo, o controlo do tempo. Porque o tempo, parece que estamos a falar há muito tempo, mas o tempo é mesmo muito escasso para passarmos as nossas mensagens. Depois a questão era a postura. Qual era a postura? Sou uma pessoa calma, naturalmente e tenho um treino para ser calmo. Tenho muita dificuldade, às vezes, em ser reativo. Reativo porquê? Porque no submarino, quando aconteciam coisas extraordinárias, era a calma que nos salvava. Não era a reatividade ou a impulsividade. E isso depois refletiu-se nos debates. Porque as pessoas faziam-me ataques e eu absorvia o ataque, depois tentava desenvolver o raciocínio de forma calma. O que, em termos de televisão, não é um grande espetáculo. Mas isso aconteceu, se reparar, nos debates. Aconteceu. E as pessoas depois diziam, perdeu o momento. Não, eu encaixei o ataque, mas depois, claro, fui treinado no ringue de batalha.

E foi por isso que deixou de usar óculos nos debates seguintes?

Os meus óculos servem para ver ao longe e ao perto.

Mas no primeiro levou.

Sim, levei os óculos. Tinha alguns apontamentos, mas não estava verdadeiramente a ler os apontamentos. Tinha só umas observações, umas palavras-chave, etc. Eu nunca li nada. Olho muitas vezes para baixo quando estou a refletir, as pessoas fazem-me a pergunta, eu estou a refletir e olho para baixo para não estar distraído. Estou a olhar para o tampo da mesa e as pessoas julgavam que estava a ler. Então tive que começar a olhar para cima, para evitar que as pessoas fizessem essa leitura errada [risos]. 

Não chegou a responder porque deixou de usar os óculos nos debates seguintes.

Porque não tinha necessidade deles.

Mas foi por uma questão de imagem que os conselheiros lhe disseram?

Não, porque não tinha necessidade deles. Usei os óculos porque se precisasse ler qualquer coisa, tinha ali os óculos disponíveis. Mas depois não li, quer dizer, até porque não dá tempo, não dá tempo para ler. Depois deixei de usar, porque era uma inutilidade. Por que vou levar os óculos se depois não os vou usar, na realidade?

E quais foram os seus melhores e piores momentos nos debates?

Há um momento que estive para reagir, como reagi agora, neste último debate com Marques Mendes, e de alguma forma também com André Ventura. Foi num debate com o António José Seguro, quando ele me diz, 'o senhor com essa coisa é indigno'. Estive ali mesmo para lhe dar uma lição. Mas disse, não, não vou perder aqui a minha compostura e não lhe vou responder da mesma forma. Mas estive ali, foi o micro segundo em que estive quase a responder-lhe e a resposta não seria muito agradável para ele.

Sendo o candidato com menos experiência televisiva, acha que se os debates começassem hoje, seriam diferentes?

Sim.

Seria mais incisivo?

Seria mais incisivo porque percebi qual era a lógica do debate. A lógica do debate não é a argumentação, é mais a retórica e a pergunta e resposta rápida. Mas não é uma argumentação profunda, porque não conseguimos desenvolver um argumento profundo em um minuto e meio ou dois minutos e meio, com interrupções. A minha lógica, que é uma lógica mais profunda,  sou muito estruturado, tive dificuldades, até ao fim, mas depois, claro, acho que melhorei bastante ao longo do processo dos debates e fui corrigindo. Só que tive que  corrigir em ação.

Como militar, como reagiu aos apoios financeiros que ‘foram’ ter consigo? Como geriu essa situação? Para um homem que foi militar toda a vida, de repente vir alguém, 'olhe, tenho aqui 100 mil euros, eu tenho aqui 50 mil...

100 mil e 50 mil nunca aconteceu porque o limite da lei são 30 mil. E também ninguém me deu 30 mil.

Não pensou no interesse que essas pessoas tinham em apoiá-lo?

Criei uma estrutura financeira para me isolar desses problemas. Ou seja, as pessoas que queriam financiar...

Mas não tinha esse dinheiro?

Não, não tinha, mas criei uma estrutura financeira. O que fazia essa estrutura? Falava com as pessoas que me queriam apoiar. Até para não criar dependências. Para eu não ter dependências diretas dessas pessoas. E a condição que pus foi, não há cheques de volta. Não há contrapartidas. Querem-me apoiar, é um tiro no escudo. O senhor acredita em mim, apoia-me. Não me vai pedir nada. Não me vai exigir nada. Não me vai orientar nada do que vou dizer ou deixo de dizer. Não vou lutar por nada que lhe interesse ou deixe de interessar. Essas foram regras muito claras e depois também não quis apoios que me parecessem, de alguma forma, que me pudessem condicionar. Porque há apoios que aparecem, mas de alguma forma querem-nos condicionar. Os apoios foram verdadeiramente de pessoas que acreditavam que eu podia fazer a diferença.

Olhando para os debates televisivos,  pareceu-me, por momentos, que estava a assistir à campanha eleitoral para a Assembleia da República.

E foi. Os debates foram para as eleições legislativas, mas eu sempre disse isso. O problema é que os moderadores lançavam-nos perguntas que tinham a ver com a Assembleia da República. 'Diga lá o que  acha da Lei de Trabalho e do que se está a fazer?'.  Se eu não dissesse nada, diziam: 'Há uma vacuidade, não sabe, não leu a matéria, não está informado. Todo esse tipo de argumentação obrigava-nos a desenvolver sobre determinadas matérias, que são matérias tipicamente de governação. Repare, quis falar, nestes debates todos, mas quantas vezes tive a oportunidade de falar sobre coisas em que eu, naturalmente, tenho mais facilidade e que nunca me deram oportunidade? E essas coisas são sobre aquelas que realmente interessam à Presidência. Representação do Estado, relações internacionais. Defesa. O comandante Supremo das Forças Armadas o que pensa... Mesmo sobre a Constituição, tentaram fazer-me umas perguntas de rasteira, mas quando eu começava a aprofundar, passavam para outros temas. Que temas é que apareceram? Quando era com a Catarina Martins? Trabalho. Quando era com a Esquerda, era trabalho, trabalho, trabalho, trabalho. Como se nós estivéssemos a discutir a legislação de trabalho. Quando era com gente mais de direita, neste caso com André Ventura, imigração, imigração, imigração. Qual era a margem que tinha para debater... Se agora reparar, se houver esse trabalho, digamos, de honestidade intelectual, houve debates em que tive dois adversários. Tive um adversário que era o meu adversário político e depois tive um adversário que era o moderador. Que me lançava armadilhas, que me perguntava coisas muito concretas para me fixar num determinado ponto. Ou então...

O moderador fazia isso aos dois.

Não, não. Aconselho-o a  ver os debates de forma completamente independente de qualquer preconceito, não vou dizer o canal, não me interessa, mas...

Mas foi só um canal?

Acabaram por ser dois canais.

Só havia três!

Acabaram por ser dois canais. Mas dou-lhe um exemplo, porque esse eu refilei e, portanto, é claro. Acha que é legítimo que alguém faça uma entrevista a um ator político e o ator político diz, ‘eu acho que se deve votar no homem X’. Eu não sei nada. Sou confrontado na hora do debate. Na última pergunta, porque a última pergunta, em qualquer novela, em qualquer história, é a entrada e a saída. Na última pergunta diz-me... 'Ah, o Sr. Engenheiro Sócrates disse que o apoia'. Aquela pergunta o que queria induzir é que estava a ser apoiado por um indivíduo que está com problemas na justiça. ‘O Senhor, indiretamente, aceita o apoio’...

Não fiz nada essa leitura da pergunta. Se o senhor tivesse dito que não podia proibir ninguém de o apoiar a resposta estava dada.

Qual era a intenção? Aquilo interessava para o debate? Eu estou a debater com o adversário ideias para mostrar qual é a diferença com o meu adversário. Podia-me ter perguntado à tarde ou depois do debate, numa entrevista. Qual era o interesse? O interesse era deixar uma marca que este homem que veste de branco, que é a farda branca,  tem um indivíduo que lhe quer dar uma pincelada. E depois porquê? Porque os meus assessores, como sabe, muitos deles também trabalharam na área do Partido Socialista e, naturalmente, trabalharam também quando o engenheiro Sócrates foi primeiro-ministro.

Nomeadamente Luís Bernardo.

Sim, mas aquilo tinha uma intenção e não sou ingénuo. Percebi imediatamente a intenção. E essas coisas é que não gostei. Porque não acho que isso é fair, não é justo. Se queriam fazer essa pergunta faziam-na fora do debate. Porque eu estava a debater com aquele candidato, não estava a combater com o canal televisivo. O canal não tem que interferir no debate, tem que moderar o debate e proporcionar o debate. Sabe o que aconteceu a seguir? A direita, a extrema-direita, veio dizer 'este indivíduo é um desonesto porque está ligado ao Sócrates'.

Não faço essa leitura, mas percebo o seu ponto de vista.

Este tema para mim é relevante. Claro que a informação existia e devia ser explorada. Agora, o timing da informação poderia ser explorado noutra altura. A pergunta é a seguinte: essa pergunta foi injetada no engenheiro Sócrates? Ou foi o Engenheiro Sócrates que resolveu fazer, dar essa resposta sem nenhuma pergunta injetada? Na minha opinião, essa pergunta foi injetada à tarde no engenheiro Sócrates, para à noite me fazerem essa pergunta no momento do debate. Essa é a minha opinião. Posso estar completamente errado. É só olhar para as duas peças, verá isso. Outra coisa que quero dizer. Todas as vezes que fui a debate, no dia do debate, tive sondagens que me davam a baixar. Todos os debates, os debates importantes, não estou a falar com a Catarina Martins, ou com o António Filipe. O que me apercebi a determinada altura? Estou a jogar num plano inclinado, devo estar mesmo a incomodar o sistema.

Mas também tem de reconhecer que um dos seus apoiantes mais notáveis é o dono de dois canais de televisão e deste jornal.

Deixe-me também dizer de forma muito clara. O canal onde fui mais atacado foi o do meu apoiante. Olhe e veja. O canal que supostamente apoia um dos meus adversários atacou-me, mas não me atacou tanto como o canal do meu apoiante. Se calhar porque os jornalistas e a redação do canal do meu apoiante achou que tinha que mostrar independência. Não tem que mostrar independência, tem que ser independente, porque são duas coisas diferentes. Independência é ser isento. Mostrar independência é já ser ativista. Nunca lhes pedi nada, nunca pedi favor nenhum. Mas o outro canal, que nós estamos a falar, a SIC, é um canal em cujo o patrão desse canal disse: ‘O nosso candidato é este senhor [Marques Mendes].

Já cá não está.

Infelizmente, até tinha uma relação de amizade com ele, não é isso que está em causa. Mas assumiu uma posição na candidatura do próprio candidato. Peço desculpa, mas isto agora já é uma reflexão. Gosto de jornalismo verdadeiramente independente. Jornalista com ativismo não é jornalismo. Deixou de ser jornalismo, é ativismo. As pessoas digam assim, eu sou comentador, mas estou aqui para atacar o almirante Gouveia e  Melo porque defendo o fulano tal.

O que já mudou na sua vida nestes quatro meses? Isto é... Não me vai dizer que está arrependido de estar aqui, mas é um mundo completamente diferente do que estava habituado. Acha que envelheceu?

Não, porque eu sou muito resiliente. O que lhe quero dizer é que julgava que havia regras, que havia mais ética no sistema. E deparei-me com uma ética mais maleável. E tive a surpresa, de a certa altura, reparar na diferença de escrutínio. A mim disseram-me, 'nós não conhecemos as suas ideias. E eu senti a necessidade, também com honestidade, de me expor. Escrevi e disseram: 'Só escreve acuidades'. O que eles queriam? Um programa de Governo? Porque se eu escrevesse um programa de Governo, diziam: 'Afinal está enganado na eleição'. Eu escrevi princípios. Se olharem para trás e forem ler o texto que escrevi no Expresso, não me chamem de incoerente. Nesse artigo está exatamente o que  sempre defendi. Depois, a seguir, faço um grande artigo no SOL. Nesse artigo, explico N coisas sobre economia. Explico tanto que os meus adversários usaram praticamente tudo. Os meus adversários é que não tinham ideias nenhumas. Nunca vi ideia publicada. António José Seguro o que publicou? 'Ah, sou socialista'. Logo, sendo socialista, publicou tudo o que os socialistas publicaram? 'Ah, sou do PSD'. Logo, tudo o que o PSD publicou é deles? Não, não é assim. Nós queremos saber o que aquela pessoa pensa, porque nós não estamos a eleger um partido, senão estamos nas eleições erradas. Nós estamos a eleger uma pessoa e queremos saber como é que aquela pessoa interpreta, não escreveram nada, são redondos, é o que eu chamo, desculpe, vou dizer aqui uma expressão, o exercício da flauta que hipnotiza as cobras do fakir. Em círculos, a contar sempre as mesmas coisas, sem nunca ter uma única aresta, para as pessoas ficarem hipnotizadas com aquela coisa, mas aquilo não tem sumo. E olhe que estive quase para dar uma flauta a um determinado indivíduo num debate. Vamos a alguns temas fraturantes que foram postos em cima da mesa. Interpretação da Constituição e da dissolução. Fui o primeiro que disse exatamente como é que interpretava, e depois fui seguido pelos outros. Eu disse, se o Orçamento não passar, não é para dissolver. Se o primeiro-ministro cair, mas tiver maioria, não é para dissolver. Fui o primeiro que teve coragem para dizer isso. E isso é completamente contrário à prática que estava a ser feita. Depois, logo a seguir, vieram todos a dizer o mesmo. Quer outro exemplo? Defesa. Fui o primeiro a dizer, é preciso investir na Defesa. 'Ah, não, não é preciso'. Depois vieram todos dizer que era preciso investir na Defesa. Depois perguntaram-me, mas como é que resolve o problema do investimento? Investir para meter tecnologia na economia e com essa tecnologia na economia, melhorar a produtividade e de alguma forma recompensar o investimento. A seguir, todos vieram dizer exatamente o mesmo.

Mas acusam-no de ter dito que para fazer esse investimento é preciso tirar da segurança social.

Não, o que eu disse, na mesma entrevista com o Paulo Baldaia, é que, naturalmente, há dois problemas. O dinheiro, numa fase inicial, tem que sair do Orçamento. E vai afetar naturalmente o Orçamento. Seja a rubrica de investimento do A, do B, do C ou o Estado Social. Vai afetar. O que a seguir temos que fazer? Ao injetarmos na Defesa, temos que tentar que essa injeção crie uma melhoria tecnológica da economia para a economia recompensar essa injeção. E chamaram-me incoerente. Não, não sou nada incoerente. Eu expliquei o mecanismo. Só que esse mecanismo não é instantâneo. Primeiro tiramos, e só passado quatro ou cinco anos é que há o retorno. Repare, eu vou fazer drones aqui em Portugal. Tenho que investir, tenho que fazer as fábricas, etc. Depois, aqueles drones vão ser vendidos para a Europa e para outros sítios. Aí começo a recuperar através dos impostos o investimento que fiz. Quanto tempo é que demora? No mínimo cinco anos. Fui o primeiro a dizer isso. E depois todos, incluindo o Governo... Vejam as datas em que eu disse as coisas e vejam as datas a que a seguir o Governo, de forma tão cândida, vem dizer exatamente o argumento que eu lhes dei, porque parecia que não tinham argumentos para ir convencer a população. E depois todos os outros candidatos vieram na sequência desse argumento. Mas eu é que era o homem que não tinha ideias. Sobre a economia, fui o único que escreveu concretamente que a nossa economia precisa de ser uma economia de maior valor acrescentado e fiz um plano para isso. Aí já foi quase a fazer um plano governativo. Durante as eleições, ninguém falou em reformas. O primeiro a falar em reformas do Estado, da Justiça, fui eu, no meu manifesto, e a seguir desse grande artigo do SOL. Logo a seguir, só depois de sair o meu artigo do SOL, é que o Governo veio com as reformas. Deve ter sido coincidência. Passou uma nuvem e essa nuvem eletrizou-me a mim e deve ter eletrizado alguém que estava no Governo também a fazer a mesma coisa. Só que eletrizou-me  a mim primeiro. E só depois é que eletrizou alguém no Governo. Por isso, de que vacuidades é que me estão a acusar? É isso que me aborrece. É toda esta lógica que não é verdadeiramente objetiva. Só para terminar. Apareceram quatro livros sobre mim. Um livro, que era uma leitura política sobre toda a minha atividade. Com os indivíduos que gostavam de mim e não gostavam de mim na Marinha, de Vítor Matos. A seguir, Gustavo Sampaio, uma leitura da minha atividade vista através dos jornais. Depois, a Valentina que me fez uma entrevista que quase me disseca o cérebro. E depois, mais uma senhora que vai falar com todas as pessoas que me conheciam, para escrever, digamos, uma biografia semi-autorizada com as pessoas que me conheciam com quem eu andei. O que precisam mais? Se tivessem todas as pessoas sido escrutinadas assim, hoje sabíamos muito mais sobre os outros candidatos. Eu não sei, não tenho acesso a esse nível de informação sobre os outros candidatos.

Também não sei se as pessoas consomem assim tanto essa informação...

Não, não. Mas está lá. Está disponível para alguém que queira ver. Eu, se quiser saber alguma coisa sobre o candidato A, tenho um problema. Eu quero saber uma coisa. Qual é a profissão do doutor Luís Marcos Mendes, além de comentador?

Já sabe que trabalha num escritório de advocacia.

Não. Não sei. É contínuo no escritório de advocacia? Faz verdadeiramente advocacia? É escriturário? Tudo indica, tem todos os sintomas, de ser um facilitador de negócios entre o privado e o Estado, através do escritório de advogados. Onde estão os interesses e os serviços que ele faz e defende? Onde é que isso está escrito?

Mas um advogado que trate de negócios não é um lobista?

Há advogados que não são lobistas.

Mas quem só trata de negócios...

Oiça, a atividade agora está a ser regulada, correto? Qual é a primeira coisa que a nova lei veio dizer? O senhor tem de declarar quem promove, que interesse é que promove. Tem de estar declarado. Não é suposto, tem de estar declarado, obrigatoriamente. Olhando para o que se pretende regular, faça o favor, uma vez que está a concorrer à presidência, dizer quais são os interesses que defendeu.

Qual a razão para particularizar e não questionar as leis que são feitas pelos grandes escritórios de advogados que ficam a conhecer os 'buracos' dessas leis?

Sei que é verdade. Eu levei um livro chamado Os Facilitadores, que gostei de ler, para mostrar que se alguém quiser perceber como é que isto funciona, basta comprar aquele livro. Aquele livro não tem tudo, mas é super elucidativo. O que fiz? Eu não sou, usando a expressão do doutor Luís Marques Mendes, e não fui nomeado xerife da localidade. Estou a concorrer à Presidência da República e tenho um candidato do outro lado. O que tenho que mostrar à população é quais são as diferenças entre os candidatos. A minha postura, a postura dos outros. E o que tenho a dizer sobre aquele candidato é uma coisa muito simples. Este candidato está-se a candidatar, mas não com a transparência que me parece a mim que os portugueses desejam.

Não chegou a dizer o que acha que Marques Mendes faz.

Eu disse claramente o que eu acho que ele faz. Vamos lá.

Que é lóbi entre o Estado e as empresas privadas?

Claro. Vamos lá. Isso é a forma retórica 'o senhor diga lá. Prove lá'. Mas eu sou alguma entidade policial para provar alguma coisa? Não. É o senhor [Marques Mendes] que tem que demonstrar quais são os seus interesses. Não sou eu que tenho que ir procurar e revelar os seus interesses. Até porque esses interesses são de tal maneira escondidos que é muito difícil para mim encontrar. Mas olhe, se for às notícias todas que saíram sobre a vida de negócios do doutor Luís Marques Mendes, eu não consigo fazer um quadro. Se eu agora disser, ele pertenceu ao Conselho de Administração desta empresa, onde teve 17% nesta empresa. Fez isto. Esta empresa foi ali. Eu não consigo fazer essas ligações, que é quase um trabalho policial. Ele é que tem de dizer o que fez. Por exemplo, quais são os negócios dele com a Madeira com uma empresa de painéis solares? Como é que o filho dele inicia uma empresa também de painéis solares aqui no continente com um investimento de nove milhões? Se calhar é tudo legal. Não estou a acusá-lo de nada. Só estou a dizer, por favor, esclareça isso para que todos os portugueses...

É óbvio que teve muita gente a investigar a vida de Marques Mendes.

Não, não precisei.

Se não fosse assim não chegava à televisão com tantos dossiês.

Não precisei. Sabe porquê? Basta ir à internet e fazer umas pesquisas e ter o mínimo de curiosidade. A vida do Dr. Luís Marques Mendes deixou muito rasto. Eu, ontem, no debate, não quis fazer uma coisa que, essa sim, era feia. Que era ler que os líbios, se viessem que viessem machucados, era melhor. Porquê? Porque eram 50 mil euros por cada líbio que viesse amachucado. E isso mostra a ética de uma pessoa.

Marques Mendes trouxe líbios para Portugal?

Ele foi apanhado numa escuta de uma empresa de vistos gold, JMF, mas que também tinha negócios para tratar líbios feridos. E, diz assim, 'mortos não interessam. O que interessa é que também que não venham bem. Venham amachucados para podermos fazer negócio com essas pessoas.

Que tipo de negócio era? Estou um bocado a navegar.

Façam a pesquisa por empresa JMF, vistos gold e oiçam as declarações em que ele foi apanhado, essas escutas foram publicadas, em que ele foi apanhado com as frases a meter cunhas, a fazer uma data de coisas. Se isso é normal, então por que andaram a aborrecer tanto o nosso Presidente com as gémeas? Se passou a ser tudo normal, onde é que está o limite ético? E é essa  a questão. Ele tem de dizer assim: 'Eu sou lobista. Os meus interesses são... eu ajudei este conjunto de empresas a fazer negócios do Estado, com o Estado'. E a gente pergunta logo a seguir. 'E como é que ajudou?'. E os negócios foram vantajosos para o Estado e para as empresas ou só foram vantajosos para as empresas? O que é que o senhor facilitou? Foi, por exemplo, não pagar IVA? Não pagar impostos? Fugir à regulação? O que o senhor facilitou? 'Não, eu só facilitei o contacto'. E pronto, ele que clarifique e depois de clarificar... Não é nada de ilegal, mas também não é nada da  ética republicana. Porque ele está a concorrer à Presidência da República. É isso que ele tem que justificar. E não sou eu que o tenho que acusar.

Tem tanta informação pessoal sobre André Ventura, António José Seguro ou João Cotrim Figueiredo como tem de Marques Mendes?

Tenho.

Mas isso não trespassou nos debates com eles.

Porque o doutor André Ventura não anda a fazer lóbi financeiro ou outro tipo de lóbi junto ao Governo. O doutor Cotrim também não o fez. O doutor António José Seguro também não o fez. E os outros candidatos não o fizeram. O que eu disse ontem aos portugueses no debate foi uma coisa muito simples. Os senhores têm que decidir qual é o perfil da pessoa que querem na Presidência da República. E se acham que o indivíduo que faz lóbi, que até é um indivíduo que tem uma grande experiência política, e que essa experiência pode ser útil para beneficiar Portugal, façam o favor de o elegerem. Porquê? Porque nenhum outro candidato veio dizer que tinha uma experiência política e que eu era inexperiente. Houve uns que depois apanharam a boleia. Mas quem pôs um cartaz, 'A experiência'? Foi o doutor Luís Marques Mendes. Que me atacou a mim, diretamente, e depois faz-se de inocente, foi ele que atirou as pedras todas, ainda nem eu era candidato.

Nomeadamente quando disse que a democracia podia ficar em causa se fosse eleito.

Não disse só isso. Disse muito mais. Inexperiente, incapaz, isto e aquilo. Eu ontem o que fiz foi dizer assim: Há duas experiências, sabe? Uma experiência de servir o Estado como um único objetivo sem divisões. E há uma experiência aqui que é divisiva e que faz negócios, é um facilitador de negócios.

Vou-lhe lembrar uma afirmação sua ao SOL, em Abril de 2024. 'O militar, desde que não se encontre no ativo, tem tanto direito a concorrer a um cargo político como um pescador, um serralheiro, um engenheiro, um advogado, um jurista ou um médico. O mais importante é que o candidato ou candidatas em questão tenha qualidades de liderança, governação e sentido de Estado. No fim, em democracia quem escolhe é o povo'. A pergunta é, por que acha que quem fez ou faz parte de um partido é menos independente do que o senhor almirante? Depois do que disse aqui...

E porquê? Porque é óbvio.

Acha que é uma doença?

Não, não acho que é uma doença. Aliás, não acho que haja lepra nos partidos. Mas essa resposta obriga-me verdadeiramente a expor-lhe o seguinte. Os partidos existem para quê? Para congregar ideias diferentes da sociedade. E os partidos têm exclusividade do quê? Da Assembleia da República e, necessariamente, por consequência do Executivo. Ou seja, o parlamentar e o Executivo, ou o Legislativo e o Executivo. Já têm poder a mais. A presidência porque é unipessoal? Se não diziam que era um partido. Ou que a eleição era indireta. É unipessoal porquê? Os constitucionalistas quiseram separar as duas ideias. Uma ideia é, quem governa? Porque são as ideias que estão na sociedade. Sobre como é que a sociedade deve ir para a frente, é a Assembleia da República e o Governo. Quem verifica é uma pessoa independente dessa lógica partidária. Qual é o problema da lógica partidária? É divisiva por natureza.

De acordo com esse raciocínio, podemos concluir que até agora todos os Presidentes da República não eram independentes.

Já vou aí. A primeira coisa é, a independência é a independência de uma lógica divisiva, que é o que eu queria dizer. E, claro, que uma pessoa que vem desse passado pode ter uma lógica de união. Mas uma pessoa que passou uma vida toda a ser treinado para defender uma lógica divisiva, dificilmente terá isso. No entanto, admito que possa ter essa lógica. E houve presidentes que fizeram um percurso todo partidário, mas que ganharam uma dimensão diferente. Portanto, eu não comparo o Dr. Luís Marques Mendes, ou Cotrim Figueiredo, ou o António José Seguro, a líderes como Mário Soares ou Cavaco Silva. Porquê? Isso é a mesma coisa que comparar uma formiga com o elefante. E é isso que eu digo. Os senhores não têm, não tiveram essa lógica de país. E depois, há outra coisa que eu, de forma subliminar, deixei como crítica. Os senhores não conseguiram vencer dentro do partido. E convencer o partido, na altura em que foram líderes...

Mas André Ventura conseguiu.

Sim. Mas não conseguiram fazer isso e agora querem ser líderes do país? Os senhores nem no quadradinho...

Cotrim Figueiredo abandonou a liderança da IL.

Tem que se perguntar por que abandonou, porque tinha um projeto e porque é que saiu para Bruxelas. Portanto, esses líderes tinham um quadradinho de atuação, e falharam nesse quadradinho de atuação. Foram para fora da política, fazer, digamos, o repouso do guerreiro, para depois virem tentar unir o país todo. Mas unir o país todo como? Se nem no próprio partido hoje conseguem a unanimidade? Sabe-se que se algum deles for Presidente é porque o espetro político e os atores são tantos, que hoje consegue-se ir à segunda volta com 20%. Porque se fosse noutra situação, não conseguiam sequer passar à segunda volta ou ganhar as eleições. Isso é que é verdadeiramente o grande drama.

Ao preparar a entrevista retive uma frase sua: 'Não acuso ninguém, quero unir Portugal'. Até aqui só tem acusado Marques Mendes e por aí fora.

Não, e gostava de deixar isso muito claro. Há uma diferença de acusar e dizer assim: 'Este senhor é desonesto, este senhor fez isto mal'. Eu não estou a dizer isso. Só estou a dizer é qual é a atividade deste senhor? Estou a pôr uma question mark. E o senhor que se explique e que seja transparente. É a única coisa que se exige. Não acusei nada. Isso é fazer o inverso. O senhor diz-me assim: O senhor Gouveia Melo, o senhor almirante, diga-me lá qual foi o seu passado? E eu olho para si e digo assim, 'Epá, o senhor está-me a acusar. Está-me a fazer uma acusação'. Mas qual é a acusação? A única coisa que eu quero é saber quais são os interesses daquela pessoa. Para quê? Para poder votar nele. Todos os portugueses têm essa dúvida ou deviam ter. Se não têm, deviam de ter.

Isso já ficou bastante claro.

Mas é que essa coisa da acusação é um mantra e uma defesa dessas pessoas que dizem: 'Lá está aquele homem a acusar'. Não estou a acusar nada, não disse que a atividade era ilegal. A única coisa que disse é, afinal, qual é a sua atividade?

E diz que eticamente pode haver um sério problema.

Não percebendo a atividade, já há questões éticas. Agora, ele esclarece a atividade toda. Os portugueses ficam contentes com o esclarecimento. Fantástico para ele. E fantástico para a democracia.

Em relação à história das sondagens. Quando arrancou, até mesmo antes de arrancar...

Ainda acredita em sondagens?

Numa entrevista disse que acreditava que a sondagem que dava as Forças Armadas muito bem vistas, era uma sondagem reveladora...

Porque o problema é diferente. Mas vou-lhe responder.

Como tem convivido com estes números? Estava cá em cima e agora...

Convivi como convivi com o mar. Umas vezes havia cavas, outras vezes havia altos no mar, e nós tínhamos que navegar no mar. Não navegava só nos altos, navegava também nas cavas. O que isto quer dizer? Parece-me que as sondagens não são isentas. Ou então, as técnicas de sondagem não valem nada. Porque sondagens simultâneas, com resultados totalmente dispares, deixam-me logo uma questão. Sai uma sondagem na SIC, que eu estou à tona, em cima. No mesmo dia, sai uma sondagem a dizer que estou em quinto. Qual das duas está certa? Uma tem 400 pessoas de amostra, a outra tem 1.100. As televisões, ou a maior parte dos órgãos de comunicação social, só ligam à sondagem que diz que estou mal.

 E qual era a amostra dessa?

400. E depois dos 400, há muitas dúvidas. Eu tenho skills matemáticos. Posso-lhe garantir que consigo fazer uma empresa de sondagens que usa todas as regras de sondagens e dou-lhe o resultado que quiser. Sabe porquê? É muito simples. Preciso de ter uma representação do norte, do sul, do centro e das ilhas, em termos geográficos. Mas só escolho as freguesias em que ganhou um determinado partido. Eu vou lá fazer como se fosse por acaso. Calhou-me naquelas freguesias. Só que a amostra está inquinada à partida. Mas em termos de técnica de sondagem, eu sondei o país inteiro.

Mas por que acha que há uns meses as sondagens davam-no tanto cá em cima e agora o dão tão em baixo? Qual é a conclusão que tira?

Há duas teorias. Há três. Naturalmente, tive que baixar um bocado. Admito isso. Porquê? Porque estava sozinho com dois ou três atores e agora são 11 atores no sistema. Ou seja, transformaram-se presidenciais nas legislativas. Nós estamos a discutir partidos, já não estamos a discutir personalidades. Claro que eu aí, como não tenho partido, naturalmente baixei. Ou seja, fiquei com os restos do que os diversos atores dos diversos partidos não conseguiram congregar. E, naturalmente, baixei. Até diria que isso foi uma reação do sistema contra um corpo estranho, que era eu. Isso por um lado. Por outro lado, houve sondagens no início em que não acreditei, porque me eram demasiado positivas. E agora quero ver. Há uma empresa que me começou a dar 36. Repare só a geometria. Com intervalos 36, 28, 24, 18, 14. E aposto consigo que ainda me vai dar quatro ou cinco.

E qual é essa empresa? É a Pitagórica?

Não, não. É a intercampus.

Acha que vai recuperar na estrada? Reconheceu que, obviamente, a imagem que podia passar na televisão nos primeiros debates, pode ter dado alguma sensação de insegurança ou de imaturidade, ou o que quer que seja seja. Acha que na estrada as pessoas o vão conhecer melhor?

Acho que já recuperei. Claro que vou acentuar a recuperação na estrada. Porque tenho um contacto muito fácil com as pessoas. Muito empático. Isso, quem anda comigo...

Mesmo não usando a farda?

Pelo contrário.

Mas se usasse a farda, acha que teria mais...

Acho que não. Até porque a farda assusta as pessoas de alguma forma.

Na covid não assustou.

A covid era um caso diferente. Portanto, acho que vou recuperar naturalmente, mas mais do que isso. As pessoas querem uma pessoa séria, fora do sistema, porque estão um bocado cansadas do sistema. E é isso que vai ser decisivo. E aí não há ninguém que me possa bater ou concorrer comigo. Porque mesmo o doutor André Ventura já faz parte do sistema político-partidário. Acredito que o que está a acontecer em algumas sondagens são fabricações políticas pura. E por isso é que digo, os senhores fiquem com as sondagens, que eu fico com os resultados do dia 18 de janeiro de 2026.

Isso é óbvio. Mas há uma pergunta que lhe tem sido feita que acho que é inevitável. Está sempre a falar do sistema, mas o seu mandatário nacional é Rui Rio. Isaltino Morais é outra das personagens da sua candidatura. Afinal precisa do sistema para...

Respondo-lhe já a isso.

Acha que Rui Rio lhe tirou votos ou não?

Sinceramente, acho que não. Há quem defenda essa teoria. Não pedi ao doutor Rui Rio para ser meu mandatário para ter votos. Mas a resposta obvia é esta: não podem querer que quem não tenha partido, quem não tenha estrutura, tenha ausência de apoios. Porque senão vai fazer uma campanha para a lua. Uma coisa é a ausência de apoios, outra coisa é ausência de dívidas ou de dependências. E uma coisa que lhe posso garantir é que não tenho uma única dívida ou dependência. Porquê? Não andei com os senhores uma vida inteira a trocar favores, a conhecer coisas deles e eles reconhecerem coisas de mim, envolvidos em determinadas situações políticas anteriores. Estou totalmente independente.

Essas personagens ajudaram a que aparecesse dinheiro na sua campanha ou não?

Não, não. Pelo contrário. Não me ajudaram nada, nem desenvolveram nada. O que aconteceu foi que essas pessoas olharam para mim e viram-me como uma possibilidade de um novo projeto político na Presidência.

Vamos ter um novo PRD?

Não, não, não. Não é um novo projeto político no sentido partidário, é na Presidência. O que é que eles acreditaram? Que eu de alguma forma era uma lufada de ar fresco no sistema, com o que eles também lutaram e se desiludiram com o sistema. O doutor Rui Rio está desiludido com o sistema e outros que me apoiaram também estão desiludidos com o sistema.

E há muita gente desiludida com eles também, não é?

Claro, mas faz parte da vida.

O que pensa do Manifesto dos 50?

Os problemas que levantam são preocupantes. Porquê? Nós temos um problema na Justiça. Eu defendo a independência do poder judicial. No entanto, a independência do poder judicial não pode ser uma independência que permite interferir no poder político. Tem que haver regras. E essas regras podem estar perfeitamente definidas por leis. Não preciso de ir mandar no poder judicial, não é? Ou seja, o poder judicial obedece a leis.

Como sabe, Rui Rio e outros são acusados de quererem mandar na Justiça.

Mas eu não sou acusado disso porque nunca disse que queria aquilo. O que digo é que tem que ser regulado.

Discorda, portanto, dessa posição?

Reconheço o problema, que há evidências aparentes, não tenho a certeza, mas há evidências aparentes que pode haver uma interferência de um setor que devia ser independente, que é o setor judicial, portanto, a Justiça, no processo político. Porque há um conjunto de coincidências e fugas de informação que são coincidências a mais. Essa preocupação de interferência é uma preocupação que deve preocupar também os políticos. Até aqui estamos todos de acordo, a solução não é agora o poder judicial depender dos políticos. Não é isso. E por isso é que é que eu entro em desacordo. A solução é, que leis é que nós temos que melhorar para evitar essa interferência?

N.R. Já depois da entrevista, surgiu uma notícia a dizer que o MP está a investigar 57 ajustes diretos feitos pela Marinha à empresa Proskipper, entre 2017 e 2020, alguns dos quais assinados por Gouveia e Melo. Posteriormente, a PGR esclareceu que o almirante não é arguido na investigação em curso. 

O que tem a dizer da acusação dos ajustes diretos que assinou?                        

É uma história plantada para criar um efeito político. Vi-me envolvido numa coisa que já estava super esclarecida. Que investigação sobre mim era essa? Nenhuma. Estão a fazer uma investigação é à empresa Proskiper, não sou nem arguido, nem nunca testemunhei, nem nunca fui chamado a depor em qualquer qualidade. Quanto aos ajustes, a lei permite fazer ajustes diretos, com determinadas regras. O próprio Tribunal de Contas tinha dito que quanto muito eu devia ter verificado, e eu expliquei ao Tribunal de Contas que era impossível verificar 7.500 processos num ano, porque se dividir 2.500 horas de trabalho por ano por 7.500 processos, eu tinha 20 minutos para cada processo, se não fizesse mais nada na vida.  Depois, o que estava em causa eram 13 processos de 1.500 euros, 2.000 euros, 3.000 euros, em 7.500 processos num ano, e havia uma equipa especializada só para verificar os contratos. Não tenho dúvidas nenhumas que isto foi para criar ruído e para denegrir a minha imagem, porque uma das coisas que tenho enquanto candidato é a minha integridade. E isto era para atacar o âmago da minha candidatura, mas não tenho medo nenhum, quem não deve não teme.

Defenderia um confinamento em caso de novo surto de Covid? Assinaria como Presidente?

Assinaria tudo que salvasse vidas. É o meu compromisso, mas com todo o cuidado. Porque a liberdade é a última coisa que nós devemos impactar. Agora, se me disser assim, se eu restringir a liberdade, por exemplo, da obrigatoriedade de usar máscara.

Estou a falar mesmo em confinamento.

Estou-lhe a dar diferentes graus de liberdade. Exigir que todas as pessoas usem máscara, é um grau de liberdade que estou a tirar à população. Se esse grau de liberdade me reduzisse a pandemia, eu imediatamente assinava isso. Se agora dissesse assim, nesta pandemia não há provas que o contágio seja por respiração, mas vai tudo confinar. Aí eu teria muitas dúvidas. Agora, nesta pandemia, se não confinarmos, os contágios porque não temos vacinas, vão ser de tal maneira impactantes que vamos ter um aumento de mortes gigantesco. Se calhar tinha que pensar duas vezes. Não posso decidir em cenários que não se materializaram. Quando recebi a tarefa da vacinação, quando começaram a aparecer vacinas, sabe quantas pessoas morriam por dia em Portugal de covid? Trezentas pessoas.

Quantas pessoas perderam a vida por causa de estarem confinadas?

Na altura, não se sabia.

Mas hoje sabe-se.

A questão é, conseguimos nós adivinhar o futuro quando tomamos uma decisão, com todos os pesos e todas as coisas? Nós tivemos quase um ano e meio sem vacinas. Se não fossem os confinamentos que baixaram a contaminação, se calhar o número de vítimas teria sido muito superior. Ninguém consegue saber, neste momento, porquê. Porque foram salvas vidas. Quantas vidas é que foram salvas? Quantas vidas é que foram impactadas porque se fez o confinamento? Conseguimos fazer essa comparação? É difícil.A

Defende os direitos dos antigos combatentes que foram maltratados. O que pensa dos antigos militares portugueses, das antigas colónias, poderem ou não adquirir a nacionalidade portuguesa? Falo de quem combateu pelo exército português e foi abandonado, muitos foram logo mortos.

Isso foi uma das maiores barbaridades do Estado português, deixar quem combateu por nós, arriscou a sua vida e deixá-los abandonados à vingança imediata, foi uma barbaridade. Uma barbaridade de uma injustiça tremenda.

Hoje defenderia que se algum desses sobreviventes quisesse a nacionalidade portuguesa que a deveria ter?

Defendo que a esses devemos uma reparação moral e uma reparação moral forte.

É normal um imigrante poder adquirir a nacionalidade portuguesa sem falar português?

Não defendo isso. A minha política é regulação nas entradas, controle que não existia e integração. São as três coisas. O que é a integração? A integração é eu ter capacidade de transformar aquela pessoa que vem de uma outra sociedade numa pessoa que trabalha na minha sociedade de forma transparente, sem problemas. Portanto, a língua é importante para isso. Os hábitos são importantes. A cultura também, de alguma forma, tem alguma influência nisso. Agora, a pessoa não é mais perigosa por ter uma religião X ou Y. Ou por ter uma cor X ou Y. A pessoa é mais perigosa porque é extremista, porque tem um determinado tipo de comportamento. O que é que hoje nós fizemos? Nós temos períodos para adquirir a nacionalidade elevados. Cinco, sete e dez anos. O que nós temos que fazer é monitorizar a evolução dessas pessoas na nossa sociedade. Nós é que decidimos dar-lhe a nacionalidade. Aquilo não é automático.

Mas não falando em português, podem adquirir a nacionalidade?

Não, eu acho que deviam falar todos português. Há uma condição sine qua non para adquirirem a nacionalidade portuguesa. Por isso é que sou contra a venda da nacionalidade. Porque, por um lado, estamos a exigir...

Isso tem a ver com os vistos-gold, no que está a insinuar.

O visto-gold, para existir, tem que haver um conjunto de critérios. O visto-gold pode ser, por exemplo, residência. Eu atribuo-lhe a residência e dou-lhe um período para se integrar na nossa sociedade. Uma das coisas é, no mínimo, falar a língua. No mínimo, conhecer um bocado da nossa história. No mínimo, conhecer a nossa estrutura legal básica. Os nossos valores. Por exemplo, os direitos da mulher. Os direitos da mulher, em determinadas culturas, não são os direitos da mulher que nós praticamos cá. Temos que exigir que aqueles senhores que vêm percebam quais são os direitos da mulher. Porque vivem na nossa sociedade, não vivem na sociedade deles original.

Por isso é a favor da proibição do uso da burca?

Sobre a burca não me pronunciei na altura porque achei que era uma lei só para criar ruído e não quis participar nesse ruído. Não concordo que uma mulher seja obrigada, uma coisa é  opção, outra coisa é que seja obrigada a estar vestida dos pés à cabeça, toda tapada, só com uma ranhura nos olhos, para poder ver. Não concordo porquê? Porque esse hábito é um hábito de uma sociedade machista, de dominação dos homens sobre as mulheres, e que é um traço cultural que nós não temos na nossa sociedade e não queremos ter. E, por isso, não parece que essas pessoas se possam adaptar com facilidade à nossa sociedade. Elas podem adaptar-se e nós temos que verificar se elas se adaptam ou não. O inverso é, mas o Estado obriga as pessoas a vestirem-se de uma determinada maneira? É legal, é justo?

Não podemos andar nus na rua.

O Estado o que deve obrigar é que o que nós vestimos não seja um ato de punição sobre um género ou um ato de controle sobre um determinado sexo.

É capaz de dizer o mesmo, por exemplo, sobre a comunidade cigana e os casamentos de crianças de 10 anos?

Sou. Se a nossa lei diz que a idade para se casar é a partir dos 16 anos, a lei deve-se aplicar a todos. A comunidade cigana está cá connosco, vive integrada na nossa sociedade, não pode ter uma lei à parte. É o tal problema da Constituição. As pessoas falavam da Constituição, mas parece que os atores políticos que estão nestas candidaturas devem ter lido pouco a Constituição. Há um artigo, que é o artigo 13º da Constituição. Todos os cidadãos praticam, em Portugal, a mesma lei, os mesmos direitos e as mesmas obrigações. O que isso significa? É que não há cidadãos ciganos com uma lei própria para eles. A lei é geral e aplica-se a todos. E, portanto, se querem fazer isso, emigrem para o país em que isso é permitido, mas não aqui.

O que deverá fazer a Europa e a NATO, por mais contraditório que seja, se os Estados Unidos invadirem a Gronelândia e, já agora, a Venezuela? E os Açores, e, nomeadamente, as Lajes, estão livres desta sede de Trump?

Não estão livres. E o mundo - neste caso nós, integrados no mundo e na Europa - deve reagir contra.

Mas o que pode acontecer se ele anexar a Gronelândia?

Não vai anexar. No campo das hipóteses, ele até pode criar uma guerra nuclear. Mas isso é o campo das hipóteses. No campo das probabilidades, não é provável que isso aconteça.

Mas por que diz que as Lajes não estão livres disso?

Não estão livres no campo das hipóteses. O meu pensamento não tem a simplicidade, muitas vezes, de uma conversa de café. E não consigo traduzir numa conversa de café uma coisa que é verdadeiramente complexa. Por que razão isto não vai funcionar? Porque nesse dia perdia todos os apoios ocidentais. E nesse dia não conseguia contrariar a China no Pacífico. A América sozinha não tem força. Não é do interesse dos Estados Unidos perderem a liderança mundial. O grande risco dos Estados Unidos é perderem a liderança mundial. A liderança mundial tem dois fatores que são essenciais. Sem eles não há liderança. Força militar e capacidade de mobilizar uma força militar. Eles sozinhos não conseguem ter a força militar suficiente para dominar o mundo. Precisam do mundo ocidental. Neste caso, os europeus. E o Canadá e a Austrália, o Japão a Coreia do Sul... Precisam desse mundo. Sozinhos já não têm a força militar, e a moeda deles pode deixar de ser a referência internacional. No dia em que acontecesse uma coisa dessas eles entravam num colapso económico quase imediato.

 Acredita que ele também não vai invadir a Venezuela?

Isso já não lhe consigo dizer neste momento, mas devia ter a oposição toda do mundo ocidental se isso acontecesse. Porquê? Porque isso é dar razão à Federação russa.

Com o avanço da Inteligência Artificial, acha que os robôs devem começar a pagar impostos ou não?

Toda a atividade que gera receita paga impostos, correto? Se os robôs gerarem receita, naturalmente, pagarão impostos.

Sei que não concorre para o cargo de primeiro-ministro, mas faço-lhe a pergunta. No Reino Unido, diz-se, há um regresso ao ensino profissional, precisamente devido ao avanço da Inteligência Artificial. O que acha que Portugal deve fazer?

Como gosto do Star Wars, vou-lhe dar o Viper e o Skywalker com o R2-D2. A Inteligência Artificial vai multiplicar a capacidade humana. Não vai substituir a capacidade humana. É a mesma coisa que dizer que os seres humanos, que antigamente andavam na agricultura, depois, quando apareceram as máquinas agrícolas, iam desaparecer. Mudaram de atividade. O que acontece? A Inteligência Artificial vai fazer uma coisa fantástica pela sociedade. Vai aumentar imenso a produtividade. Isto é quase filosófico, mas é para verdadeiramente perceber o que estou a dizer. Nós andámos quase 700 mil anos com a mesma formulação genética, e não fizemos nada, não avançámos nada. Andávamos só a sobreviver como macacos mais especializados. De repente, começámos a fazer agricultura. O que aconteceu? Começámos a produzir muito mais alimentos do que era necessário para a população. Especializámos menos pessoas a trabalhar, outras novas profissões para organizar e fazer outras coisas. Demorámos quantos anos? 30 mil anos a evoluir até ao próximo passo. Qual foi o próximo passo? Quando deixámos de precisar da força animal. Passámos à força mecânica, revolução industrial, salto gigantesco. Agora, nos últimos 20 anos, estamos a alavancar a capacidade cognitiva, ou seja, o cérebro humano. Em todas estas fases, a população humana deu saltos gigantescos de evolução. O que vai acontecer? Estamos numa pirâmide etária invertida. Como é que nós vamos ter uma sociedade em que está um trabalhador ativo por um inativo? Com a mesma produtividade atual? Não é possível. Mas com a produtividade alavancada pela inteligência artificial e pela robotização, conseguimos ter essa sociedade. Não é uma má notícia. Só é uma má notícia para as sociedades que não se adaptarem. Por isso, nós estamos perante uma nova fronteira que requer uma adaptação rápida. Qual é a vantagem do nosso país? Somos pequenos, conseguimos fazer curvas a 90 graus. Os outros fazem curvas muito mais compridas. Agora, para fazer curvas a 90 graus, temos que ter boas decisões, gente com visão e com capacidade e coragem para arriscar, mudanças. São essas mudanças que estão a faltar na nossa sociedade. Nós temos geneticamente na nossa sociedade dois trends. O Velho do Restelo e o Vasco da Gama. O Velho do Restelo é a prudência. Mas o excesso de prudência é a paralisação. O Vasto da Gama é a aventura. O excesso de aventura pode ser um risco inaceitável. Nós temos que dosear essas duas características que nós temos dentro da nossa sociedade. Agora, não pode ser muito excesso de prudência. Porque muito excesso de prudência atrasa-nos e tira-nos a tal competitividade de sermos mais reativos.

Escolheu o verde e o vermelho como cores das suas gravatas. Já tinha essas gravatas?

Tinha a vermelha e tinha uma que era azul. Escolhi o verde, o vermelho e o azul. Porquê? Azul do mar. Vermelho e verde da bandeira nacional.

Só faltou levar amarelo.

Não me ficaria muito bem.

Alguma vez voltou a Quelimane?

Não, infelizmente.

E não tem vontade...

Tenho e espero voltar um dia a Quelimane.

Se for eleito, como gostaria de ser lembrado depois de deixar o Palácio de Belém?

Como a pessoa que, durante o seu mandato, ajudou o país a dar um salto em termos do seu desenvolvimento económico, com coesão social.

E com o cognome do almirante ou de comandante?

Não, o cognome de Presidente. Mas tenho muito orgulho de ter sido e de ser almirante. Vou-lhe explicar uma coisa que aconteceu há pouco tempo. Um dos meus adversários, através de um seu lugar tenente, disse o ex-almirante. Dizer o ex-almirante é uma ofensa como dizer o ex-engenheiro ou o ex-médico. Tenho a minha qualificação profissional até ao fim da minha vida. Não deixei de ser, quando muito podia ser, oficial de Marinha. Mas agora dizer ex-almirante é um... porque senão eu também digo o ex-doutor, o ex-isto, o ex-aquilo. O ex-jornalista. Há coisas que são pequenos detalhes que depois parecem insultuosos. Eu, se me chamarem, Henrique Gouveia e Melo, à inglesa, estou super contente. Ex-almirante já é ofensivo. Porque eu serei sempre almirante. Mesmo na Presidência, serei sempre almirante.

E gosta que o tratem por almirante?

O Presidente é uma coisa temporária. Sou oficial de Marinha desde os 18 anos de idade. Tenho 65.

Sendo um fascinado por drones, o que pensa do uso que os ucranianos lhes estão a dar?

Os drones subaquáticos que os ucranianos estão a usar  são muito especiais e as ideias vieram de uma única cabeça que as desenvolveu, da minha. Depois com o  aparelho técnico da Marinha. Neste momento estão a ser equacionados para um grande negócio para os ucranianos os usarem. E fui eu também que desenvolvi, nas reuniões da NATO, que em vez de dar uma Marinha ucraniana de superfície que não serve para nada no mar Negro, que era abatida mal entrasse no estreito, se fizesse uma Marinha de meios assimétricos com drones. E fui eu que pus lá isso, nas reuniões da NATO. Eu se dissesse que era consultor militar, naturalmente, era legítimo, as pessoas perguntassem: 'Mas o senhor é consultor militar de quem? De russos? Dos ucranianos? Dos japoneses? Dos chineses? E eu dizia, 'os meus clientes eu não posso dizer'. As pessoas ficavam com a maior das dúvidas. Nunca fiz atividade de consultoria. Quando alguém diz que é ex-político e diz que fez consultoria, por favor, diga que raio de consultoria é essa. A ética tem a ver com explicar. Às vezes, há caminhos que nós percorremos que, depois, de alguma forma, condicionam outros caminhos. Os caminhos não estão todos abertos a ad aeternum.

É ou não é verdade que bateu o recorde de tempo de um submarino submerso e, quando ele veio para cima, a tripulação estava toda com cabelo branco?

Não, bati o recorde, mas o cabelo branco é mentira. É tão mentira que há fotografias da guarnição quando chegou e não estão de cabelo branco. Isso é um mito urbano.

E o segundo mito urbano, foi o senhor almirante que derrubou o porta-aviões americano nos exercícios da NATO?

Derrubei diversas vezes. Mas também houve outros portugueses que o derrubaram antes.

 Com o famoso submarino.

Eu andei no Barracuda e no Delfim. São os dois grandes submarinos que andei. Mas o mito urbano, que não é um mito urbano... Eu usava os exercícios para testar as manobras mais radicais. A minha filosofia era esta. Eu não estou aqui nem a minha guarnição para passar tempo. O Estado paga-nos muito para estarmos aqui. Portanto, vamos fazer tudo como se estivéssemos em guerra e testar as coisas que testaríamos. Que se testássemos em guerra podíamos morrer. Para sabermos qual é o limite da máquina, qual é o limite até onde podemos ir, como é que os outros nos detetam ou não detetam. Fiz coisas que realmente estavam fora, digamos, dos manuais habituais. E, com o tempo, foram muitos exercícios que fiz. Fui sendo conhecido na NATO como um indivíduo muito agressivo. E, na NATO, havia uma coisa que é, quando eu entrava nos exercícios, os tipos pensavam: ‘Está aqui um gajo que nos quer dar cabo das nossas forças. Mas eu fazia isso. Não porque era um louco obcecado, mas porque achava que era, em tempo de paz, que devíamos testar e treinarmos ao máximo para, em tempo de guerra, não sermos vítimas do acaso, ou alguma infelicidade. E, por isso, era mais uma consciência profissional do que outra coisa qualquer.

 Mais alguma coisa?

Gostava que ficasse claro esta história da transparência. Só quero é que fique claro qual é a atividade do senhor A, do senhor B ou C. A minha é óbvia. Tudo o que ganhei foi com o meu ordenado, estive ocupado a tratar dos assuntos da Marinha, portanto, acho que não há grande explicação para dar. A senhora deputada X, que foi deputada aqui, ali, acolá, antes foi artista, etc., também não há grande explicação, que eu saiba. Quando se sai do radar, que não é óbvio, as pessoas têm que dizer, minimamente, o que estiveram a fazer.