Vivemos num mundo em mudança acelerada, marcado pelo desnorte e pelo enfraquecimento da Europa e das suas lideranças. Portugal, porém, continua, teimosamente, “à beira-mar plantado”, à espera que outros decidam por nós.
Nas últimas décadas instalou-se uma inércia política difícil de ignorar. Evitam-se políticas estruturantes, privilegia-se o curto prazo e governa-se ao ritmo do ciclo eleitoral. As decisões mais difíceis são sucessivamente adiadas, enquanto o debate público se empobrece e a confiança nas instituições se desgasta.
É neste contexto que se aproximam as eleições presidenciais de 18 de janeiro de 2026.
E talvez seja precisamente por isso que estas eleições mereçam uma reflexão mais profunda do que a habitual escolha entre nomes consensuais e previsíveis.
Que papel deve hoje ter o Presidente da República? Deve limitar-se a moderar, ou deve enquadrar, exigir e, quando necessário, condicionar o sistema político?
Durante muitos anos, foi a partir de São Bento que se condicionou Belém. Hoje, não será legítimo perguntar se não é apenas a partir de Belém que se poderá devolver densidade institucional ao regime e reequilibrar um sistema político claramente bloqueado?
A história democrática portuguesa mostra-nos que Belém já foi, em momentos decisivos, o espaço onde se resolveram partidos, se clarificaram lideranças e se desbloquearam questões fraturantes. Será descabido pensar que possa voltar a sê-lo?
Há ainda um dado que importa enfrentar sem preconceitos. Goste-se ou não, existe uma probabilidade real do actual Chega, liderado por André Ventura, poder chegar ao Governo num horizonte relativamente curto. Ignorar esta realidade não a faz desaparecer.
Perante isto, não fará sentido separar planos e colocar uma pergunta incómoda, mas necessária: Será que votar em André Ventura para Belém significa, inevitavelmente, fortalecer o Chega enquanto partido e futura força governativa? Ou poderá significar exatamente o contrário?
E se uma eventual eleição presidencial de André Ventura expusesse os limites estruturais do próprio Chega? Um partido fortemente dependente de uma única liderança, com fragilidades evidentes ao nível do capital humano, da maturidade política e da densidade institucional. Poderia Belém tornar-se o espaço onde essa realidade ficaria definitivamente clara?
Não será legítimo questionar se uma vitória presidencial de Ventura obrigaria o Chega a uma reorganização profunda, talvez até ao fim do partido tal como hoje existe, abrindo espaço a uma direita mais exigente consigo própria, mais competente e mais responsável? Uma direita que Portugal, goste-se ou não, ainda não conseguiu construir.
É neste ponto que a questão se torna verdadeiramente interessante.
Será que votar em André Ventura nestas Presidenciais não pode ser, simultaneamente, um voto de concordância para uns e um voto estratégico para outros? Um voto que agrade a quem reconhece o trabalho político feito, mas que também sirva aqueles que temem ver este Chega chegar ao Governo sem preparação nem quadros?
Será que esta não é, precisamente, a singularidade destas eleições presidenciais?
Talvez o maior risco não esteja em ponderar uma solução diferente, mas em continuar a recusar qualquer risco. Porque com as mesmas premissas dificilmente teremos resultados diferentes.
Os portugueses precisam de espaço para pensar, de coragem para questionar bloqueios antigos e de vontade para considerar caminhos menos óbvios. Não certezas fáceis, mas perguntas certas.
Talvez seja esse, afinal, o verdadeiro desafio destas eleições. Pensar se Belém pode, uma vez mais, ser o lugar onde se clarificam escolhas, se resolvem impasses e se prepara um futuro menos previsível, mas mais exigente.
Porque só assim poderemos aspirar a um futuro diferente. Um futuro melhor para Portugal e, por isso, para os nossos filhos.