O povo costuma dizer que ‘quem com ferros mata, com ferros morre’. E as mais recentes notícias sobre a investigação do Ministério Público que envolve Henrique Gouveia e Melo parecem fazer jus a esta velha máxima. Num ápice, o Almirante passou de acusador a vítima desta forma de fazer política, assente em suspeitas e em bufos que não olham a meios, mas também não querem saber do fim da história. E, no fim, ninguém se ficará a rir.
Tornou-se o novo normal. Se há eleições, há suspeitas que se levantam de debaixo das pedras, ataques de caráter, denúncias anónimas, inquéritos, averiguações preventivas, vale tudo menos arrancar olhos para destruir o adversário. Os que se dizem acima da politiquice e da baixa política são os primeiros a fazer corta-mato, na esperança de que isso lhes dê vantagem, nem que para isso tenham de mergulhar na lama onde juraram nunca pisar.
Para a estratégia funcionar, é preciso, primeiro, encontrar as suspeitas e, depois, conseguir amplificá-las na comunicação social e nas redes. Os anónimos da justiça transformam-se rapidamente em fontes dos jornalistas. Se a justiça não pode ignorar uma suspeita de crime, pode um jornalista ignorar uma notícia? Não. E pronto. Está montado o caso que, rapidamente, se tornará polémica, até porque nenhum candidato conseguirá resistir a comentar o ‘tema do dia’.
As campanhas sujas são tão antigas quanto a política. Mas têm vindo a aperfeiçoar-se – ou a degradar-se, depende do ponto de vista. Em nome do escrutínio, tudo passou a ser justificável. Quem quiser ser candidato a um cargo político tem de estar preparado para responder à justiça na praça pública, ou a fazer um striptease integral do seu passado profissional e familiar. E, se se recusar, é porque tem alguma coisa a esconder. Dizem os adversários políticos e dizem os seus ventríloquos no espaço mediático, com o dedo acusatório em riste, que a polémica também alimenta. O ego, as redes sociais ou a agenda escondida.
São as novas regras de um jogo onde só passam entre os pingos da chuva os funcionários públicos ou dos partidos e, mesmo assim, não podem ter ocupado cargos de grande responsabilidade. Não queremos políticos profissionais, mas também desconfiamos dos profissionais que querem ir para a política. Desconfiamos de toda a gente, porque todos são suspeitos de alguma coisa até prova em contrário. Prova? Qual prova? Depois da lama atirada, alguém quer saber das provas? O ónus de uma desinfestação pública estará sempre no visado. Ele que se explique. Ele que prove que é sério. Boa sorte com isso.
Não gosto desta forma de fazer política. Desde logo, porque isto não é política e serve apenas o propósito de desviar as atenções, precisamente, da política. Da falta de argumentos, da incapacidade para mobilizar o eleitorado em torno de um projeto, da falta de jeito. Não que o caráter e o passado de um candidato a um cargo político não sejam relevantes para a decisão dos eleitores. Mas esse escrutínio – que é uma responsabilidade de todos – deve ser feito com rigor e com o bom senso de quem sabe que a dignidade do outro é o seu bem mais precioso.
Mas também, confesso, não sei como se resolve isto. Sei que poucos atores desta novela sórdida em que se está a tornar a política – nacional e não só – podem reclamar inocência. E sei também que o caminho que estamos a trilhar, no médio/longo prazo, não beneficiará ninguém. Se a democracia passar a viver da suspeição, só um puro a poderá salvar. E como os puros não existem, sobram-nos os falsos puritanos para nos governar.