Entre Festas

A minha mãe, entre uma filhó, um coscorão e um sonho diz sempre: «é só hoje», enquanto se serve de uma azevia de grão e outra de batata-doce (para ver qual gosta mais)

Querida avó,

Chegado o fim do Natal, é tempo de fazer o balanço – não o financeiro, porque esse dói – emocional, gastronómico e “ligeiramente” etílico da época.

Comecemos pela comida. No Natal come-se como se o apocalipse estivesse marcado para dia 26. Bacalhau (antigamente chamado de “peixe dos pobres” e que, hoje, praticamente, temos de vender um rim, para pôr um miserável bacalhau na mesa) polvo, peru, rabanadas, sonhos, azevias, bolo-rei, bolo-rainha, bolo-qualquer-coisa, este ano até criaram o bolo-princesa (opção vegan) para se juntar ao reino dos bolos. Há sempre alguém que diz: «Prova só um bocadinho», e esse bocadinho tem o tamanho de um bloco de cimento. O prato nunca está vazio, apenas “temporariamente ocupado”. E, mesmo quando já não cabe mais nada, há sempre espaço para sobremesa, porque o estômago natalício funciona com leis próprias da física.

Quanto às bebidas, o Natal é aquela altura em que o vinho aparece “só para acompanhar”, o espumante “só para brindar”, o licor “só para ajudar à digestão” e, quando damos por isso, estamos a discutir com convicção temas profundos como quem pagou o bolo-rei em 1998. Há sempre alguém que fica subitamente filosófico depois do terceiro copo e outro que garante que “nem se sente nada”.

No fim, ficamos com restos no frigorífico suficientes para alimentar uma pequena aldeia, uma sensação permanente de enfartamento e a promessa solene de que “para o ano vamos fazer algo mais simples”. Mentira. Sabemos todos que para o ano vai ser igual – e ainda bem. Porque o Natal é isso mesmo: exagerado, caótico, barulhento, bizarro… e estranhamente perfeito.

A minha mãe, entre uma filhó, um coscorão e um sonho diz sempre: «é só hoje», enquanto se serve de uma azevia de grão e outra de batata-doce (para ver qual gosta mais).

Isto tudo enquanto se programa o que se vai fazer para comer na passagem de ano, claro.

Bom Ano.

Bjs

Querido neto,

Como já falámos, inúmeras vezes, acho que só comecei a gostar verdadeiramente do Natal depois de os meus filhos nascerem.

Quando eu era miúda, o Natal era quando as velhas tias da província se instalavam lá em casa e nós tínhamos de andar às ordens delas, que não mexiam uma palha. E quanto a presentes… davam-me sempre meias. Nunca me deram outra coisa.

(Quer dizer: uma vez uma delas deu-me um livro e disse-me:

«É para as tuas horinhas de ócio».

Mas eu não sabia que raio de coisa era isso de ”ócio” e respondi:

«Se é para isso pode levar porque não tenho essas coisas cá em casa».

Ela ficou tão danada que mo tirou das mãos e voltou a dar-me meias, como todas).

A partir do nascimento dos meus filhos, tudo mudou: começo a enfeitar a casa logo em novembro, faço coleção de presépios (tenho mais de 100… todos diferentes) – e as tias, coitadinhas, já morreram todas.

Aqui na Ericeira já há alguns dias que pus um dos presépios numa mesa que há cá fora, em frente à porta da casa – mas ainda lhe vou juntar mais alguns – sobretudo aquele que mostra São José, a Virgem e o Menino…numa prancha de surf (a Ericeira é a primeira reserva de surf da Europa, como sabes…) e o que mostra São José a embalar o Menino Jesus e a Virgem deitada na cama, muito cansada… O presépio mais pequeno que tenho mostra S. José, a Virgem e o Menino – dentro de uma noz  

Como vês tenho Presépios para todos os gostos e muito pouco convencionais!!

Vão ficar todos a apanhar ar até ao Dia de Reis. Depois voltam (quase todos) em romaria para as suas caixas até ao próximo mês de novembro. Alguns ficam em exposição ao longo do ano.

Espero que o próximo ano te traga muita saúde, trabalho, paz… e essas coisas que se costumam dizer nesta altura do ano.

De preferência, na companhia desta avó que tanto te ama.

Bom Ano.

Bjs

Temas