A discussão sobre o futuro da CCDR-Norte não pode continuar limitada à gestão de fundos ou à coordenação administrativa. As competências que hoje lhe estão atribuídas colocam-na, na prática, mais próxima de um governo regional de facto do que de um simples organismo descentralizado do Estado. A questão que se coloca é política e estratégica: queremos usar essa capacidade para afirmar o Norte como uma região produtiva, industrial e geradora de riqueza, ou continuar a geri-la de forma fragmentada?
O Norte é, historicamente, a região mais industrializada do país. É aqui que se concentra cerca de 35% das exportações nacionais, representando mais de 30 mil milhões de euros por ano, sustentadas por um tecido empresarial fortemente ancorado na indústria transformadora. Setores como a metalomecânica, o têxtil técnico, o calçado, o mobiliário, a agroindústria e novas cadeias ligadas à tecnologia e à inovação fazem do Norte um dos principais motores económicos de Portugal. Esta realidade, central para o crescimento nacional, continua, porém, subvalorizada no discurso político e na estratégia territorial.
Uma CCDR com ambição pode e deve assumir um papel ativo na articulação entre indústria, inovação, território e qualificação. Não se trata de substituir o Governo central, mas de exercer plenamente competências que já existem: planeamento regional, coordenação de políticas públicas e articulação entre municípios, universidades, centros tecnológicos e empresas. É aqui que reside a oportunidade de evoluir de uma lógica predominantemente executiva para uma verdadeira governação regional estratégica.
A afirmação do Norte como região industrial exige escolhas claras. Exige planeamento do solo que proteja áreas produtivas, políticas de atração e retenção de talento técnico, alinhamento entre formação profissional e necessidades reais das empresas e uma estratégia de internacionalização que valorize o “feito no Norte” como marca de qualidade, inovação e fiabilidade. Nada disto se constrói município a município. Constrói-se à escala regional, com visão e coordenação.
Se a CCDR-Norte assumir esta ambição, pode tornar-se a plataforma onde convergem políticas hoje dispersas: desenvolvimento económico, inovação, mobilidade, habitação para trabalhadores, energia, sustentabilidade e coesão territorial. Pode, sobretudo, dar coerência política a um território que já produz riqueza, mas que nem sempre a transforma em poder de decisão e afirmação estratégica.
A regionalização formal continua a suscitar debate. Ainda assim, há uma evidência difícil de ignorar: o Norte já funciona como uma região económica integrada, com capacidade produtiva, exportadora e inovadora. O que lhe falta não é identidade nem escala, mas uma governação capaz de acompanhar essa maturidade. A CCDR pode e deve assumir esse papel intermédio, pragmático e eficaz, exercendo liderança estratégica sem depender de reformas constitucionais adiadas.
A mudança de ciclo que se aproxima deve ser lida como uma oportunidade para reforçar essa ambição. Se souber assumir plenamente as suas competências, a CCDR-Norte pode afirmar-se como plataforma de coordenação de uma região industrial moderna, competitiva e aberta ao mundo. O Norte não precisa de tutela acrescida. Precisa de liderança regional que compreenda a sua matriz produtiva e saiba transformá-la em valor económico, político e estratégico.