O plano de paz de 20 pontos apresentado por Donald Trump para Gaza foi anunciado como uma proposta ousada, quase revolucionária, destinada a pôr fim a décadas de violência. No papel, tudo parece estar lá: desenvolvimento económico, ajuda humanitária, reconstrução e uma nova arquitetura de segurança. Na prática, porém, o plano colide com uma realidade que não se deixa moldar por anúncios políticos nem por calendários eleitorais.
Desde o início do cessar-fogo associado à iniciativa, mais de quatrocentas e cinquenta pessoas morreram em Gaza. Este número, por si só, deveria bastar para travar o entusiasmo diplomático. Um cessar-fogo que continua a produzir centenas de vítimas não é um primeiro passo para a paz, é a prova de que a violência permanece fora de controlo. E quando a segurança falha logo no início, tudo o resto se constrói sobre areia.
A estratégia de Trump assenta numa lógica de pressão combinada com incentivo. A lógica central do plano é simples: substituir a guerra pela prosperidade. Investimento económico em larga escala em troca da desmilitarização total do Hamas. O problema é que esta equação ignora uma constante dos conflitos prolongados: a economia não apaga, por si só, feridas políticas, identitárias e históricas. Pode aliviar, mas raramente resolve.
A ambiguidade torna-se ainda mais evidente nos incentivos oferecidos ao Hamas. O plano acena com amnistia individual para quem entregar as armas, mas exclui o movimento de qualquer papel político futuro em Gaza. Não é difícil antecipar o resultado. Para um ator armado com apoio social e capacidade militar, a escolha apresentada não é integração, mas rendição. E quando a única alternativa à rendição é a irrelevância, a violência torna-se um instrumento racional de sobrevivência política.
Se a desmilitarização falhar, o plano aponta para uma lógica de contenção territorial e eliminação seletiva dos resistentes, com forças internacionais e Israel a operarem apenas em zonas consideradas “livres de terror”. Não se trata de uma estratégia de paz, mas da institucionalização de um conflito de baixa intensidade, permanente e administrável, desde que longe dos holofotes.
A resposta humanitária sofre do mesmo vício de origem. Relatórios da UNRWA descrevem uma devastação quase total: hospitais inoperacionais, redes básicas destruídas, populações deslocadas. Falar em recuperação rápida neste contexto é mais um exercício retórico do que um plano exequível. Reconstruir sociedades devastadas pela guerra leva décadas, não meses. Prometer o contrário é criar expectativas que inevitavelmente acabarão em frustração.
O plano aposta ainda na desradicalização através de um “choque de prosperidade”, assente em zonas económicas especiais e diálogo inter-religioso. O problema não está na ideia, mas no tempo. Os benefícios económicos são lentos; a violência é imediata. Neste desfasamento, a promessa de um futuro melhor dificilmente compete com a insegurança do presente.
Embora garanta que Israel não anexará Gaza, o plano é notavelmente vago quanto à política de colonatos na Cisjordânia. Esta omissão reforça a perceção palestiniana de que se exige concessões máximas a um lado, enquanto se preserva margem de manobra política ao outro. Ao mesmo tempo, a iniciativa depende fortemente de parceiros do Golfo, motivados sobretudo pela contenção do Irão, mais do que por uma solução justa para a questão palestiniana.
No final, o plano de Trump parece menos um caminho para a paz e mais uma tentativa de gerir o conflito através do dinheiro, da força e da exclusão política. Construir a paz sobre um cessar-fogo que já conta centenas de mortos é como tentar instalar um sistema operativo de última geração num computador cujo hardware está em chamas. Pode parecer moderno e ambicioso, mas dificilmente chegará a arrancar.
Pós-graduada em Intelligence pelo ICSP- Universidade de Lisboa
Mestre em Governace, Leadership and Democracy Studies pela Universidade Católica
Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica