domingo, 18 jan. 2026

Livros. O que mais gostámos de ler em 2025

Numa época que parece doente de si mesma, sintomaticamente as listas de itens culturais prescindem de qualquer balanço sobre o que caracteriza o momento que estamos a viver. Eis a nossa tentativa de destacar livros que, mais do que um balanço, parecem estar contra 2025
Livros. O que mais gostámos de ler em 2025

Estranhamente, os costumeiros balanços dos artefactos publicados num determinado ano – seja livros, discos, filmes, programas de TV, etc. – continuam a dispensar-se de um enquadramento, ou mesmo apenas uma mera ligação ressoante, com um balanço genérico do respetivo ano. No geral trata-se de objetos que deram à costa em 2025 como poderiam perfeitamente ter aparecido em 2015 ou em 2035. A periodização torna-se assim numa espécie de espaço em branco, de forma fetiche para ajuste ao padrão mediático de um eterno presente autorreferencial. Os objetos, mas também o modo como são agregados e descritos, parecem valer por si mesmos, desligados do tempo e do espaço, mobilizados por um gesto, tão próprio do setor da cultura, de afirmação de uma valência especializada: os «melhores livros de 2025» são-no na medida em que nos mostram «os melhores escritores de 2025», e não necessariamente os que nos dizem alguma coisa de 2025. E é por isso que, nas listas do que «fica de 2025», que ao longo de semanas preenchem o mês de Dezembro um pouco por todo o lado, é frequente encontrarmos excelentes escritores, muitas vezes acumulando pontos pela quantidade de listas em que são incluídos, mas mais raramente uma afinação com o eco de um tempo que cada vez mais se configura, para resgatar um célebre termo de Antonio Gramsci, como o tempo dos monstros: genocídio e guerra, precariedade existencial, recomposição dos mitos face à erosão acelerada da grande promessa civilizacional.

Talvez possamos, então, experimentar um outro caminho. Em vez de elencar o que «fica de 2025», arregimentar o que «se opõe a 2025», um conjunto a partir do qual seja imaginável uma «linha de fuga», termo a que se recorre não no sentido da deserção ou do escapismo, mas a partir da formulação de Deleuze e Guattari da abertura de um espaço onde se produza uma interrupção, um desvio, uma deslocação estratégica para uma posição irredutível à contingência da cronologia. Compor, em suma, um regimento contra 2025.

‘Os Subcomuns: Planeamento Fugitivo e Estudo Negro’
Stefano Harney e Fred Moten
Maio Maio Edições e Livraria Snob, trad. Nuno Cerqueira

A partir de onde e de que concepção do poder dominante se produz a resistência é certamente uma questão de que sempre se tem ocupado a crítica radical. Stefano Harney e Fred Moten, neste conjunto de ensaios, invertem o ponto de partida: a resistência existe e produz-se previamente ao poder dominante. Partindo da experiência histórica da negritude, o poder dominante – europeu, colonial e capitalista –, a branquitude, constitui-se por referência e em oposição à resistência que lhe pré-existe como ser e como método. Não um ser essencial, mas um ser material em movimento, em relação, um convite a ser e estar-com; não um método fixo, mas uma forma indisciplinada, incaptável, de habitar um espaço cuja força está na invisibilidade, no «arredor», para usar a expressão feliz que p. feijó desenvolve num dos excelentes textos de abertura do volume. Os subcomuns são uma potência contra o tempo, uma força da sabotagem. Por exemplo, na universidade: «Face a estas condições, resta-nos entrar à socapa na universidade e roubar tanto quanto pudermos. Abusar da sua hospitalidade, sabotar a sua missão, juntarmo-nos à sua colónia de refugiados, ao seu acampamento cigano, estar nela sem lhe pertencer.» FR

‘Feminismo Bastardo’
María Galindo

Barricada de Livros, trad. Fabiana Navia Miranda, Iyari Martínez,  Laura Rozas e Mário Rui Pinto,  prólogo Paul B. Preciado

Composto por mais de trinta ensaios, o volume dá conta de outros tantos anos de luta e organização traduzidos pela lente radical de María Galindo, militante feminista e anarquista e figura decisiva do colectivo boliviano Mujeres Creando, fundado em 1992. É justamente a partir dessa experiência militante que este conjunto de textos se mobiliza contra as formas institucionais, identitárias e domesticadas dos feminismos contemporâneos, opondo-lhes um outro de natureza bastarda, porque erguido da impureza, do conflito e atravessado pelo embate quotidiano contra o patriarcado, o neoliberalismo, o racismo e a colonialidade. Bastardo também no arsenal de uma escrita posta ao serviço dessa mesma guerra: «Escrevo para incendiar. Escrevo como quem grita, como quem bloqueia o caminho com pedras, como quem rompe um colete de forças, como quem escreve o seu epitáfio, como quem escreve um telegrama urgente com uma notícia inesperada. Escrevo ao ritmo de quem bombeia com oxigénio um pulmão à beira da asfixia.» FR

‘Diário de um Regresso ao País Natal’
Aimé Césaire
VS Editor, trad. Diogo Paiva, prefácio André Breton

Um longo poema escrito no período entre guerras, a partir do interior do regime colonial francês, quando o humanismo civilizado europeu era, mais flagrantemente, o outro nome da mais grotesca violência colonial. Poeta e militante, Césaire mobiliza o conceito de negritude como resistência ao colonialismo, mas também como superação das formas literárias europeias. A influência do surrealismo — menos como corrente do que como prática de libertação da linguagem — fornece-lhe as ferramentas para uma escrita em convulsão, em que o poeta se dissolve numa narrativa colectiva da insurgência. Encontramos neste poema, como em poucos outros, uma desconstrução radical da língua francesa, abastardando-a e voltando-a contra si própria enquanto instrumento da dominação colonial. Vale a pena sublinhar, a este respeito, a excelência da tradução de Diogo Paiva. Não apenas pela sua competência formal, mas sobretudo porque a contemporaneidade radical deste texto torna decisiva uma inteligibilidade que não se extinga no contexto particular do universo colonial francês dos anos 1930. FR

‘O PREC e o Relógio das Revoluções. A Revolução de Abril e seus antecedentes: Comuna de Paris, sovietes russos, conselhos alemães’
Aldo Casas e António Louçã
Edições Parsifal

Desembaraçando-se de uma concepção linear do tempo histórico, Aldo Casas e António Louçã fazem um exercício de ligação entre quatro processos revolucionários distintos – Comuna de Paris, Revolução Russa, Revolução Alemã e PREC – através de um critério particular: o modo como a narrativa sobre cada um desses processos é moldada pelo processo seguinte. Se, por um lado, este modo narrativo possibilita voltar a olhar para a ideia de revolução como um processo que atravessa tempos históricos diversos, com a avanços e refluxos, balanços e saltos, o que significa que, enquanto possibilidade de explosão, a história nunca está fechada, recusa, por outro, a cedência quer à nostalgia quer ao derrotismo. Trata-se ao mesmo tempo, pelo grau de detalhe com que se aproxima daqueles quatro processos revolucionários, de um instrumento de grande utilidade para quem se interesse pela história das revoluções. FR

‘O Prato do Diabo. Um dicionário pachecal’
Luiz Pacheco
Língua Morta, selecção e organização João Pedro George

Quer como gesto editorial quer como objecto literário, pode-se dizer que O Prato do Diabo é um livro à Pacheco. Se, por um lado, a sua publicação compreende a urgência de tornar disponível no espaço editorial a radicalidade crítica dos textos de Luiz Pacheco e os traz, sem pedir licença, ao nosso convívio, o seu formato, por outro, sabota o perfil de classificação a que os livros sempre são sujeitos pelo aparato mediático e comercial do meio literário. Organizado na forma de um dicionário – que talvez não estranhasse se fosse antes designado como um glossário ou um compêndio –, o volume ajuda-nos a navegar pela escrita de Luiz Pacheco a partir da identificação de um conjunto vasto de termos-chave, em torno dos quais uma generosa selecção de excertos é disposta. A selecção não distingue nem arruma géneros, e deparamo-nos com fragmentos de diários, artigos, textos de ficção, cartas, muitos textos inclassificáveis, numa violenta corrosão de todas as normas. Ao assumir o exercício da crítica sem mas, Pacheco corporiza a velha premissa de Maiakovski da escrita pronta a pregar «uma bofetada no gosto do público», mostrando que o que permanece é o que não encaixa. E em 2025, Luiz Pacheco permanece desencaixado. FR

‘Vida de Graça. Duchamp e a necessidade da arte’
Tomás Maia
Documenta

São poucos aqueles que vão tentando pensar o fenómeno da arte, sem ser em textos de ocasião e contra as pequenas modas com que o mundo artístico, com a sua arte ingenuamente engajada, estridente, tagarela e cheia de crédito, vai divertindo curadores e académicos. Tomás Maia, e mais umas três ou quatro pessoas no país inteiro, vão traçando uma outra cartografia, mais secreta, mais tacteante, mais inclemente na sua recusa do muito que é feito no mundo artístico. Vida de Graça não é um livro sobre Duchamp, como Tomás Maia começa por afirmar, mas sobre a própria finalidade da arte, apesar de abrir a golpes de martelo o seu caminho por entre aquilo que foi sendo escrito sobre o artista francês. Abre o continente artístico a outra coisa que não ele próprio – a arte seria, neste sentido, a desmedida de uma obsessão única, secreta e inconfessável, e não o mercadejar de ideias feitas –, vagueia, algures, entre o pensamento, a filosofia e a teoria da arte, transporta aquela injustiça salutar que vem, tantas vezes, do radicalismo do pensamento. É, talvez, dos últimos pensadores cristãos, apesar de pensar a-teologicamente (pode parecer uma contradição, mas não é) – algo que é visível em toda a problemática convocada pelo termo “sagrado”. JOD

‘Passageiros’
Miguel Cardoso
Edições Cutelo

Aos poucos e sem grande alarido, a Cutelo vai construindo um catálogo bastante interessante – fruto de uma extrema atenção e de um trabalho oficinal digno de nota. Este é um dos últimos títulos desta editora e dos melhores livros de poesia que se publicou por cá durante o ano. É um livro que assume uma espécie de tom menor, de uma poesia que mergulha na cidade como se esta fosse, no limite, o único lugar onde ela consegue respirar. O primeiro poema começa logo por dar o tom: «Não sabendo eu frases para desertar do tempo/ nem por sombras a métrica irregular da redenção». A dupla ignomínia da intemporalidade e da redenção dão lugar a uma dialéctica entre, por um lado, um quotidiano repetitivo (que já vem na própria epígrafe de Walter Benjamin: «é o quotidiano, tão pesado como o globo terrestre») e, por outro, pequenas e fracas iluminações – profanas – que transformam cada verso numa sonda enviada à lei férrea do tempo. É certo que se percebe, aqui e ali, de onde nos chega esta poesia, quais as suas dívidas. Em todo o caso, há neste livro de Miguel Cardoso aspectos que convém colocar em destaque: a importância da datação, uma certa ideia de anonimato, uma dimensão política que não é nada evidente e, igualmente, a posição excêntrica, descentrada e problemática do próprio sujeito desta poesia. JOD

De 'Passageiros', de Miguel Cardoso, ficamos sem saber se se trata de um diário escrito em forma de poema ou de um poema que nos mostra um confronto com o peso dos dias – ou, no dizer de Walter Benjamin, convocado para a epígrafe do livro, com o peso do mundo em cima da nuca dos «epígonos de Atlantes» que, «contudo… não é o mundo: é o quotidiano, tão pesado como o globo terrestre». Para todos os efeitos, a sua forma mais imediata é a de um diário escrito durante uma estadia em Berlim em Outubro de Novembro de 2019. A escrita, quase sempre em verso, acompanha uma movida espectral de figuras e objectos, tanto em convívio directo com o poeta, também ele sempre em movimento entre espaços e tempos, quanto nas imagens múltiplas de recortes de postais que acompanham o texto. A temporalidade é torcida e torcível: «A ordem dos acontecimentos é decisiva// porém reversível.» A geografia é Berlim, mas uma Berlim sem mapa, sem território, uma Berlim que é muito mais o quotidiano do que o mundo. Esta espécie de comunidade de espectros que, com uma destreza de relojoeiro no arranjo das palavras, Miguel Cardoso compõe, e à qual de certa maneira se entrega, dá-nos a medida poética da linha de fuga: mundos em movimento contra o quotidiano, vagar de fantasmas contra a urgência produtiva, a poesia contra 2025. FR

‘O Tempo e o Sagrado. Deuses do deserto e deuses da floresta
António Vieira
Companhia das Ilhas

António Vieira é dos mais excêntricos e originais pensadores portugueses. Com uma amplitude de interesses que vão da filosofia à antropologia, passando pela história e pela literatura, os ensaios e os livros que vai escrevendo vão espelhando essa dispersão de onde resulta, no entanto, uma tonalidade e um conjunto de problemas bastante próprios e singulares.O Tempo e o Sagrado tem uma inspiração nietzschiana. Da mesma forma que O Nascimento da Tragédia é o teatro de duas forças que se opõem em tudo, o mais recente ensaio de António Vieira coloca em confronto dois tipos diferentes de divindades. Os deuses do deserto são severos, fortemente hierárquicos, escatológicos e messiânicas (criações do deserto que as viu nascer). Os deuses da floresta, pelo contrário, abrem para um tempo fluído, sem fim nem finalidade. António Vieira afirma que não pretende «exaltar nenhuma entidade ou crença». Quem leia este livro, no entanto, e quem leia, por exemplo, O Oráculo, peça de teatro sobre Juliano, o Apóstata, facilmente percebe que António Vieira é um estranho e intempestivo panteísta. JOD

‘Criador de Estrelas e Últimos e Primeiros Homens’
Olaf Stapledon
VS Editor

A ficção científica ganha, muito provavelmente, o campeonato da categoria mais menosprezada pelas editoras. À excepção de um ou outro título, é muito raro encontrar o que quer que seja de ficção científica nas estantes das livrarias. Há certamente nomes que conseguem escapar a essa lógica de mercado que faz com que os cultores de ficção científica se assemelhem a uma bizarra franco-maçonaria sem rituais que percorre os alfarrabistas: Philip K. Dick, Ursula K. Le Guin ou J.G. Ballard são dos poucos nomes que escapam à lei férrea do esquecimento. É por isso de saudar a edição de um autor que, ao que parece, nunca tinha sido traduzido em Portugal: Olaf Stapledon. Nasceu em finais do século XIX, vindo a morrer na década de cinquenta do século XX, e tanto Criador de Estrelas como Últimos e Primeiros Homens (o segundo é uma espécie de continuação do primeiro) são dois dos seus títulos mais conhecidos. Em Stapeldon a ficção científica, tantas vezes inspirando-se na investigação actual (diga-se que os avanços na astronomia e na astrofísica são muito mais estimulantes que a pesquisa noutros domínios), serve como laboratório para interrogar outras coisas. Nestes dois livros, é aquele universo infinito que tanto apavorava Pascal que surge em toda a clareza. JOD

‘Desvio de Memória. Anotações sobre a destruição dos judeus europeus’
Pedro Paixão
Glaciar

Um monumento com mais de 800 páginas sobre a Solução Final (o termo holocausto remete para um contexto religioso, mas nada do que aconteceu nos campos pode ser encarado como um sacrifício), uma peça de acusação contra todos aqueles que “desviam a memória”, e não só, mas também, contra a Igreja Católica. Com uma introdução com mais de 100 páginas, Desvio de Memória é impossível de resumir, convocando tudo, desde os textos fundamentais aos filósofos que mais a fundo pensaram o que aconteceu nos campos de concentração. É para ser lido, consultado, meditado (o que diz sobre a língua sagrada, logo ao início, sobre a sua diferença para com as nossas línguas, é particularmente interessante). É uma longa viagem sobre a destruição dos judeus europeus (poderemos lembrar um outro monumento, o livro de Raul Hilbert The Destruction of the European Jews, ainda sem tradução portuguesa). O desvio da memória pode ser resumido no episódio que Pedro Paixão conta na introdução: ao chegar a Auschwitz, a história que nos é narrada é a do padre católico Kolbe (incrivelmente, na história contada não há nenhum judeu), canonizado por João Paulo II e antissemita. JOD

‘Desejar Desobedecer’
Georges Didi-Huberman
KKYM + P.OR.K.

Um manual, talvez seja mesmo «o manual», num concurso de paixões, entre o arrebatamento que implica sofrer com o seu tempo, atrair a si a consciência profunda da desvastação que colheu a nossa realidade, e aquela paixão de agir contra. Neste tão vasto e ambicioso ensaio antropológico, Huberman detém-se sobre os levantamentos, rebeliões, sedições, insurgências, os atos e gestos de resistência que vêm ocorrendo desde as vespéras da Revolução Francesa, e traz-nos uma série de contemplações perfumadas pelo imaginário destas, construindo uma poética em torno do tema. Oferece-nos deste modo um mosaico incandescente dos tantos sinais e formas de mobilização que desafiaram as formas contemporâneas e históricas de poder. Mas este ambicioso panorama não se atém apenas a mapear os exemplos animados daquele «estrépito de Antígona», e está comprometido ainda com a discussão de muitas das teses e intuições de pensadores radicais cuja obra nos incita a «libertar a política da tirania da história a fim de a devolver ao acontecimento». Uma obra ígnea, que, contra os conformismos diante dos quais corremos o risco de sacrificarmos os nossos desejos, procura ajudar-nos a desarrumar as verdades amargas do mundo que reina em torno e sobre nós. DVP

‘Procura Nada’
Eduardo Brito
Edições Cutelo

Num momento em que o romance se tornou mais um género de gestão, organizando o mundo em funções binárias, encerrando-o em conflitos e peripécias legíveis, banais, de tal modo que este nos é devolvido em fórmulas, exaurido, pronto a ser consumido, Eduardo Brito consegue deslocar o eixo a partir do qual lemos, trabalhando subterraneamente contra a lógica da ficção produtiva, eficaz, satisfeita consigo mesma. Esta escrita faz-se de obstáculos, obsessões, particularidades; não avança, deriva. Move-se num tempo oblíquo em que cada partida contém um recomeço e cada chegada uma forma de morte rumorosa. O narrador instala-se aí, nesse intervalo, e a partir dele convoca figuras que falharam, desapareceram ou recusaram regressar à civilização: exploradores do Árctico engolidos pelo gelo, um astronauta suspenso fora do mundo, navegadores que viraram costas à vida que tinham antes. Não há heroísmo nem épica, o que temos são fantasmas. E é nessa fantasmagoria que o livro encontra a sua força, fazendo da memória não um arquivo estabilizado, mas um campo instável, contaminado por hipóteses, desvios, futuros já perdidos.DVP

‘O Relatório de Brodeck’
Philippe Claudel
Maldoror

O que é que Ray Bradbury dizia sobre aqueles que falam contra a literatura escapista? Não me lembro ao certo das palavras, mas sei que devolvia a suspeita ao remetente, notando que esses que atacam certos géneros literários como um todo, e pela sua vocação «escapista», se denunciavam, mostrando-se empenhados em que os outros não lhes pudessem escapar. Assim, não estavam a defender a realidade, mas o cativeiro. Este livro está a meio caminho, e de forma nada prudente, entre os horrores do terrível século XX, os campos de concentração, os ecos de toda a devastação que engoliu de vez o mito do progresso ocidental, e o desejo íntimo do sujeito de se livrar do pesadelo da história, regenerar-se, recuperar alguma medida, mesmo que limitada, de soberania, dos seus sonhos e desejos. Se não deixa de ser uma parábola sombria sobre a perseguição xenófoba que se reacendeu clamorosamente nos nossos dias, sendo o elemento essencial da dominação política, este romance procura reconhecer o que possa ser a dignidade daquele que sobreviveu ao impensável, as atrocidades que deveriam penetrar e corroer inteiramente essa dimensão de nós que se alheia, que se distrai e se defende encontrando um motivo inesperado que nos guie para fora daqui... DVP

‘Espantar a morte com ritos caseiros’
José Watanabe
Trad. de Luís Pedroso / Edições Cutelo

«Eu não tenho a resposta./Estou ocupado no esforço/ de manter a memória num ponto verdadeiro/ e cativante para poder voltar.» Se sabemos alguma coisa sobre a realidade que todos os dias nos confronta, é que esta parece uma versão tão precária quanto absurda entre outras. Seríamos isso, apenas um desaire, mas, e para nosso consolo, teríamos ainda a possibilidade de obter recurso face a este extravio segurando-nos à memória, e a fábulas, lendas, mitos, alegorias, parábolas. Com esta generosa antologia, é-nos dada a oportunidade de descobrir a obra de um dos mais influentes e peculiares poetas sul-americanos, desaparecido já em 2007. «Creio que ele integrava esse segredo noutro mais amplo/ para compor a beleza da sua ordem caseira/ que ligava a família/ aos usos e costumes desta terra.» Filho de imigrantes japoneses que se estabeleceram no norte do Peru, a confluência e diálogo ou hibridização de elementos da cultura popular local e das referências que lhe transmitiram os pais permeiam a sua obra. «O meu pai começou a traduzir-me os primeiros haikus quando eu tinha cerca de 12 anos […] Bashō descrevia o salto da rã no tanque antigo e eu não sabia que estava a falar da nossa condição: um ruído efémero de água a interromper um silêncio.» DVP

‘Um Punhado de Flechas’
María Gainza
Dom Quixote

María Gainza sabe aliar o conhecimento à imaginação verbal. É uma improvável arqueira, com duas aljavas: a realidade e a ficção, amalgamadas num livro que levanta uma interrogação que seta nenhuma pode desfazer: onde termina o fingimento da vida e começa a verdade da ficção? A História da Arte deu-lhe a formação sólida, a vida, espessura existencial, Francis Ford Coppola ofereceu-lhe o título deste livro, avesso à quadrícula apertada dos géneros literários, como sucedera já com O Nervo Ótico (2018). Esta argentina de Buenos Aires, até há pouco uma silenciosa desconhecida do mundo literário é, afinal, faladora e mete conversa com tudo – episódios da sua vida, bloqueios criativos, boatos, roubos, lances aventurosos – e com todos: colecionadores de arte, pintores, realizadores de cinema... Nós, leitores deste exercício superior da inteligência, movemo-nos, seduzidos, pelos itinerários da fruição que acerta em cheio numa ideia vital de Cultura. TC

‘Uma Vida Fora de Moda – Crónicas de um reaccionário minhoto’
António Sousa Homem
Porto Editora

Esta recolha de crónicas de humor subtilmente corrosivo seria, por si só, um tratado sobre o valor da redundância. O desfile das mesmas figuras, a repetição insaciada das mesmas temáticas, das mesmas maleitas, dos mesmos signos, significantes de um benigno cansaço, de uma saboreada cultura melancólica, obtém efeitos de reconversão semântica dificilmente encontráveis. Mérito do esquivo Dr. Sousa Homem, estacionado no seu ermitério de Moledo, a esgotar até ao fim o elixir da vida que se escoa. Já nasceu velho e enfarpelado – fato de três peças, caneta permanente na mão, nada enferrujada. O volume põe-nos a conviver com uma família que fez do «deixar-se estar» o seu modo de existência, numa espera sem relógio. Este clã familiar, que desfia as bazófias e as tristezas da família, nunca se compatibilizou com os novos tempos. Não são uma família de mortos-vivos. São uma espécie de vivos-mortos, igualmente maledicentes, encastoados entre pretéritos e a decadência presente, olhar posto no retrovisor, na meteorologia, inadaptados da modernidade, a assimilar as intempéries da História, personagens de um romance bem engendrado que retrata o Alto Minho e nos estende a crónica de um «país em -inho» a que às vezes chamam Pátria. TC

‘Se eu Quisesse, Enlouquecia. Biografia de Herberto Helder’
João Pedro George
Contraponto

O retrato falado de um dos mais importantes poetas do século XX, sobejamente conhecido, estava há muito fixado, com contributo maior do próprio: «guardava ostensivamente reserva quanto à sua vida pessoal: não se deixava fotografar, não participava em beberetes nem em lançamentos, não ia a jantares nem a encontros de escritores, recusava entrevistas, prémios e homenagens». Eis que à primeira biografia se estilhaça a imagem mítica do poeta. O biógrafo, que não presta serviços de culto nem de canonização, recusa-se a agitar o turíbulo mítico (que tantas baforadas tem produzido), trocado pelo escalpe, num rigor quase cirúrgico e invulgar poder incisivo - até ao limite da dor e da crueldade. O volume faz pensar num sepulcro que se fosse aprofundando, de molde a que nele caibam as imagens da vida que já não há, e as imagem das suas várias mortes. A investigação de João Pedro George é homérica, o trabalho é hercúleo, a lombada é grossa, o detalhe é minudente, mas mora longe daquele efeito de acúmulo que, juntamente com a linearidade simplista, aqui trocada pela reflectida arquitectura, nos fazem desapetecer certas biografias. O amor, aqui em demorada visita, tem muitas declinações. TC

‘A Chuva que Lança a Areia do Saara’
Ana Margarida de Carvalho
Companhia das Letras

Um habitado romance anatómico, enérgico, intenso, que permite ao leitor fixar-se no corpo em risco, em ferida (exposta ao ar para que infecte e frutifique), em exaustão, em queda. E tão apto a trepar a alturas épicas como a descer à rasa crueldade dos dias. Não há nele personagens menores, todas se nos prendem à retina, da mulher sem nariz ao escultor cego, das gémeas unidas pela ilharga ao harém de um homem escondido, espécie de deus grego, passando por Firmino, um Aquiles de nova espécie, tendão cortado – para sua provisória salvação.  E há até uma galinha com pretensões (e honras) de rainha, a Ernestina. E um infidelíssimo cão. São espantosas produções da imaginação que suspendem a nossa relação familiar com o mundo e nos mostram que nem só de muito alto se pode cair fundo. A destreza de prestidigitador da autora é capaz de transformar o lenço de secar lágrimas, que nunca nos estende, num pássaro em voo, certamente tirado da manga metafórica dos seus truques literários. TC

‘Portugal de Morte a Sul – um guia de últimas viagens’
Rafaela Ferraz
Quetzal

Insólito, deveras interessante, bem humorado este livro de estreia da investigadora independente licenciada em Criminologia e mestre em Medicina Legal. Misto de roteiro, ensaio, catálogo de imagens verbais, o volume, onde não pousa gralha (apenas ave de mau agoiro), começa a tecer a sua trama logo na portada, onde somos recebidos por um negríssimo corvo empoleirado numa sorridente caveira – tudo em fundo azul celeste. Lembramo-nos de José Rodrigues Miguéis e sorrimos-lhe com meia cara, para evitar implicâncias, animosidades, desejo de acerto de contas. Ainda não nos recompusemos, já Hieronymus Bosch está a juntar-se. Uma visita às traseiras confirma e alarga as primeiras impressões: o mundo dos vivos e o mundo dos mortos dispõem-se a conviver em regime de boa vizinhança. Aberta a porta ao tema da morte de um ângulo, por cá, ainda muito pouco explorado, a autora estende-nos a mão – afeita à escrita compósita, segura, fortemente alusiva – para que a acompanhemos numa viagem por cemitérios e igrejas, santuários e museus, locais públicos e semi-públicos, aproximando-nos assim dos que partem. TC

‘Guerra Nuclear: Um cenário’
Annie Jacobsen
D. Quixote

Temperaturas na ordem dos cem milhões de graus Celsius; autocarros lançados no ar como se fossem bolas de ténis; monumentos reduzidos a pó; objetos metálicos que simplesmente se evaporam; edifícios que se assemelham a «fornos gigantes»; uma contabilidade de milhões de mortos no imediato. E estamos apenas no começo. Passada a ‘chicotada’ inicial, ventos de centenas de quilómetros/ hora, incêndios generalizados e, a longo prazo, os demónios da radiação. No ano em que se assinalaram oito décadas sobre a destruição de Hiroxima e Nagasáqui, e num momento em que a ameaça nuclear volta a ganhar contornos de verosimilhança, a jornalista norte-americana Annie Jacobsen oferece-nos uma descrição detalhada, minuto a minuto, das consequências de uma guerra destes contornos no mundo atual. Cada uma das bombas termonucleares de hoje, lembra-nos a autora, tem uma potência próxima de «mil bombas de Hiroxima rebentadas ao mesmo tempo». E estima-se que existam no mundo 13 mil ogivas, mais do que o suficiente para mandar o planeta pelos ares. Baseada em entrevistas com altos responsáveis militares e documentos recentemente desclassificados, uma visão arrepiante do fim dos tempos e uma história de como se chegou a este absurdo. JCS