terça-feira, 10 fev. 2026

A (des)União Europeia

O espírito natalício espalhou-se pelo Conselho Europeu da passada quinta-feira: todos obtiveram grandes vitórias, passíveis de serem anunciadas, mesmo que às quatro da manhã do dia seguinte

António Costa, sempre lesto identificar as necessidades do eleitorado, tem conseguido cortar pela metade a duração dos Conselhos Europeus, ainda que à custa de uma ceia na noite anterior. Para evitar a completa humilhação da União Europeia desta vez não havia como deixar sair chefes de Estado e de Governo ao final da tarde do primeiro dia.

As dificuldades da UE têm agora na Ucrânia um espelho impiedoso. A manutenção da unanimidade nas decisões relativas à defesa e à política externa reduz a União a um anão político no plano internacional, não obstante o gigantismo do PIB, das exportações, do consumo e da inigualável capacidade regulatória, não só do grau de curvatura da banana, mas de matérias bem mais importantes, como a protecção de dados pessoais ou a inteligência artificial.

Pagar, sem recorrer à unanimidade, a guerra que os ucranianos fazem o favor de fazer por nós obriga a sucessivos golpes criativos. Nada como autonomizar as conclusões do Conselho Europeu relativas à Ucrânia, anunciando que as mesmas são “firmemente apoiadas” por 25 chefes de Estado e de Governo quando o colégio eleitoral tem, desde o Brexit, 27 Estados-membros.

As negociações na UE têm uma dimensão ferroviária: um comboio pode esconder outro, um Estado que objecta à tomada de uma decisão esconde quase sempre outros que só se manifestarão aquando da votação. Na tentativa de mobilizar os activos da Federação Russa para financiar a Ucrânia houve quem pensasse em esticar ainda mais a cláusula do artigo 122º do Tratado sobre o Funcionamento da UE e que permite, para fazer face a dificuldades económicas graves dos Estados-membros, decidir por maioria. A Bélgica, onde estão depositados 185 dos 210 mil milhões de euros de activos financeiros russos objectou, sensatamente, ao confisco. Teve o apoio expresso de Itália, Malta e Bulgária e implícito do trio de Estados mais próximos de Moscovo (Hungria, República Checa e Eslováquia). Contas feitas não haveria, nem em número de Estados, nem em percentagem de habitantes da UE, uma minoria de bloqueio. Mas atrás destes 7 Estados estaria certamente a França (em cujas instituições financeiras estarão depositados 25 mil milhões de euros de activos russos) e todos os Estados que não querem enterrar de vez os mercados financeiros europeus. Confiscar activos soberanos sem declaração de guerra promove a fuga e a UE precisa de capital estrangeiro. Para os mais distraídos basta recordar, à escala lusitana, o que significou para o sistema bancário a fuga dos capitais angolanos que deixaram Portugal em direcção às petromonarquias do Golfo e a Singapura, sítios onde só se fazem perguntas simpáticas.

Fazendo da necessidade virtude, a UE assumiu directamente o financiamento da defesa da Ucrânia por via de um empréstimo com base nas disponibilidades orçamentais. Caiu, pela segunda vez e sem ser por causa da pandemia, o dogma germano-austeritário da proibição de emissão de dívida. Para contornar a ausência de unanimidade, a decisão foi tomada com base no artigo 20º do Tratado da União, com recurso a uma cooperação reforçada que isenta HU, CZ e SK de pagarem a sua quota no empréstimo. O último golpe de imaginação passou pela escolha da base jurídica do que será o financiamento das actividades bélicas da Ucrânia: o artigo 212º do TFUE, dedicado à cooperação económica, financeira e técnica com países terceiros que não sejam países em desenvolvimento. Para quem não tinha percebido: financiar a guerra não é o mesmo do que fazer a guerra e, sobretudo, dispensa a unanimidade.