quinta-feira, 12 fev. 2026

O apagão do apagão 

Como é que, numa sociedade de informação como a nossa, não sabemos ainda por que razão a Península Ibérica ficou às escuras?

Há coisas que são ou impensáveis ou impossíveis – até ao dia em que acontecem. Não são bem ‘cisnes negros’, porque estas são coisas conhecidas, só não são é concebíveis.

Por exemplo, a pandemia de Covid-19: nunca na vida tal varridela planetária algum dia poderia acontecer… até que em 2020 correu pulmões pelo globo afora.

Antes, em 2008, jamais algum responsável em sistemas financeiros modernos, como o americano ou o europeu, alvitrava que grandes bancos poderiam falir – até que a hipersofisticação matemática provocou um descalabro em cascata.

A própria invasão da Ucrânia pela Rússia era uma ameaça no final de 2021, mas a convicção generalizada era de que, no final, Putín não se atreveria. Atreveu-se.

E, até este ano, jamais e em tempo algum poderíamos conceber que apagões elétricos, como os que se verificavam em alguns países da América do Sul, acontecessem na Península Ibérica. Até que, puf!, dois países ficaram desligados.

Em face destes exemplos, a pergunta a fazer é: o que é de que inesperado podemos esperar para 2026? A Rússia invadir um país dos bálticos? Trump suspender as eleições intercalares por conspiração de que ela será ‘roubada’? Conflito em Taiwan? E por cá, nova crise política depois das presidenciais? O mercado imobiliário continuará nesta loucura de subir a dois dígitos? A ‘bolha’ nas bolsas rebenta?

Estas conjeturas podem até ser um pouco ociosas, mas servem para relembrar quantas análises, prospetivas e intuição são ultrapassadas a alta velocidade pela sempre fascinante realidade.

Acontece que demasiadas vezes essa velocidade nos faz desprezar os acontecimentos que marcaram o nosso tempo. E um exemplo disso é exatamente o apagão peninsular deste ano. Sabemos que ele teve origem em Espanha. Sabemos que, em Portugal, e ao contrário no nosso fado habitual, a resposta foi muito profissional e foi muito mais rápida do que poderia ter sido. Mas não sabemos responder à pergunta fulcral: por que razão se deu o apagão?

Há uma resposta oficial, em Espanha, mas que na verdade confunde mais do que esclarece. Houve possivelmente uma obstrução dos caminhos da verdade, o que permite especular que as autoridades espanholas preferiram que não se soubesse tudo. Talvez porque isso criasse alarme nas populações. Talvez porque o conhecimento total das razões pudesse ser usado contra as políticas públicas na energia. Ou talvez porque revelasse falhas intoleráveis perante uma improbabilidade estatística que afinal se confirmou, num sistema elétrico sobrecarregado, aqui como noutros pontos da Europa.

É impressionante como, numa sociedade de informação como a nossa, tão inclemente e voraz, é possível manter ocultos alguns aspetos de fenómenos desta dimensão. Mas talvez também haja aqui uma aprendizagem: a de que velocidade do sistema de comunicação seja a sua própria perdição, porque tão depressa exige, se indigna e até julga, como depressa muda para a exigência, indignação e julgamento seguinte – deixando tudo o resto para trás, incluindo a memória.

Mais apagões haverá, dizem. Mas não esta semana, em que se acendeu o Natal. Boas festas! E até já, aqui por estas páginas. 

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