terça-feira, 10 fev. 2026

Impossível ao vivo. Elenco de luxo e novas ilusões

A nova edição do espetáculo criado há sete anos por Luís de Matos já estreou no Tivoli e promete continuar a deixar-nos de boca aberta e sorriso nos olhos. Passará depois pela Figueira da Foz e Porto
Impossível ao vivo. Elenco de luxo e novas ilusões

Todos os anos, por esta altura, o temos visto a brilhar no palco do Tivoli BBVA. Todos os anos cativa, inova, surpreende e dá a conhecer os melhores dos melhores. Não é novidade para ninguém que Luís de Matos – o mágico português mais premiado de sempre –, nos faz mergulhar num universo de mistério onde desafia os limites do possível, onde nos faz interrogar o que está a acontecer mesmo diante dos nossos olhos. E este ano não será diferente. Um novo elenco, novos truques, mas sempre a mesma magia. «É um sentimento de orgulho, ambição e humildade», diz o mágico à VERSA refletindo sobre a forma como o Impossível ao Vivo tem crescido ao longo dos anos. «Orgulho porque sei que este espetáculo é o resultado do trabalho árduo e apaixonado de uma série de pessoas. Eu dou cara, mas somos muito mais (...) Portanto, sim, temos de ter orgulho de um espetáculo que nasceu em Portugal, que dura há sete anos, que se reinventa todos os anos e que começou a fazer incursões estrangeiras muito importantes», continua. 

Elenco de luxo 

A edição deste ano conta, mais uma vez, com um elenco de excelência, que inclui artistas de quatro continentes. Do Canadá chega o inquietante Darcy Oake; da Bélgica o elegante Aaron Crow; de França o premiado Norbert Ferré e da Indonésia a assustadora e misteriosa Sacred Riana, vencedora do Asia’s Got Talent. «Uma das minhas maiores frustrações é reconhecer que a maior parte do público tem sobre a magia uma ideia muito estereotipada. Ou seja, quando se fala de magia as pessoas imediatamente associam um senhor vestido de casaco que faz aparecer lenços, que tira coelhos da cartola e essas coisas. E apesar de eu ter passado toda a minha vida a procurar destruir essa imagem, esse preconceito, trazendo centenas e centenas de grandes mágicos a Portugal, seja na televisão, seja em espetáculos ao vivo, seja em festivais em que estamos envolvidos na produção, eu acho que o Impossível [ao Vivo] tem a capacidade e até um bocadinho a obrigação de mostrar o que se faz melhor no mundo em cada momento», conta Luís de Matos. Ao mesmo tempo, este procura que sejam estilos tão diferentes que permitam às pessoas pensarem: «Se estes cinco são tão diferentes e são só cinco, então se calhar tudo o resto é igualmente diferente!». 

De acordo com Luís, Darcy Oake é de uma geração mais nova que tem imenso êxito. Atuou para reis, rainhas e presidentes. «Foi o último mágico a atuar para a Rainha de Inglaterra. Está muito na pop culture de hoje em dia, especialmente no Canadá, Coreia do Sul. Ele traz um bocadinho a grande ilusão num estilo mais jovem. Há um momento em que ele está de tronco nu e tem o corpo todo tatuado. Ou seja, há aqui uma estética visual forte também», descreve. 

Relativamente a Sacred Riana «ela é uma estrela na Indonésia, mas tornou-se mais popular no mundo através do American Got Talent, do British Got Talent, do Asian Got Talent… Ela traz esta abordagem à ilusão fazendo-a roçar à aparente verdade do lado mais oculto da nossa existência», detalha.

Já Aaron Crow é um amigo de longa data. «Aliás, nós começámos a trabalhar juntos há 22 anos. Ele personifica de facto o perigo, o não usar a comunicação verbal. Há um número que ele vai fazer com um casal, que aliás fecha o espetáculo, e que é particularmente emocionante. Eu gosto muito de tudo o que ele faz, é tudo muito bonito e muito intenso», admite.

Por fim, Norbert Ferré mistura duas coisas: «Primeiro ele é campeão do mundo de manipulação, portanto é um manipulador exímio, mas as suas referências são personagens como o Charlie Chaplin, portanto ele também é um clown. Tem um sentido de humor muito interessante, brinca com ele próprio e, no palco, nos vários momentos em que o pisa, consegue sempre esta dualidade entre as duas personagens. Há sempre este conflito entre eles que nós vemos num determinado momento, mas claramente separadas, quer pela estética, quer pela atitude corporal, quer pela linguagem», afirma.

Interrogado sobre a forma como se vê e caracteriza enquanto profissional, Luís lembra que «nunca quis ser escravo de um estilo ou de uma linguagem específica». «Aquilo que eu faço é o direto eco daquilo que me inspira, ou daquilo que me apetece, ou daquilo que eu estou a sentir em determinado momento», garante. Este ano, por exemplo, o mágico português terá um número com ursos de peluche, outro momento em que as pessoas utilizam os seus telemóveis para transmitir em direto para o resto da sala e poderem controlar tudo o que está a acontecer no palco, um número só com moedas e música, uma vez mais um número mais perigoso em que se deita numa cama com quarenta espigões a arder. «Eu não sei o que é que vou fazer para o ano, é durante o ano que eu vou sentindo esses apelos. Eu não fico escravo do que já fiz, procuro fazer bem melhor a seguir e sobretudo o que me apetecer», frisa.  

A mais antiga das artes 

O mágico lembra ainda que, não sendo algo que possa concorrer com outro tipo de entretenimento mainstream, como a música, a dança, o teatro ou a ficção, «o que é certo é que há uma endurance muito grande nesta área que faz com que ela seja a mais antiga das artes». «A magia acontece há cinco mil anos. O registo do primeiro espetáculo – assumidamente espetáculo formal, com público e artista –, não foi de teatro ou dança. Foi de magia e é de 2500 a.C. Está no papiro do Westcar, no Museu Egípcio, na Alemanha. Isso significa que a capacidade de reinvenção e de resistência da magia vai chegar aos 5 mil anos», diz com um brilho no olhar. E sabe porquê… «Porque aquilo que os mágicos fazem é mais ou menos insubstituível e é reinventável a cada momento. Eles tentam em cada momento fazer aquilo que o momento determina que ainda é impossível. Ou seja, há coisas que se faziam há 500 ou 1000 anos que hoje as pessoas dizem: ‘Ah sim, está bem, ok’. Mas há coisas que hoje ainda não são possíveis e os mágicos fazem», explica.

Por outro lado, segundo o mesmo, a enorme efervescência de evolução tecnológica, da inteligência artificial, «faz com que as pessoas cada vez mais considerem este como um último reduto onde podem ver de verdade o que acontece de mentira». «Mas é de verdade! Ou seja, está ali. É feito por um humano igual a nós. Não é uma máquina. Não é uma coisa que foi gerada por IA. O facto de existir uma tendência de desumanização imensamente grande torna esta experiência mais valiosa. Não se sabe quão bonito ou quão bem vai acabar. E é quase uma ode à imaginação e à nossa condição humana em tudo o que tem de forte e de frágil. Por isso eu acredito que, para o ano, se calhar estamos cá», remata.