Sábado, 13 de Dezembro
Vítor Gonçalves regressa aos debates e recebe André Ventura e António Filipe na RTP. Tal como Clara de Sousa na SIC dias antes, o moderador agarrou a contradição do Chega relativa à greve geral. “Como é que em tão pouco tempo o senhor mudou de opinião?”. Ventura: “Foi o contrário” e mostrou mais um papel, parecia a rábula do papel dos Gato Fedorento, qual papel, o papel, qual papel, o papel.
O papel do Ventura era uma notícia do Verão passado do Expresso, em que o Chega exigia recuo às leis laborais: “Isto foi em Agosto, quando todos os meus adversários estavam a dormir, e eu estava a fazer ataque à lei laboral do governo”.
O moderador perguntou a António Filipe: vê em Ventura um defensor dos trabalhadores? “Não. Ventura defende a precariedade. O facto de ter mudado de discurso só revela o sucesso da greve geral. É mudança de discurso mas não de posição. Quando chegar à Assembleia, será a prova do algodão”.
Ventura responde com mais um conjunto de frivolidades, e levanta os braços de indignação, ao ponto de se intrometer no enquadramento do seu adversário. Na generalidade, foi dos debates mais frouxos de Ventura, e isso contagiou até António Filipe.
Quando o candidato comunista refere que o Chega está do lado dos grande interesses económicos e do “consenso neoliberal”, Ventura esboça uma reação, depois hesita, e depois ri-se, ri-se com o mesmo desdém e presunção que os candidatos de esquerda, Catarina Martins e Jorge Pinto, se riram de Ventura noutros debates. António Filipe perdeu uma boa oportunidade de replicar também a vitimização de Ventura nos anteriores casos, “está-se a rir de quê?”, é caso para chorar.
António Filipe: “Ventura só é candidato porque Passos Coelho não quis ser candidato. Quem está contra o sistema sou eu, não Ventura”.
André Ventura: “Fidel Castro, Coreia do Norte, China, Estaline, ditadores, whiskas saquetas”.
Filipe: “O Ventura está sempre a falar da conversa da treta, mas não há conversa mais da treta que a sua, já estava à espera que viesse para aí com esses países todos”.
Intervenção de Vítor Gonçalves nesta altura do debate? Zero. Mas quase que o vimos sorrir para Ventura. O moderador perguntou ao comunista se Chega é uma ameaça à democracia, António Filipe respondeu que sim: “Ventura diz que quer uma nova constituição”. Ventura aproveitou então para desanuviar a discórdia, sugerindo que na segunda volta Filipe votasse nele. “Não me estrague a noite”, respondeu Filipe, e foi a galhofa geral em estúdio, ah ah ah.
O debate foi uma decepção, para não dizer uma oportunidade perdida. No final ainda se discutiu a segurança interna. “Tendo em conta que Portugal é um dos países mais seguros do mundo, por que razão quer tornar Portugal um Estado policial?”. Ventura: “Eu prefiro bandido morto a polícia morto”. António Filipe: “O facto de queremos polícias vivos não significa que tenhamos de matar. Isso do presidente dar poderes excepcionais deve ser lá numa república das bananas, ou em El Salvador”. Filipe replicou a acusação whiskas saquetas de Ventura. E o candidato do Chega aproveitou a benesse: “O El Salvador tornou-se o país mais seguro do mundo, mais seguro que a Suíça!”. António Filipe finalizou em alta, citando Benjamin Franklin: “Não há liberdade sem segurança, nem segurança sem liberdade quem quiser desistir de uma em favor da outra não merece nenhuma”. Mas nada que impressionasse o espectador.
Segunda-feira, 15 de dezembro
Novamente na RTP, Carlos Daniel recebe André Ventura, sim, outra vez Ventura, desta vez num debate com Henrique Gouveia e Melo. O “debate mais aguardado”, sinaliza o moderador, que inicia com a sondagem do dia, liderada pelo Chega. O moderador pretende saber se Ventura já está a preparar uma viragem mais moderada para a segunda volta das presidenciais. Ventura diz que vai dar murro na mesa neste país e é ao Presidente que o compete fazer. “Mas na segunda volta todos se vão unir contra mim”.
Carlos Daniel vira-se para Gouveia e Melo: “Quanto mais os portugueses o conhecem, menos estão motivados para votar em si?”. O candidato independente nega: “Nada disso! A única sondagem que valorizo é o resultado das eleições. O meu partido é Portugal”. O Almirante aproveita as dúvidas sobre a sua ideologia citando a entrevista do Ricardo Araújo Pereira, onde se sugeriu que Gouveia e Melo marchasse com perna direita e esquerda, o país tem de ir com as duas pernas.
Aos dez minutos, Carlos Daniel lança a questão que o país aguardava, afinal o que discutiram André Ventura e Gouveia Melo no almoço que tiveram? O Almirante antecipou-se: “Quem quer ser presidente deve querer conhecer todos os actores políticos, e Ventura não é um indivíduo com o qual seja perigoso estar. Foi um encontro protocolar”. Ventura também aderiu ao jogo: “Já me encontrei com outros candidatos, por exemplo, tomei café com Marques Mendes no Conselho de Estado”. Este debate também foi um encontro protocolar ao qual só faltou o café, ou talvez o Marques Mendes. Nem Ventura teve de levantar muito a voz, nem Gouveia e Melo precisou de se esforçar muito para contestar o adversário, confesso que nunca o tinha visto a sorrir tanto.
A dado momento no debate, Ventura estava com mais 3 minutos de tempo útil do que o seu oponente. E, mesmo assim, queixava-se, “também nunca me deixam dizer nada”. Tendo em conta que Ventura é mais rápido a sintetizar ideias e que Gouveia e Melo é mais lento a exprimir-se, é fácil de imaginar a vantagem real que 3 minutos de tempo útil na verdade significam, é como se Ventura já estivesse chegado ao dia de eleições em Janeiro próximo e Gouveia e Melo ainda está a liderar uma taskforce de vacinas na pandemia.
Terça-feira, 17 de Dezembro
Vítor Gonçalves recebe António José Seguro e João Cotrim Figueiredo na RTP, o tal debate adiado pelos problemas de saúde de Seguro.
Cotrim começou a elogiar a integridade e transparência de Seguro, caso raro nestes debates. No entanto, logo a seguir, disse que isso não chegava para o cargo a que se propunha, Cotrim não acha que Seguro seja “inspirador” ou “abrangente”. Seguro ficou tão abananado com o flic flac à retaguarda de Cotrim que pensou logo em pedir nova baixa. No entanto, a vaidade de Cotrim comprometeu-o, porque começou rapidamente a elogiar-se, dando a entender para as pessoas lá em casa que ele, por momentos, ainda se estava a referir a Seguro.
Seguro agradeceu a gentileza pelo adiamento do debate, e começou por negar qualquer contacto informal ou café com Ventura, como Ventura terá insinuado no debate da noite anterior. Depois, em tom de luva branca e abrangência, comunicou a Cotrim que tem como apoiante seu um antigo vereador de Rui Moreira da Iniciativa Liberal. Cotrim tentou responder à altura, mas falhou.
O tom subiu quando se discutiu a lei laboral. Seguro: “Se esta lei laboral chegasse a si tal como está, o senhor promulgaria”. Cotrim não o negou, mas queixou-se, com razão, de Seguro já estar com dois minutos de tempo útil a mais. Mas, quando a oportunidade de ripostar surgiu, Cotrim perdeu-a, permitindo a Seguro introduzir a proposta de um pacto para a saúde. “Qual proposta?”, respondeu Cotrim. “Ah, já sei, eu li”. Seguro: “Não leu porque eu só o entreguei ao candidato com quem eu debati na altura”. Cotrim ficou sem chão, foi apanhado a mentir, e demorou a recuperar. Quando Vítor Gonçalves permitiu que Cotrim respondesse, já o liberal ia com quase 3 minutos de tempo de debate útil a menos e uns cabelos brancos a mais.
Seguro só hesitou quando disse “volto a reafirmar” em vez de “volto a afirmar”, e não sabia se haveria de dizer “frestas” ou “brechas” e escolheu dizer “brestas”. De resto, a noite foi sua. A estocada final deu-se quando Vítor Gonçalves pediu a Cotrim que comentasse o chumbo da lei da nacionalidade, esta semana. Cotrim concedeu que pelo menos uma das normas da lei merecia uma discussão por parte do Parlamento, “espero que a Assembleia da República não insista em manter a redação [original da lei]”.
Quando a bola foi parar a Seguro, o socialista não perdoou: “Estou estupefacto ao ouvir Cotrim, porque ele tinha dito na Golegã que iria promulgar esta lei. Afinal, promulgava a lei da nacionalidade ou discutia-a?”. Cotrim é que ficou estupefacto, sem qualquer reação, contei pelo menos oito longos segundos em que ele demorou a responder: “Promulgava esta lei”, confessou Cotrim. “Estou esclarecido”, concluiu Seguro.
Foi um dos debates mais animados e esclarecedores das últimas cinco semanas.