Vinte e oito debates depois, ficou claro que a pré-campanha foi menos sobre intenções e mais sobre desempenho. André Ventura dominou o espaço mediático e explorou fragilidades alheias, mas continua preso a um teto eleitoral. Luís Marques Mendes foi, em média, o melhor no palco dos debates, mas claudicou no último. Henrique Gouveia e Melo chegou envolto numa imagem de autoridade e eficácia, mostrou dificuldade em adaptar-se à lógica política, mas acabou a surpreender o candidato mais experiente. João Cotrim de Figueiredo afirmou-se como alternativa racional e moderna para o eleitorado urbano e jovem. António José Seguro confirmou-se como o candidato da previsibilidade sólida, ou aborrecida.
André Ventura
Positivo
André Ventura entrou na pré-campanha presidencial com uma vantagem sobre os outros candidatos: era o único líder partidário com um eleitorado fiel, mobilizado e ideologicamente alinhado. Não precisou de se dar a conhecer, nem de explicar quem é ou ao que vem. O seu discurso era reconhecível, repetível e eficaz junto do eleitorado do Chega. Mostrou também grande disciplina estratégica. Escolheu cuidadosamente os momentos de confronto, explorou os debates como palco privilegiado para marcar agenda e evidenciou uma preparação táctil superior à de vários adversários. Foi consistente no ataque ao sistema político, soube provocar erros nos adversários e capitalizou cada deslize alheio com rapidez e clareza narrativa.
Ventura transformou fragilidades em afirmação identitária. As críticas ao radicalismo do discurso, ao isolamento político ou à inviabilidade governativa foram sistematicamente devolvidas como prova de que ‘incomoda o sistema’, reforçando a lógica de confronto que estruturou toda a sua candidatura. Mantendo a fórmula, conseguiu interpretar cada momento com mestria, preservando a lógica de confronto, mas procurando alargar a base eleitoral, muito provavelmente com a segunda volta em mente.
Negativo
O maior problema de Ventura na pré-campanha foi o seu próprio teto eleitoral. A fidelidade do seu eleitorado é o seu limite. O discurso polarizador, eficaz na mobilização da base, revelou-se pouco permeável a eleitorado moderado, centrista ou indeciso — decisivo numa eleição presidencial a duas voltas.
Demonstrou ainda dificuldade em transitar do papel de opositor para o de potencial Presidente da República. A insistência num registo de combate permanente, mesmo sem adversário direto, fragilizou a imagem de árbitro institucional exigida ao cargo. Faltou-lhe, em vários momentos, uma elevação discursiva capaz de sinalizar que podia representar o país na sua totalidade e não apenas uma parte dele.
A previsibilidade tornou-se outro risco. A repetição de temas, fórmulas e antagonismos — imigração, elites, corrupção, sistema — começou a perder impacto fora do núcleo duro do Chega. Outras questões polémicas, como a votação em Sócrates em 2005, os cartazes discriminatórios contra ciganos ou a onda de pedofilia que afeta o partido, não matam, mas devoram a bravata do candidato presidencial e líder partidário. Na pré-campanha, Ventura confirmou força política, mas deixou dúvidas sobre a capacidade de alargamento eleitoral.
Marques Mendes
Positivo
«O cargo de Presidente da República é um cargo eminentemente político. Não há presidência sem política. Por isso, o meu passado político e cívico, que assumo com orgulho, pode ajudar a servir o país», disse Luís Marques Mendes em obra biográfica. E esse passado de 40 anos é feito de 22 na política ativa e 18 na advocacia (e negócios), incluindo 12 como comentador.
É o mais político dos candidatos e é também o mais competente a comunicar. A CNN fez a média das notas atribuídas aos candidatos durante os debates da pré-campanha e Mendes ganhou quase sem surpresa — mais surpreendente foi a forma como o comentador político soçobrou ao estratega militar Gouveia e Melo, no último debate. Seja como for, Mendes arranca para a campanha das presidenciais a 2 de janeiro à frente; é quem tem Belém mais ao alcance do voto, tendo em conta os cenários previsíveis. Mas não são favas contadas, porque há o que Mendes não conta.
Negativo
Pedro Santana Lopes relembrou esta semana que Marques Mendes abriu as portas aos anos no poder de António Costa com as suas opções, entre o justo e o moralista, quando foi líder do PSD, entre 2005 e 2007 — algo de que o candidato presidencial muito se orgulha e evoca inúmeras vezes, mas que criou visível acrimónia entre a elite política, particularmente no PSD. Aliás, Mendes consegue apenas 37,4% das intenções de voto dos eleitores da AD. Pior, agora olha-se ao espelho. O comentador político tem de confrontar com o candidato à Presidência da República e é visível o incómodo, e é previsível que os eleitores também não estejam a gostar do que veem.
«É um lobista e facilitador de negócios. Não é contra a lei, tem é de assumir isso: o que faz é abrir portas», ouviu Mendes de Gouveia de Melo, e ouviram todos os que assistiram ao debate entre os dois. E essa imagem pode, subrepticiamente, fazer o seu caminho e colocar o pé na porta de entrada do Palácio de Belém a Mendes. Do tempo de comentador ficou-lhe a mania de opinar sobre tudo, como na Lei da Nacionalidade, sobre a qual considerou que «não há razões para enviar esta lei ao Tribunal Constitucional». Houve. l
Gouveia e Melo
Positivo
Em dezembro de 2024, D. João II trocava ideias com o Almirante Henrique Gouveia e Melo, na Revista da Armada, e foram muitos os que ficaram confusos quando uma publicação da Marinha, dedicada aos «três anos de transformação» do mandato do Almirante, com editorial assinado pelo próprio — então putativo candidato presidencial — reproduziu uma ilustração vagamente pueril, em que Gouveia e Melo aparecia de braço dado com o ‘Príncipe Perfeito’ — Rei que reforçou a autoridade régia e negociou o Tratado de Tordesilhas — e que, dizia a publicação, se vivesse nesta época «não hesitaria em trocar ideias» com o Almirante. A revista foi considerada uma publicação de pré-campanha, também porque, em Novembro desse ano, Gouveia e Melo tinha comunicado ao Almirantado que estava indisponível para continuar na chefia da Armada.
O que queremos destacar é que a imagem de ‘Príncipe Perfeito’ surgia agarrada à pele do Almirante quando tinha a farda vestida e liderava as intenções de voto nas sondagens para as presidenciais — este foi o ponto de partida do candidato. A Revista da Armada, percebemos, entretanto, foi um bocado ficção e o Gouveia e Melo não resistiu ao choque de realidade entre a intenção e a ação política — uma realidade que lhe era estranha. Ainda assim, fechou o ciclo dos 28 debates presidenciais, tendo do outro lado o experimentado Marques Mendes, com uma vitória notável, em que atirou, quase de forma espontânea, que foi também por causa de políticos como Marques Mendes que se candidatou à Presidência da República.
Negativo
«Só há um artigo que eu acho que não podemos mudar na Constituição: o 288.º» — o que define os limites materiais da revisão constitucional e impede uma rutura com o sistema democrático — foi o maior erro cometido por Henrique Gouveia e Melo durante a pré-campanha. Aconteceu a 15 de Dezembro, durante o debate com André Ventura. Foi um momento inadvertido, que Ventura acarinhou com um sorriso. Gouveia e Melo ainda acrescentou: «Todos os outros dependem da Assembleia da República e da sua maioria». Numa altura em que há uma maioria de direita no Parlamento que pode mudar a Constituição, mas em que Gouveia e Melo precisa dos votos do centro-esquerda para ser eleito, o erro pode sair-lhe caro.
A José Seguro
Positivo
“Sou neste momento o único candidato da esquerda moderada, do centro-esquerda, como quiserem qualificar, que está em condições de ir à segunda volta. As pessoas querem que isso aconteça ou não? Se querem que isso aconteça, votam em mim, se lhes é indiferente, fazem outras opções”, disse recentemente António José Seguro no podcast Perguntar não Ofende, de Daniel Oliveira, “aquele que não faz chorar”, mas que revisitou exaustivamente o passado do candidato. Sobre o futuro, questionou-o sobre se “deu os sinais suficientes à esquerda” para que a indiferença se transforme em convicção e leve Seguro à segunda volta. Seguro reconheceu que “em termos de comunicação, posso não ser a melhor pessoa a comunicar, mas isso não quer dizer que eu não tenha as convicções e os valores certos”, acrescentando que, “se não deu as mensagens suficientes, porventura, foi erro meu”.
A mais recente sondagem da Pitagórica para a TVI/CNN, coloca Seguro em segundo lugar, com 19,9% das intenções de voto. O candidato apoiado pelo Partido Socialista, e de acordo com a mesma sondagem, consegue cerca de metade das intenções de voto dos socialistas nas legislativas; conta com o apoio dos eleitores com mais de 44 anos, em especial a partir dos 65, e colhe grande apoio na classe social C1, uma das mais baixas. Identificamos aqui alguma da esquerda que está fragilizada pela sua fragmentação e não parece ser terreno fértil para Seguro, que, ainda assim, insiste no apelo ao voto útil... à esquerda.
Negativo
“A história julgar-nos-á não só pelo que fizemos, mas pelo que escolhemos esquecer” é uma frase de Nelson Mandela que nos remete para Seguro, que insiste em desvalorizar ou vestir de patriotismo as decisões que tomou durante 2013 e 2014, no período da troika, quando era líder do PS e Passos Coelho chefiava um governo PSD/CDS. Também quis esquecer de onde vinha quando, no final do mês de Outubro de 2025, Ana Sá Lopes o questiona, meio aturdida, pela incapacidade que revelou em dizer “eu sou de esquerda”. Seguro engavetou-se na resposta, cometeu um erro e, por estes dias, teve de voltar ao assunto e admitir que “não é uma entrevista, em que já admiti ter sido menos feliz na resposta, que determina o que é que eu sou”.
Cotrim Figueiredo
Positivo
João Cotrim de Figueiredo entrou na pré-campanha, em Outubro, com um livro e um mandatário. José Miguel Júdice comparou a trajetória eleitoral de Cotrim à de Mário Soares em 1986 — não é coisa pouca. Soares partiu de muito atrás, com a esquerda fragmentada contra uma direita concentrada, e ganhou as eleições. Cotrim já conseguiu estar entre os cinco candidatos que podem passar à segunda volta.
Percorreu o passado de forma tranquila, tirando vantagem de uma imagem pública de gestor moderno, racional e pragmático. Tem um discurso estruturado, caindo aqui e ali em excessos retóricos e algumas contradições, mas nada que ponha em causa a sua capacidade de análise e de tomada de decisões ponderadas, algo valorizado pelo eleitorado urbano, moderado e centrista.
Criou uma narrativa de renovação política, posicionando-se como alternativa responsável e construtiva face ao sistema partidário tradicional, sem recorrer à via populista. É o preferido dos jovens à direita e de muitos adultos no centro político. Votam em Cotrim as classes A e B, os jovens entre os 18 e os 34 anos, e tem ainda 17% das intenções de voto de quem, nas últimas legislativas, votou AD.
Negativo
O chamado ‘momento Golegã’ definiu o candidato. Montado num cavalo branco, na Feira da Golegã, Cotrim disse que, se fosse Presidente, promulgaria a Lei da Nacionalidade tal como foi aprovada pelo Parlamento, mesmo sabendo que continha normas que o Tribunal Constitucional consideraria inconstitucionais. Quando confrontado com a ligeireza da afirmação, hesitou e optou por um «sim, promulgaria» — coerência em que ninguém acreditou, nem o próprio.
Em debates e entrevistas, a ausência de momentos fortes ou de frases de efeito tornou-o menos memorável em comparação com adversários mais carismáticos. E, quando foi para a lama, foi igual aos outros: o fato de bom corte saiu todo sujo. A consistência transformou-se numa fragilidade — e a inconsistência também o fragilizou. Cotrim tem, por muito que se esforce, um perfil técnico e dificuldade em criar uma narrativa emocional capaz de gerar ligação com o eleitorado