Há dias assisti a uma conversa num restaurante, e por mais que tentasse não assistir, era impossível, tais eram os decibéis usados pelos jovens, e menos jovens, atores. Dizia um, que estava na minha direção, com um ar muito convicto: «Eu recuso-me a fazer a cena em que tenho de dizer uma coisa sobre o aspeto físico do outro personagem, pois não quero ser cancelado». Pelo que percebi, os outros presentes apoiaram-no na decisão, embora uma miúda com pelo na venta dizia que isto é o fim da linha, a autocensura. Levando como resposta, um «não sabes que estamos numa ditadura?». Calculo que se estivesse a referir ao fantástico mundo das novelas ou programas coloridos das televisões, em que o wokismo dita leis – se essa praga tivesse existido com esta força há 30 anos em países como o Brasil ou Portugal, figuras como Jô Soares ou Herman José nunca teriam ‘nascido’ –, mas a conversa incomodou-me. Gente nova e menos nova já se autocensura para não ser cancelada. É o mundo de pernas para o ar.
Como o fanatismo do wokismo ainda espreita em cada esquina, é natural que a cegueira ideológica leve alguns a cancelar festas de Natal ou a esconder decoração alusiva à época festiva para não ‘ofender’ outras crianças de credos diferentes. Isto é tão estúpido que é de difícil compreensão, mas é aplaudido pela turma wokista. Mas que raios, esta gente só conhece a diversidade no que diz respeito aos trans e afins? Não sabe que alinha no mesmo discurso dos radicais que entendem que não deve haver mesquitas na Europa, até porque muitos países islâmicos não permitem a existência de igrejas?
Entendo que algumas cidades alemãs, e não só, sejam autênticas fortalezas para os participantes dos festejos natalícios não serem vítimas de fundamentalistas islâmicos. Percebo, mas com dificuldade, que cidades europeias, por receio de atentados, tenham cancelado várias festas. Mas o que se está a fazer é dar razão aos fanáticos, dizendo-lhes que estão a ganhar a guerra. Alguém consegue imaginar o jornal Charlie Hebdo sem cartoons satíricos às diferentes religiões e políticos, depois do atentado de há 11 anos? Isso seria uma grande vitória dos loucos fundamentalistas.
Para que fique claro, é óbvio que as principais cidades e aldeias continuam a festejar o Natal sem qualquer problema, como é evidente que só terá havido, em Portugal, uma ou duas escolas que optaram por ‘esconder’ a quadra festiva. Mas o que me preocupa é haver alguém que pense assim, que aceite ‘renegar’ a sua história e tradição, para não ofender os outros. E que grandes cidades europeias tenham que investir forte e feio na segurança, pois há quem não aceite que se possa festejar o Natal, sugerindo que nos resignemos às leis de Alá.
E é precisamente aqui que quero chegar, penso que os líderes religiosos muçulmanos que vivem em Portugal deviam ter mais espaço público para defenderem as tradições ocidentais. O sheik David Munir, líder religioso da comunidade muçulmana de Lisboa, é um homem sensato e que percebe que quem vive em Portugal, e ele é português, tem de aceitar os costumes e tradições locais. Recordo-me de o ouvir dizer que em Portugal é normal assar-se um porco e que isso não ofende nenhum muçulmano que viva cá. Se ofende, diz, então tem de procurar outro país. Isto foi dito, e bem, por Munir.
Munir e seus pares deviam surgir com mais frequência até para ajudar a curar os wokistas fanáticos, que estão, como sabemos, ao nível do pensamento dos talibãs. E que, infelizmente, estão a dar gás ao outro extremo que quer implementar outra ditadura, esta contra-wokista, com esse lunático Trump à cabeça.
Bom ano para todos, com muita liberdade.
Telegramas
Trotinetas ao fundo
A capital da burocracia decidiu proibir as trotinetas e bicicletas em determinadas horas, por colocarem os peões em perigo. Em Bruxelas, os condutores terão que, nas artérias proibidas, levar o ‘aparelho’ pela mão. Tal qual nas Docas de Lisboa, onde a maioria não cumpre. Nada como tentar colocar esses ‘moderninhos’ na ordem, até para não encher os hospitais de pessoas com fraturas provocadas por condutores de trotinetas e bicicletas.
Limpar o que sujaram
Os chineses produzem milhões de carros elétricos, à semelhança dos americanos, e agora estão a confrontar-se com o problema das baterias que terminaram o seu tempo de vida. Altamente poluentes, as baterias criam um desafio enorme à China, EUA e demais países que apostaram cegamente no elétrico. Imagino que o planeta irá ficar bem mais poluído.
Dar banho ao cão
Nos países ricos é natural que os riquinhos se fartem de algumas coisas e comecem a inventar. Antigamente dava-se um nome a esses comportamentos desviantes, dizia-se que ‘é maluco e vá mas é curar-se’. Hoje, na Alemanha, há pessoas que andam com uma trela a passear um cão imaginário. Internem-se rapidamente.