Decidi juntar o útil ao agradável, dificultar a vida aos ladrões, embaraçar quem não pretenda dar uma esmola, ou tão simplesmente resolver um problema de câmbio, já que moedas estrangeiras não chegam aos céus bancários. Na Grande Lisboa já são mais de 20 as igrejas que dispõem de uma caixa de esmolas eletrónica, ideia concretizada por um antigo engenheiro civil que foi a França visitar o filho, que está a estudar em Paris, e ao ir à missa na basílica de Sacré-Cœur percebeu que dentro do cesto das esmolas físicas estava um sistema de doação com tecnologia contactless. «Achei aquilo fenomenal, porque senti que era uma necessidade resolvida, já que raramente ando com dinheiro no bolso e com esse sistema podia contribuir para o ofertório», diz Samuel Faria ao Nascer do SOL.
Como na altura estava a trabalhar com o padre Duarte da Cunha na Jornada Mundial da Juventude, tratando de pôr todo o sistema em rede – permitindo saber, por exemplo, quantos peregrinos já tinham pago, quantos voluntários estavam inscritos, quantos vales tinham sido descontados em restaurantes, entre outras informações –, Samuel Faria explicou ao então pároco da igreja de Santa Joana Princesa, em Lisboa, as vantagens de avançar com um sistema semelhante em Portugal ao que tinha visto em Paris. Duarte da Cunha apadrinhou a ideia, tal como o padre João Paulo Pimentel, da igreja de Telheiras, segundo Faria.
Com o objetivo de alargar o seu leque de ‘clientes’, Samuel Faria falou com o padre Edgar Clara, que tem a seu cargo nove igrejas na Mouraria e Socorro. Como este não estava muito interessado no sistema móvel, já que tem poucos fiéis, devido à debandada das personagens portuguesas que davam vida ao bairro, Faria tratou de fazer outra oferta: uma coluna fixa com o mesmo sistema contactless, mas sem a possibilidade de ‘receber’ moedas, pois nos sítios onde foi implementado esse sistema misto, as ‘caixas de esmola’ eram sistematicamente violadas.
Caixas de esmola fixas
Com a dica de Edgar Clara, o antigo engenheiro civil apostou na ‘torre’ fixa, permitindo aos turistas deixar a sua contribuição, escolhendo o valor que querem oferecer. «É óbvio que este sistema permite aumentar as receitas de algumas das igrejas. Para se ter uma ideia, onde conseguíamos fazer 100 euros por mês, estamos a fazer 200», explica ao SOL o padre Edgar Clara. Ou talvez um pouco mais, até porque este sistema dificulta a vida aos ladrões.
Enquanto trocavam argumentos, Edgar Clara mostrava ao nosso jornal o vídeo de dois assaltos na igreja de São Cristóvão. «Alguns ladrões devem ser católicos, pois não danificam as caixas de esmola. Repare como este casal, que fala espanhol, entrou no igreja, benzeu-se, deu uma volta e na caixa de esmolas de madeira colocou uma moeda para saber a que distância estavam as notas. A mulher tentou colocar-se em frente à câmara de vigilância, enquanto o rapaz sacou de uma fita métrica das obras, com fita cola de face dupla na ponta, e foi só ‘pescar’ a nota».
Depois fizeram o mesmo numa caixa de esmolas, mas transparente, que facilita ainda mais a vida aos artistas assaltantes. «Estive duas horas para apresentar queixa na esquadra da Polícia, onde nem sequer há um banco para as pessoas que vão apresentar queixa se sentarem, e os ladrões levaram poucos segundos para me roubarem», conta Edgar Clara. «Mandei o vídeo para um grupo de padres, e houve logo quem dissesse que sabia quem era a dupla de assaltantes: ‘Eles costumam estar ali em frente à igreja de tal, falam espanhol’. Como eu não tinha percebido muito bem como é que eles tinham tirado as notas, logo me explicaram que eles usam uma fita métrica daquelas das obras», acrescenta Clara.
O casal de assaltantes, que fala espanhol, deve ser fã dos GNR, que cantavam: ‘Por ela assalto a caixa de esmolas; Atirem-me água benta; Com ela eu desço ao inferno de Dante; Atirem-me água fria; Ai, ui, atirem-me água benta; Por ela assalto a caixa de esmolas; Atirem-me água fria; Por parecer latina calculo que o nome dela; É Maria; É casta, eu sei, se é virgem ou não depende Da vossa fantasia».
Quem não se deve chamar Maria nem ser latina são os ladrões que assaltaram a igreja de Socorro de EdgarClara. «Assaltaram-me a minha igreja de Socorro duas vezes no espaço de uma semana. Não deviam ser católicos, até pelo que fizeram na casa de banho. Depois de terem roubado o que puderam, nomeadamente uma custódia, foram à casa de banho e fizeram cocó ao lado da sanita. Não são culturas que estejam habituadas a fazer as necessidades na sanita», ironiza Edgar Clara.
Peditório com história
Mas voltemos ao sistema das moedas eletrónicas. Samuel Faria quis dar alguma mais-valia ao aparelho e investiu numa atualização das ‘colunas’. Em vez de ser só uma espécie de multibanco, o homem que trabalhou na Jornada Mundial da Juventude criou um novo modelo, maior, que permite ter histórias de santos, com as devidas citações, além do historial de papas, entre outras informações. Isto em diferentes línguas. «Conseguimos dar assim algum conteúdo, contribuir para alguma evangelização no ato da oferta de dinheiro», adianta Faria.
Este sistema eletrónico permite às igrejas ‘recuperar’ algum dinheiro, pois muitos turistas deixavam moedas estrangeiras nas caixas de esmolas, que os padres das respetivas paróquias não podiam trocar nos bancos.
O negócio de Samuel Faria faz frente ao dos holandeses que têm procurado ‘arranjar’ clientes na diferentes igrejas portuguesas, já o tendo conseguido em Coimbra e no Funchal. «Os holandeses cobram uma taxa superior ao Samuel e é por isso que ele está a conseguir alargar o seu negócio. Este sistema permite às igrejas aumentar as suas receitas porque, de facto, cada vez menos as pessoas andam com dinheiro no bolso. É óbvio que não será igual no país inteiro, mas onde há turistas faz todo o sentido», refere Edgar Clara.
O novo modelo já está em funcionamento na Basílica da Estrela, nos Jerónimos e em diferentes igrejas da Baixa de Lisboa, bem como na Ericeira.