Falamos muitas vezes de vinho de talha, lemos em rótulos e ouvimos a expressão em conversas e em reportagens, mas raramente paramos para perceber, de facto, o que está por detrás desta forma ancestral de fazer vinho. Como se faz realmente um vinho de talha? E o que o distingue dos restantes?
Na Bairrada encontramos um projeto que nos dá todas as respostas: a Adega Centenária Malápio. Aqui, entre vinhas velhas de origem medieval, premiadas no século passado e compostas por um verdadeiro “puzzle de castas”, produz-se vinho natural com mínima intervenção, respeitando práticas ancestrais e uma viticultura de precisão quase artesanal.
À frente do projeto está Romeu Martins, CEO e viticultor da Adega Malápio, herdeiro de uma tradição familiar que presta homenagem às gerações anteriores e, em particular, ao avô que lhe abriu o caminho no mundo do vinho. É com ele que falamos nesta entrevista, para compreender melhor como nasce um vinho de talha e como se preserva, hoje, um património tão antigo quanto vivo.
De forma simples, o que é, afinal, o vinho de talha de que tanto se tem falado nos últimos tempos, apesar de ser bem antigo?
O vinho de talha é legitimamente associado ao Alentejo, porque a gente desta região teve o mérito de preservar o uso destes recipientes de barro, desde a época Romana, até aos nossos dias. No entanto, na época romana e, por vezes, durante a Idade Média, o vinho de talha foi produzido por todo o país, como as escavações arqueológicas têm vindo a confirmar. No Centro e Norte as talhas foram substituídas, mais tarde ou mais cedo, pelos tonéis e barris, perdendo-se rapidamente a memória da vinificação em talhas de barro.
O Malápio é o único vinho feito em potes de barro/talhas de barro (designação “talha” no Alentejo) segundo a tradição Romana na Bairrada, pelo que pode considerar-se, de facto, único.
Que aspetos o tornam único?
Distingue-se principalmente pela influência do seu terroir e pela utilização de castas locais, o que resulta em perfis de vinho diferentes. Eis os aspetos que o tornam único:
1. Castas Autóctones da Bairrada
O Vinho de Talha da Bairrada utiliza as castas tradicionais da região, como a Baga (tinta) e a Bical, Maria Gomes (ou Fernão Pires) e Cercial (brancas).
2. Influência do terroir (Clima e Solo)
Clima Atlântico: a Bairrada tem um clima mais fresco e temperado, muito influenciado pela proximidade do Oceano Atlântico, em comparação com o clima mais quente e seco do Alentejo. Este clima contribui para uvas com uma acidez natural mais elevada, resultando em vinhos mais frescos e elegantes.
Solos: os solos da Bairrada são “tipicamente” argilo-calcários, que ajudam a reter a água e contribuem para a estrutura e o carácter mineral do vinho.
A Adega Malápio trabalha uma vinha medieval descrita como um “puzzle de castas”. O que significa isto?
Como é evidente, a vinha não é medieval, mas as técnicas de cultivo e de condução das videiras são as que se usavam na Idade Média, em que uma das principais características era haver mistura de castas brancas e tintas na mesma parcela de vinha, daí o “puzzle de castas”.
Há várias razões para esta promiscuidade de castas brancas e tintas, temporãs e serôdias, de vinho e de uva de mesa. Uma das principais razões tinha que ver com a inconstância do tempo, como o momento das geadas, a chuva na floração, o granizo e as trovoadas na maturação, etc. Assim, com castas de ciclos de vida desfasados no tempo era possível salvar sempre parte da produção ou, como se dizia no século XVI, “perdem-se umas, mas salvam-se outras”. Outra razão tinha que ver com o estilo de vinho, que devia ser clarete, para representar o “sangue de Cristo”, por isso se plantavam brancas e tintas juntas.
Em suma, o “puzzle de castas” é uma homenagem aos métodos tradicionais e é o que confere a estes Vinhos de Talha da Bairrada um perfil genuíno, fresco e historicamente fiel ao vinho que era produzido há séculos.
A ligação à tradição familiar e a homenagem ao seu avô parecem estar no coração do projeto. De que forma essa herança molda as escolhas que faz hoje, tanto na viticultura como na identidade dos vinhos?
Nós somos sempre fruto dos nossos antepassados e avós e, no meu caso, muito mais pois fui criado pelo meu avô Aristides. O seu legado é o fio condutor das escolhas atuais, em particular na revalorização de métodos ancestrais.
A homenagem ao meu avô Aristides, que foi mestre do barro na Cerâmica do Bicarenho durante 55 anos e conhecia profundamente as fainas agrícolas e a produção do vinho na Bairrada, manifesta-se de várias formas. Primeiro, na viticultura, ao resgatar a vinha antiga. Depois, na vinificação, ao manter as talhas de barro e a mínima intervenção no vinho, uma vez que as talhas são revestidas apenas com cera de abelha e resina de pinheiro e o vinho é produzido sem filtragem, controlo de temperatura (apenas sendo curados com frio do inverno), e com baixos sulfitos, resultando em vinhos naturais e autênticos. Por fim, na identidade e enoturismo, dado que na Adega Malápio as experiências de enoturismo são um tributo ao passado.
Que desafios enfrentam ao conciliar métodos ancestrais, como as talhas de barro, com padrões modernos de sustentabilidade?
Não há propriamente grandes desafios, pois a viticultura medieval, que é a que essencialmente seguimos, é o exemplo típico de uma atividade agrícola sustentável. Os pesticidas praticamente não se usam, os adubos de síntese química são usados com parcimónia, o solo é tratado com todo o respeito para estimular a sua atividade microbiana, as produções são equilibradas para não esgotar o solo, as abelhas e as joaninhas, importantes no ecossistema, vivem felizes e contentes, grande parte dos trabalhos são feitos com mão-de-obra da terra em vez de máquinas, etc.
Os desafios de conciliar métodos ancestrais, como a vinificação em talhas de barro, com padrões modernos de sustentabilidade na Adega Malápio são maioritariamente superados pela própria natureza do processo tradicional, que, por essência, é de baixa intervenção e ecológico.
O desafio maior reside em integrar as modernas eficiências de gestão de recursos, sem perder a alma ancestral e artesanal que define a identidade dos vinhos de talha.
Como vê o futuro do enoturismo na Bairrada e o papel da Adega Malápio nesse desenvolvimento?
O enoturismo em Portugal está em forte crescimento, com a Bairrada a afirmar-se como uma região com grande potencial, impulsionada pela sua história, castas autóctones (como a Baga) e o seu ícone gastronómico, o Leitão Assado.
O futuro do enoturismo na Bairrada é promissor, mas dependerá da capacidade da região em se destacar e acompanhar as tendências globais. É o caso das experiências temáticas e imersivas, uma vez que o turista de vinho procura cada vez mais experiências que vão além da prova simples; o foco na sustentabilidade e autenticidade; o enoturismo de “segunda linha”, oferecendo maior autenticidade e coesão territorial; e a integração com a natureza, como a proximidade a ecossistemas únicos, como a Mata Nacional do Bussaco.
O principal desafio é estruturar a oferta e melhorar a cooperação entre os vários agentes (produtores, hotelaria, restauração, Rota da Bairrada) para criar um produto turístico coeso e de alta qualidade. É fundamental apostar na formação para garantir que a experiência do visitante é consistente e memorável.
A Adega Malápio serve como um farol da autenticidade e da memória histórica no enoturismo da Bairrada e o seu foco na tradição da talha e na história familiar atrai um turismo de qualidade, que valoriza a narrativa e a experiência genuína, ajudando a posicionar a região não só pelo seu espumante e pela Baga, mas também pela sua herança vinícola medieval.
Que experiências diferenciadoras são dinamizadas pela Adega Malápio?
A Adega Malápio desenvolve experiências de enoturismo profundamente diferenciadoras, centradas na recuperação da tradição medieval do vinho de talha e na história familiar do avô Aristides. Vão, assim, muito além de uma prova de vinhos, oferecendo uma imersão na cultura e na paisagem da Bairrada.
1. A vinificação ancestral: talhas e workshops
O coração das experiências é o método ancestral, que diferencia a Malápio de quase todas as outras adegas da Bairrada:
─ Tour das “Grávidas” Bairrada: um percurso guiado dentro da adega centenária, focado nas talhas de barro centenárias, onde o vinho estagia. O nome invoca a forma arredondada das talhas, criando uma atmosfera mágica e histórica. Este tour está muitas vezes integrado noutras experiências de visita e prova.
─ Workshop de Vinificação de Vinhas de Talha: uma experiência prática e educativa onde o visitante pode aprender detalhadamente o processo de produção do vinho de talha, desde a curtimenta até ao enchimento, seguindo as técnicas de mínima intervenção resgatadas na adega.
2. Imersão na vinha e na natureza
─ Visita à Vinha Medieval e Paisagem: as visitas incluem um passeio pela vinha velha medieval, que é atravessada por um curso de água e se debruça sobre os arrozais do Rio Cértima, oferecendo vistas para a Serra do Caramulo e o Bussaco. É um cenário natural e histórico de grande beleza.
─ Vindima por um dia com Malápio: uma experiência sazonal e prática (geralmente em setembro) que permite aos participantes cortar os cachos maduros na vinha e sentir o entusiasmo da colheita manual, seguindo o método tradicional da Bairrada.
3. Enoturismo e Gastronomia Autêntica
─ Experiências de degustação com leitão da Bairrada: o vinho de talha Malápio é harmonizado com o ícone gastronómico da região. A experiência pode incluir uma Sandes de Leitão da Bairrada ou, em opções mais completas, um almoço/jantar regional com pratos como o Leitão Assado, Cozido à Portuguesa ou Rojões da Bairrada, geralmente servidos junto das talhas centenárias, à luz de velas (Jantar Vínico).
─ Provas comentadas de vinhos de talha: focadas nos seus vinhos de talha DOC Bairrada (tinto e/ou branco/palheto), acompanhadas por tábuas de petiscos regionais (queijo, chouriça, pão).
4. Retiro vínico: vinho e bem-estar
─ Retiro vínico na Bairrada: esta experiência combina meditação, vinho e gastronomia local. É uma vivência que procura a conexão entre a serenidade da adega e da paisagem circundante, apelando a um tipo de turismo que busca o descanso e a atenção plena (mindfulness).
─ Provas de vinho com jogos tradicionais, como o jogo da malha, jogo das latas e jogo do prego. Promovemos ativamente a inclusão de jogos tradicionais nas suas experiências de enoturismo, reforçando o caráter rústico e autêntico do projeto.
De que forma a fusão entre arte e vinho contribui para reforçar a identidade cultural do vosso projeto?
A Adega Malápio tem uma parceria com Delfim Manuel, o mestre do artesanato em barro, a vinha está em Barrô (Barro), do lado de lá dos arrozais está Oliveira do Bairro (Barro) e a 500 metros da Adega estão as maiores jazidas de barro de Portugal. Só a arte pode fazer a ligação e imortalizar com a história da Bairrada intimamente ligada ao seu solo argiloso e ao seu famoso vinho.
A fusão entre arte e vinho na Adega Malápio não se manifesta necessariamente em exposições de pintura modernas, mas sim na celebração artística da sua própria história. O projeto reforça a sua identidade cultural ao transformar o método ancestral (a talha) e a memória familiar (o avô Aristides) em elementos centrais e artisticamente valorizados da sua narrativa.
Associamos a Bairrada ao leitão, mas será esse o melhor complemento dos vinhos de talha da Adega Malápio?
Embora o leitão da Bairrada seja um ícone inegável da região, e uma harmonização muito popular com os tintos/brancos Baga mais jovens e frescos da Bairrada (devido à acidez que corta a gordura), a natureza específica e a estrutura dos Vinhos de Talha Malápio sugerem que pode haver pratos igualmente diferenciadores.
Tendo em conta a sua rusticidade, é um vinho popular, apropriado para brilhar à mesa da refeição com comida de índole rural. As sardinhas assadas, o bacalhau com grão, rojões com grelo e batata à racha, cozido à Portuguesa, só têm a ganhar com o Malápio do Pote de Barro.
Onde encontrar os vossos vinhos?
O nosso principal desejo é que as pessoas venham comprar o vinho diretamente à adega e fiquem com vontade de voltar mais vezes, pois gostaríamos de tratar os nossos clientes pelo nome próprio e como amigos. Todavia, ponderámos vender o vinho online e não excluímos a hipótese de distribuir o vinho em alguns centros urbanos do país e, pontualmente, exportar para mercados maduros e exigentes, que sabem valorizar o estilo e conceito dos nossos vinhos.
Os vinhos de talha da Adega Malápio já podem ser comprados diretamente através do website e em garrafeiras e lojas de vinhos online e presenciais. Embora a distribuição possa ser mais limitada devido à baixa produção (cerca de 4000 garrafas numeradas anualmente).
Para além do mais, o vinho de talha da Adega Malápio está presente em vários restaurantes e hotéis, como o Salpoente, o Restaurante 3800, o Rei dos Leitões, Restaurante Vidal, o Ricardos Wines Bar e a Taberna dos Nobe.