terça-feira, 10 fev. 2026

O nosso mundo (o das tascas) está a acabar

O adeus à Tascardoso, um dos espaços mais emblemáticos do Príncipe Real

Eu sou das tascas, da conversa genuína, linguagem brejeira e sabor a tacho. Comida verdadeira ou, como lhe chamam, honesta. Gosto das bocas e das piadas, das toalhas de papel e de quem faz comida como se estivesse a cozinhar em casa. Dos pratos e sabores antigos que me fazem recordar a comida de família dos saudosos almoços em casa das minhas avós. Por ali não se inventa o que já foi bem inventado, não há nomes chiques, nem óleo de trufas. Não há fuminhos nas garrafas, não se paga pelo ambiente nem pela decoração. Gosto dos empregados antigos com histórias boas para contar, do cheiro que vem da cozinha e invade a sala, das azeitonas e dos tremoços sem sal rosa dos Himalaias, do queijo que nos metem na mesa antes de enfardarmos uma dose bem aviada do que quer que seja, sem empratamentos pipis. São espaços de cultura e de prazer, da nossa cultura portuguesa e são também bandeiras da nossa gastronomia de excelência. 

Essa tradição genuína vai sendo substituída por restaurantes todos muito iguais que se preocupam mais com o acessório do que com o essencial. Perde-se o azeite que vem lá da terra e o vinho da região. Mas perdem-se acima de tudo formas de estar e de receber, atos de cozinhar, do respeito pelo que se faz e do orgulho que se apresenta. Numa tasca o único estatuto é o do cliente habitual, sítio quase único onde se sentam lado a lado, o pedreiro e o empresário, o bombeiro e o advogado, o jornalista ou a senhora da limpeza. Cada um com o seu traje sem observações sobre o que traz vestido ou olhares reprovadores. Lá dentro faz-se a preceito o que se foi passando de geração em geração, sem merdas, sem enfeites ou rodriguinhos. O papel principal é invariavelmente destinado ao que vem no prato, valorizando a arte da simplicidade e a gosto pela autenticidade.

Comer numa tasca é ser português, um legado que nos enche de memórias mas que acima de tudo nos permite ter uma refeição de qualidade a um preço ainda acessível num tempo em que para ir a um restaurante é quase preciso “empenhar o anel de rubi”, como dizia o cantor Rui Veloso na sua “Paixão”. São os últimos bastiões da nossa gastronomia, da comida sem complexos e do bem estar informal. Repouso dos trabalhadores e alimento da alma. É para muitos o único momento de lazer de um dia infernal que nos coloca perante problemas e situações difíceis. Ali, parece que por momentos tudo se esquece e nos concentramos nesse pequeno prazer. E aquelas paredes que contam tantas histórias trazem imagens e azulejos de vidas que parecem de alguma forma ser tão iguais às nossas. Ou pelo menos, às que um dia vivemos.

Esta semana o Príncipe Real já não conta com um dos seus locais de culto. A Tascardoso bem junto ao jardim. Por lá passei tantas vezes com amigos, jantaradas de conversas intermináveis e risadas que se irão prolongar na minha memória, bem como aquele bitoque ou as iscas com batatas. Parece que foi vendida a um grupo. Para além dos valores em Lisboa estarem cada vez mais elevados, existem muitas famílias em que os filhos já não se interessam pelo negócio, seguindo outras carreiras e não deixando outra alternativa aos já cansados pela idade, senão a de vender. Não sei o motivo que levou ao adeus desta casa mas não terá sido seguramente a falta de clientes. Deixa boas recordações e um sabor amargo de mais uma despedida.

A descobrir:

A vista do outro lado do rio é bem melhor. Vê-se uma Lisboa iluminada e agitada que mistura o antigo com o moderno. A Trafaria é um desses sítios com vista privilegiada que junta ao postal a boa comida. Das tradicionais tabernas do Zé da Lídia ou do Manuel da Gorda à Casa Ideal, mas também o Atira-te ao Rio em Cacilhas no Cais do Ginjal. Um passeio por ali vale sempre a pena e o que vem para a mesa também. É bom para o estômago mas também para aliviar um pouco a mente.

Uma música para dançar no fim de semana:

Don’t cry, silly one – Napsea