terça-feira, 10 fev. 2026

‘O mundo em que vivemos já foi melhor’

João Vale de Almeida. ‘O Divórcio das Nações – O Colapso da Ordem Mundial Visto por Dentro’. Uma leitura diplomática sobre poder, populismo e a ansiedade do futuro
‘O mundo em que vivemos já foi melhor’

O Presidente da República saiu do Palácio de Belém pela primeira vez depois de ter sido operado a uma hérnia para estar presente no lançamento de ‘O Divórcio das Nações – O Colapso da Ordem Mundial Visto por Dentro’, escrito pelo embaixador jubilado João Vale de Almeida e publicado pela D. Quixote.

O livro contou com a apresentação de Durão Barroso, que aproveitou para dizer que a Europa do tempo em que foi presidente da Comissão Europeia teve um protagonismo que agora, claramente, não tem (enviava também um recado a António Costa?), num tempo em que a Rússia estava mais próxima da Europa e em que teve um almoço com Putin, no qual lhe notou o indisfarçável ressentimento relativamente ao Ocidente e uma «arrogância que é também uma forma de estupidez».

A última intervenção do lançamento do livro, na Fundação Calouste Gulbenkian, na terça-feira (16), foi de Marcelo Rebelo de Sousa, que elogiou a diáspora diplomática portuguesa, afirmando: «Os nossos diplomatas, quando são muito bons, e são-no há séculos sem fim, são excelentes». E a excelência dominou a intervenção, porque «excelente» considera a obra e o seu autor. Ironizando que «tem dificuldade em improvisar», disse ainda, referindo-se em concreto a Durão Barroso: «Haverá duas sem três ou haverá três? Esperemos dez anos e veremos».

Barroso tem 69 anos, aos 79 (80 em 2036) será um pouco tarde para concorrer à Presidência – ainda que Marcelo tenha depois esclarecido que gostaria de o ver regressar à política ativa –, mas Marcelo sabe que, ao falar de uma «espera de dez anos», projeta o futuro e desvaloriza o presente e os candidatos que se perfilam para lhe suceder.

O Nascer do SOL conversou com João Vale de Almeida há um par de dias e, em fim de conversa, perguntámos-lhe se apoiaria publicamente um candidato presidencial. Não assume qualquer apoio público, mas disse-nos: «Não gostaria de ver em Belém nem um estagiário, nem um aventureiro».

Vale de Almeida é um diplomata até à medula. Quando lhe perguntámos qual a personalidade que conheceu ou com quem trabalhou que mais admira, deu-nos a mais consensual de todas: Nelson Mandela, que conheceu numa viagem a África do Sul, como porta-voz da Comissão Europeia, acompanhando João de Deus Pinheiro, e num almoço restrito com o líder que pôs fim ao apartheid na África do Sul, do qual «ficou positivamente impressionado».

No livro que escreveu, «visto por dentro», a partir de uma carreira paga com o dinheiro dos contribuintes europeus, «mais alemães e suecos do que portugueses» –, fala de uma plêiade imensa de líderes, como George W. Bush, Obama, Biden, Blair, Boris Johnson, Barroso, Merkel, Tusk, Sarkozy, Guterres ou Macron, entre tantos outros com quem teve contactos profissionalmente fugazes ou duradouros, ou amizade para a vida. Mas optou por não destacar nenhum, falou-nos de Nelson Mandela.

Falou também, porque o questionámos, de Federica Mogherini, acusada recentemente de corrupção, que foi sua «patroa política». Assume que ficou surpreendido e espera que nada se confirme, porque as suspeitas de corrupção corroem a imagem dos sistemas políticos.

Quisemos ainda saber se, entre os atuais líderes europeus, há alguém que lhe mereça destaque no presente e no futuro. Mais uma vez, diplomaticamente, respondeu: «Há, entre os líderes europeus, líderes para o futuro, espero que os haja, mas, assim, de imediato, não me ocorre ninguém».

O Divórcio das Nações é «um livro escrito para pessoas que se interessam pelo estado do mundo e que não são especialistas em Relações Internacionais ou Ciência Política, e que apreciem comentários vindos de alguém que conhece o sistema internacional, que viveu alguns dos acontecimentos recentes e que talvez lhes permita compreender um bocado melhor como é que chegámos aqui, onde estamos e para onde é que podemos ir», disse-nos Vale de Almeida.

A conversa foi longa e muitos os temas abordados, da inteligência artificial aos novos «arquitetos» do mundo: «Está a acontecer uma das mudanças qualitativas mais significativas, mais rápidas, mais substanciais e mais revolucionárias, e é evidente, desde já, que esta transformação está a ser feita por um grupo muito reduzido de pessoas, extremamente poderosas do ponto de vista financeiro», o que constitui um desafio para o eleitorado, para os eleitos e para os sistemas democráticos.

E esses sistemas estão também ameaçados por aquilo a que chama o «veneno populista». Apela à responsabilidade de todos, em especial dos que se situam no mainstream político, no centro-direita ou centro-esquerda, das famílias políticas democrata-cristã, liberal, socialista e social-democrata, «que construíram a Europa» e que «têm a enorme responsabilidade de contrariar, se possível parar, se possível convencer os eleitores de que estas forças políticas não representam verdadeiras soluções, criando mais problemas do que aqueles que resolvem».

Para conter «o veneno populista», prossegue, não se deve «subestimar o que leva os eleitores a votar nessas forças políticas, nem diabolizar esses eleitores». Deve-se «pôr em evidência que problemas complexos não têm soluções simples e contestar as soluções apresentadas por muitas dessas forças políticas». E deve-se ainda «reconhecer que a força eleitoral desses partidos tem a ver com problemas reais que as pessoas sentem – combater as soluções, mas compreender a raiz das frustrações e o que leva a votar nos populistas».

Admite que é uma situação complexa, para a qual não tem soluções – senão iria para a política. No entanto, esta é, mais ou menos, a realidade: os políticos tradicionais estão incapazes de deter o avanço dos populistas. Estará a Europa e o mundo servidos de maus políticos? O embaixador recusa a ideia de que no passado é que os líderes eram bons: «É demasiado fácil para ser verdade». Aponta escolhas, que detalha no livro, feitas no processo de globalização – um processo «que tirou milhões de pessoas da pobreza e beneficiou largamente os consumidores dos países industrializados, que aumentou a competitividade das empresas europeias e norte-americanas» – mas que teve um lado menos bom: «Criou novos pobres».

Se há uma falha que hoje se identifica, retrospetivamente, é que os governos europeus e norte-americanos «descuraram o preço interno da globalização», traduzido nos Rust Belts decadentes e abandonados. «O voto no Brexit é largamente explicado por isso; o voto em Trump é largamente explicado por isso».

O livro tem um carácter meio memorialista, de «um filho do 25 de Abril», que acabou o liceu em 1974, com 17 anos, mas que desde pequeno demonstrava interesse por questões internacionais. Lembra-se da morte de John F. Kennedy, quando tinha seis anos, ou, uns anos depois, da invasão da Checoslováquia.

Acabado o liceu, fez um curso de formação em jornalismo em Paris e, aos 18 anos, entrou no Diário de Notícias. Foi jornalista enquanto se licenciava, o que demorou mais do que o tempo normal. Aquilo que o interessava na infância continuou a interessá-lo na idade adulta. Em 1982, quatro anos antes de Portugal aderir formalmente à União Europeia – então Comunidade Económica Europeia (CEE) –, João Vale de Almeida inicia o caminho que acabaria por ser o de toda uma vida profissional, quando foi recrutado pela representação da Comissão Europeia em Lisboa. Foram 40 anos como funcionário e diplomata da UE.

Em 1989 foi para Bruxelas, onde esteve mais de duas décadas, e depois mais 12 anos ao serviço da UE em Nova Iorque, Washington e Londres. Destaca a chegada à Comissão Europeia de José Manuel Durão Barroso – «que não me conhecia de lado nenhum» – e uma conversa de 45 minutos entre os dois que, contou Barroso, foi suficiente para que fosse escolhido para chefe de gabinete do então presidente da Comissão Europeia. «Estivemos a trabalhar intensamente durante cinco anos, uma experiência única», entre 2005 e 2010, período que o apanhou «numa altura de grande maturidade profissional».

Acumulou então as funções de sherpa – responsável pela construção de consensos prévios – para preparar reuniões do G8 (antes da expulsão da Rússia, após a invasão da Crimeia) e do G20. Depois foi nomeado embaixador da União Europeia junto das Nações Unidas, nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Destaca o processo do Brexit, a que chama «a mãe de todos os divórcios», e que não lhe poderia ter passado ao lado: foi o primeiro embaixador da UE no Reino Unido imediatamente após o Brexit, em 2020, quando, relutantemente, o Reino Unido aceitava o estatuto de embaixador a uma entidade da qual tinha acabado de sair e que não era um país. Vale de Almeida esteve na linha de fogo, do outro lado Boris Johnson, que conhecera como jornalista e reencontrou como primeiro-ministro.

Boris Johnson é um génio ou um louco? Sendo uma mistura dos dois, Vale de Almeida deixa-nos a ponderação, adiantando que o ex-primeiro-ministro e líder dos conservadores «é um tipo com uma cultura geral incrível, uma verve incrível, escreve lindamente, fala lindamente, é um entertainer puro, mas não sei se lhe deixava os meus netos ao cuidado. Ainda assim, somos amigos e continuamos amigos».

Vale de Almeida tem dois filhos e três netos e está casado com Maria Ana Jara de Carvalho, de quem ‘não tenciona divorciar-se’.

Entre as várias histórias que conta, há uma que envolve Barack Obama e os cães de água portugueses. A apresentação de credenciais como embaixador da UE nos Estados Unidos decorreu na Casa Branca, num ambiente familiar. Vale de Almeida foi acompanhado pela mulher e pelos filhos, com quem Obama conversou cordialmente. Entre tudo, um detalhe: «Um dos temas que usei para quebrar o gelo foi o facto de ele ter escolhido um cão, e depois dois, de uma raça portuguesa, o cão de água. Um tema que nos ligava. Eu, sinceramente, nem conhecia bem a raça e tive de ler algumas coisas antes, um conhecimento ‘fresco’, mas ele não notou e a conversa decorreu lindamente».

Num ambiente mais descontraído, voltámos ao livro. Perguntámos se, entre os divórcios que identifica, a Europa será quem mais vai sofrer. «O sistema de governação conseguido a partir da II Guerra Mundial foi um casamento bem-sucedido, reforçado depois do fim da Guerra Fria e do fim da União Soviética. Foi um bom casamento para a Humanidade: garantiu um período sem guerras mundiais e de relativa prosperidade. Depois, com a hiperglobalização, o mundo transformou-se completamente, pela combinação da liberdade de comércio e das inovações tecnológicas, criando, pela primeira vez, um mundo verdadeiramente global».

Mas o casamento entrou em crise. Quando? O livro identifica quatro anos fundamentais: «2001, com o 11 de Setembro e a adesão da China à Organização Mundial do Comércio; 2008, com a invasão da Geórgia pela Rússia e a queda do Lehman Brothers; 2016, com o Brexit e a eleição de Trump; e 2022, com a invasão formal e frontal da Ucrânia pela Rússia». Acrescenta ainda 2014, com a anexação da Crimeia.

Todos estes momentos contribuíram «para a degradação dos termos das relações internacionais». Após o fim da União Soviética e da luta entre capitalismo e comunismo, parecia que as democracias liberais se imporiam como «o menos mau» dos sistemas políticos. «Mas não foi isso que aconteceu, infelizmente. É isso que tento explicar no livro: como o século XXI foi desconstruindo aquilo que o século XX tinha construído. É como o sapo deixado em água a ferver... um processo gradual de degradação».

E quando ainda não se vislumbra no horizonte uma nova ordem mundial, confessa: «É isso que me inquieta: o século XXI está a destruir o século XX sem ainda ter uma alternativa, e isso cria ansiedade». Acrescenta: «A ordem de que fiz parte, modestamente, enquanto ator diplomático, colapsou. Quando se tem um Conselho de Segurança das Nações Unidas paralisado, com um membro como a Rússia a violar a Carta da ONU, não pode funcionar, por muito bom que seja o secretário-geral».

Na nova ordem mundial, a China tornou-se incontornável. «A China surge como a nova potência; a Rússia tenta agarrar o que lhe resta da sua dimensão imperial; e os Estados Unidos hesitam entre o isolacionismo e o intervencionismo, sem saberem como gerir o seu excecionalismo».

Sobre O Divórcio das Nações, Marcelo Rebelo de Sousa escreveu: «Este livro é dos melhores retratos que conheço do mundo em que vivemos».