Retomamos a conversa por videoconferência com Francisco Bethencourt, professor de História no King’s College e autor de ‘Estranhos na sua Terra – ascensão e queda da elite mercantil cristã-nova (sécs. XV-XVIII)’. A primeira parte, publicada na edição anterior, abordou o estabelecimento da Inquisição em Portugal e os contornos da perseguição aos cristãos-novos. Hoje Francisco Bethencourt vai explicar-nos as consequências perniciosas que essa perseguição teve para o país.
Na passada semana falámos em racismo, mas os cristãos-novos não andavam com uma braçadeira com a estrela amarela. Era a fisionomia que fazia com que fossem distinguíveis dos cristãos-velhos?
Não, os cristãos-novos eram completamente indistinguíveis. Mesmo anteriormente, os judeus e os muçulmanos da Península Ibérica eram praticamente semelhantes aos cristãos da Península Ibérica. Não havia distinção física clara. E depois houve sempre alguma mistura. A maior parte dos muçulmanos que estavam na Península Ibérica vinham do Norte de África. E o Norte de África tem uma tradição de pessoas de tonalidade de pele mais clara. Os judeus também não tinham diferenças fisionómicas significativas que permitissem uma distinção imediata. Portanto, era tudo baseado na reputação e na genealogia, não havia outros critérios. Falámos dos nazis, mas mesmo antes dos nazis, em 1870, houve uma tentativa na Alemanha de encontrar marcadores de diferença física.
E encontraram?
Não encontraram nada. Os nazis também investiram algum dinheiro nisso e também não encontraram nada. Portanto, os critérios de identificação e de exclusão dos judeus na Alemanha foram os mesmos da Inquisição: por reputação e por genealogia. Não há diferenças físicas. Muitos judeus na Alemanha tinham olhos azuis, tinham o cabelo claro. E a população alemã também tinha uma variedade fenotípica.
Não eram todos loiríssimos de olhos azuis.
Não, não eram.
No Estranhos na sua Terra dá conta do papel importante e das altas posições que essa elite financeira cristã-nova portuguesa ocupou em toda a Europa. Portugal poderia ser hoje mais próspero se esses grandes mercadores, esses banqueiros, esses financeiros tivessem ficado por cá?
Essa é uma das teses do livro. A repressão contra os cristãos-novos tornou-se muito mais feroz na segunda metade do século XVII. A Inquisição foi suspensa entre 1674 e 81, e foi restabelecida numa situação muito peculiar, porque o Papa tinha dado razão a uma boa parte dos argumentos dos cristãos-novos e impôs à Inquisição alterações de procedimento. Mas a Inquisição apresentou o restabelecimento como um triunfo e criou uma dinâmica ainda mais adversa aos cristãos-novos, que levou o próprio Rei a decidir, em 1683, o exílio dos cristãos-novos condenados que tivessem confessado o judaísmo. É evidente que isto foi contrário aos interesses da Inquisição, porque levou a que os cristãos-novos detidos se recusassem a confessar seja o que for – é uma questão de estratégia. Encontrei documentos que mostravam que este exílio foi mesmo aplicado, e os cristãos-novos perderam a influência que tinham anteriormente. Até ao início dos anos 1680 eles eram condenados pela Inquisição mas continuavam a fazer contratos com o Rei. A partir de 1683 a situação muda de figura e os cristãos-novos desaparecem praticamente dos grandes contratos. Em Espanha é uma história diferente porque resulta da Guerra de Sucessão, do princípio do século XVIII, em que a maioria dos cristãos-novos banqueiros em Madrid e dos judeus de Amesterdão apoiaram o candidato Habsburgo, e com a vitória dos Bourbon ficaram numa situação falsa.
Apostaram no cavalo errado…
A maior parte do investimento foi perdida. Apanho alguns deles na documentação existente em Londres, continuam a atuar mas sem a mesma capacidade financeira. E eu comecei a pensar: se os cristãos-novos desaparecem, quem os substitui? Na maior parte dos casos foram estrangeiros. E os estrangeiros obviamente não ficam com o dinheiro em Portugal ou em Espanha, levam-no para outro sítio. Essa repressão acrescida, o exílio e depois a perda da Guerra de Sucessão de Espanha levam a essa situação caricata, em que Espanha e Portugal passaram a favorecer mercadores e financeiros estrangeiros. Os espanhóis muito dependentes dos franceses, os portugueses muito dependentes dos ingleses. Portanto, a situação dos cristãos-novos mostra como a repressão de uma minoria tem custos. Portugal empobreceu devido à repressão de uma minoria. E isso vê-se. Para mim é claro que a conquista de Salvador da Bahia pelos holandeses em 1624 resultou da repressão sobre os cristãos-novos que tinha ocorrido uns anos antes, com uma visita da Inquisição. Mais tarde, no princípio do século XVIII, a Inquisição deixa de ter cristãos-novos ricos para perseguir em Portugal e vira-se para o Brasil, onde muitos deles tinham encontrado refúgio. A repressão a sério da Inquisição no Brasil começa verdadeiramente aí. E isso também está por trás da conquista do Rio de Janeiro pelos franceses, porque não havia dinheiro para pagar a defesa. Portanto, o país sofreu e ficou exangue com a repressão dos cristãos-novos. É um caso claro em que a cegueira racista – ainda há um certo prurido em falar de racismo antes do século XIX, mas eu não tenho esse prurido – prejudicou imensamente o país.
Tem em mãos um projeto de investigação sobre a cultura material dos cristãos-novos. Diz respeito aos produtos em que eles negociavam, ou mesmo, por exemplo, àquilo que tinham em suas casas?
Parte do projeto vai tratar das casas dos cristãos-novos mais ricos, e como eles usaram as suas casas senhoriais e palácios urbanos como montra. Os ingleses dizem showroom. Há o caso dos Ximenes, que tinham vários ramos, um estava em Antuérpia, outro estava em Florença, havia um ramo também em Lisboa, onde criaram uma capela na Igreja dos Dominicanos, que têm essa reputação de serem contra os cristãos-novos [risos]. A Christine Göttler estudou os Ximenes em Antuérpia e fez um website sobre eles, a partir dos inventários de bens. O que eu vou tentar fazer com outros casos é recuperar os inventários de bens, ver o que tinham, ver as coleções de arte, ver que tipo de ações desenvolviam. Não sei se conhece a marca italiana de roupa Max Mara.
Conheço, pois.
A Max Mara tem a flagship, a loja mais importante, na Via Condotta em Roma, a poucos metros da Praça de Espanha. A loja da Max Mara é uma fração de um quarteirão inteiro que no século XVII era propriedade de Francisco Nunes, um cristão-novo de origem portuguesa e uma das pessoas mais ricas de Roma, que criou o Palácio Núñez-Torlonia. Era um quarteirão central, enorme. Mas há outros casos de financeiros internacionais, não só de origem portuguesa, como de origem espanhola, que tiveram um papel importante. E, depois, quero perceber como é que eles criaram o mercado para o lacre, por exemplo, que tem uma difusão muito grande na Europa, como é que criaram o interesse pelos pigmentos de tinturaria para os têxteis e para a pintura, como é que exportaram o cochinil [cochonilha] do México para a Europa, como exportaram o índigo da Índia e da América Central para a Europa. Refiro alguns destes aspetos no livro, mas não trabalhei sobre a cultura material a sério, porque o propósito era mais entender a dinâmica social e os contextos de ascensão e declínio dos cristãos-novos. Fiquei com a ideia de que tinham um papel único devido a esta horizontalidade intercontinental, devido a manipularem e terem conhecimentos enormes sobre materiais preciosos em vários continentes. Na Índia temos o exemplo de um cristão-novo, Álvaro Mendes, que arrendou uma mina de diamantes em Golconda [Sul da Índia], nada menos. Estavam em todos os comércios internacionais. E ainda no açúcar, no tabaco…. portanto, há muitas áreas em que eles estão envolvidos e desenvolvem uma perícia própria. Atualmente estou muito interessado no problema das madeiras exóticas, porque é uma área em que é preciso ter conhecimento, é preciso encontrar a origem e reconhecer a qualidade das madeiras, e depois transportar e ter mercados onde colocar este tipo de produtos.
Gostaria agora de pedir-lhe a opinião sobre uma questão que tem gerado uma discussão acalorada tanto nos meios académicos como no espaço público. Figuras históricas que durante muito tempo eram vistas como heróis hoje são consideradas pouco mais do que assassinos e vilões. Enquanto especialista na História da Expansão, acha que faz sentido as visões serem assim tão extremadas?
Penso que temos que compreender os mecanismos da Expansão, os mecanismos de encontro e de domínio de outros povos, e fazer uma análise de tudo o que se passou. Não devemos ter tabus, devemos ultrapassar aquela visão muito elementar e muito primária dos heróis do passado. Houve uma expansão na qual muitos portugueses participaram porque não havia capacidade no país para alimentar e para dar condições de trabalho dignas a essas pessoas, esse é o ponto fundamental. Em História, não tenho uma posição de juízo de valor: as pessoas emigraram porque tinham que emigrar, porque não tinham condições de vida no país que lhes permitissem ficar. Aliás, como aconteceu com a emigração brutal dos anos 60 de Portugal para a Europa. Portanto, o grande problema do país é criar estruturas que permitam condições de vida dignas para a população. Para mim, o grande problema da História é compreender os movimentos de fundo e compreender o que está por trás deles. É evidente que há aqui também uma análise crítica de um país que em certos momentos históricos não foi capaz de criar as estruturas necessárias para reter as pessoas e para lhes dar condições de vida. Devemos ter uma visão abrangente, porque a Expansão teve uma dimensão científica que contribuiu para a acumulação e para o desenvolvimento de conhecimentos. Mas também tem o lado brutal, o lado de violência, o lado de dominação de populações locais, que não pode ser ignorado. Assim como a Guerra Colonial. Não penso que seja útil condenar as pessoas que lá estavam. Foram porque não tiveram condições de vida em Portugal. Por outro lado, não podemos ignorar a situação de discriminação e de exploração que foi imposta às populações locais. Para mim, a História não é um tribunal, mas é um ponto de análise das condições que fazem com que haja processos de Expansão, com que haja processos de dominação, e das consequências nuns e noutros. E aí temos que ter uma visão crítica, que não alimente projetos políticos. O que eu vejo é que, quando se fala do passado heroico, há um projeto político de nostalgia colonial que, a meu ver, está completamente deslocado. Estamos num processo histórico pós-colonial e a mobilização de uma nostalgia colonial é completamente descabida, porque vai criar becos sem saída.
Angola celebrou há poucas semanas 50 anos de independência. Referiu a situação de subjugação e exploração da população nas colónias, mas o resultado deste meio século de independência também não parece ser muito brilhante.
Temos uma situação em que há um passado colonial que não podia subsistir, portanto deu-se a descolonização. O problema de Portugal foi o de persistir numa situação que os outros países europeus já tinham sido forçados a abandonar.
Nenhuma potência cedeu as colónias de livre vontade.
Mas havia uma experiência de descolonização que já estava em curso, sabia-se qual era o resultado. Portugal persistiu e criou-se um paradoxo, que foi o regime apelar para uma ida para as colónias justamente nos anos 60, quando os outros países europeus já estavam a descolonizar. Foi uma estratégia criminosa que criou as condições para a descolonização que aconteceu. Em relação ao resultado, uma coisa é terminar com posições coloniais, outra coisa é o que se passa depois nos países independentes. E isso é a vida deles, são eles que têm que tomar em mãos o seu próprio destino e discutir os problemas estruturais que têm. Não há situações ideais de todo e algumas são bastante dramáticas. Temos agora uma guerra no Sudão, por exemplo, de que ninguém fala, mas que tem produzido muito mais mortos do que em qualquer outra parte do mundo.
Inaugurou recentemente aqui em Lisboa a exposição Complexo Brasil. Não sei se está a par da discussão…
Mais ou menos. Diga.
A exposição é acompanhada por um livro com textos de reflexão. Num desses textos, a jornalista brasileira Eliana Brum escreve o seguinte: «O que os homens portugueses começaram a fazer aqui [no Brasil], tão logo colocaram as suas botas e os seus corpos infetados no ventre da areia das praias, seus pénis sifilíticos nas vaginas das mulheres originárias, foi construírem ruínas…». Concorda com esta visão de que os colonizadores portugueses só semearam violência e destruição por onde passaram?
É uma frase de uma jornalista que, num catálogo, não me perturba minimamente. Tem todo o direito de dizer o que pensa. Há uma longa tradição de discussão da equivalência entre domínio colonial e abuso sexual. A própria Paula Rego produziu uma série de quadros sobre isso. Tem a ver com uma tradição que vem dos anos 70, 80. Não me perturba minimamente que a jornalista tenha escrito essa frase. O problema é tirar estas frases de contexto e depois explorá-las e gerar uma indignação enorme quando se sabe perfeitamente – e não estou a dar razão à jornalista – que existiu abuso. Pode falar-se do problema de uma maneira mais contextualizada, e abusos existiram em vários sentidos, mas não vou estar a diabolizar a jornalista pelo que escreveu.
Não leve a mal se insisto neste ponto. Há outro autor, nesse mesmo livro, que acusa a poesia de Pessoa ser «racista latente». Gostaria de comentar?
O Fernando Pessoa pode ser visto de todas as maneiras e feitios. A grande qualidade de um poeta de enorme expressão e de enorme capacidade é que pode ser puxado para vários sentidos, porque a poesia, quando é mesmo muito boa, é polissémica. E, portanto, pode haver várias interpretações. Eu agora tenho estado mais à volta do Camões, e estou a escrever um pequeno livro sobre a anti-épica na cultura portuguesa. Camões tem muitas reflexões críticas, muitas, mesmo n’Os Lusíadas, que é a grande obra épica. O Jorge de Sena, o Hélder Macedo e outros autores falaram disso. Todos estes grandes autores têm aspetos que são críticos, mas para mim o mais importante é ultrapassar a versão Estado Novo de uma visão de heróis e de um passado impoluto que nunca existiu. É uma visão completamente inventada. Quando os portugueses estavam em pleno processo de Expansão, houve vozes críticas desde o início. E é esta capacidade crítica que eu penso que deve ser salientada, porque é estrutural da maneira de ser portuguesa. Estamos a falar de um país que tem várias sensibilidades, que tem uma pluralidade de maneiras de ser, mas o sentimento crítico esteve sempre presente de uma maneira estrutural no caso português.
Uma última questão. Ocupa a cátedra Charles Boxer [1904-2000, historiador britânico que serviu nos serviços secretos durante a II Guerra Mundial, foi feito prisioneiro pelos japoneses e mais tarde veio a ocupar a cátedra Camões no King’s College]. Por acaso, não chegou a conhecê-lo ou a cruzar-se com ele?
Cheguei a conhecê-lo, cruzei-me com ele nos seus últimos anos de vida. Curiosamente, numa sessão de homenagem ao Vitorino Magalhães Godinho. E estou muito confortável na cátedra de Charles Boxer, porque aprendi muito com os livros dele. Digamos que a minha aprendizagem sobre a Expansão portuguesa deveu muito ao Magalhães Godinho e ao Charles Boxer. Têm visões diferentes, como é evidente. Mas presto homenagem ao trabalho enorme que eles fizeram e à aquisição de conhecimentos que eles fizeram e que nos permite, hoje em dia, ter uma visão mais crítica e avançar para outro tipo de problemas e para outro tipo de pesquisas.
Boxer tem uma vida interessantíssima, bastante aventureira.
Ele estava colocado na parte de intelligence das forças armadas britânicas e teve uma vida bastante em linha com esse tipo de atividade. Aprendeu japonês e tinha uma capacidade para línguas fora do vulgar, dominava também o holandês e o português. Aliás, vinha a Portugal regularmente. Tem estudos sobre a Ásia, sobre os portugueses na Ásia, no Brasil e em África – um conjunto de obras que é notável e atravessa todo o império. E depois era um colecionador de manuscritos. Foi ele que encontrou o célebre Códice Boxer, compilado em Manila cerca de 1595 e só publicado em 2016. Utilizo muito esse manuscrito nas minhas aulas porque é feito num encontro entre a visão europeia e a visão asiática, portanto revela todo esse cruzamento de experiências. E contribui para perceber como a China partilhava uma série de ideias comuns com a Europa.