terça-feira, 10 fev. 2026

‘Retrocesso civilizacional’

Nem só de economia e do seu crescimento se faz a vida de uma sociedade, de uma pessoa

A discussão que se tem travado em torno do ‘pacote laboral’ corre o risco de conduzir a reflexão que a sociedade deve fazer sobre ele a uma repetição de argumentos absurda, pois sustentada em lógicas, preocupações e valores ontologicamente diferentes.

De um dos lados, tem sido dito e repetido o argumento de sempre: o necessário aumento da produtividade para que a maior riqueza produzida possa ser mais bem distribuída.

Em troca do contributo que as medidas do dito ‘pacote’ irão dar ao crescimento da economia, prometeu-se, logo, um mundo doce de mel e leite para todos.

Trata-se do ‘argumento económico` cujo resultado, porém, nenhum economista mais liberal ou mais socializante foi até hoje, com seriedade, capaz de afiançar.

Não é por haver mais riqueza que esta será mais justamente distribuída.

Pode distribuir-se mais justamente uma menor riqueza e permitir, assim, que os que trabalham vivam melhor.

A produtividade e a melhor distribuição da riqueza não são corolário uma da outra.

Pode até dizer-se que aumentando a riqueza geral todos passarão a ganhar mais.

O acréscimo da tal riqueza geral resultou, porém, apenas, de os trabalhadores terem dado horas de trabalho gratuito ou pior remunerado ao empresário.

O ´esforço suplementar` exigido ao trabalhador não foi, neste caso, proporcionalmente retribuído.

Na melhor das hipóteses, de acordo com o ‘pacote’, tal acréscimo de esforço foi pago de igual maneira que o trabalho produzido no que, ainda hoje, se admite ser um horário humanamente aceitável: um horário civilizado.

Ora é aqui que as organizações dos trabalhadores clamam conscientemente que se trata de um ‘retrocesso civilizacional’. É que a vida dos homens e das mulheres não se pode submeter apenas aos desígnios da economia.

Nem só de economia e do seu constante crescimento (em favor de uns poucos) se faz a vida de uma sociedade, de uma pessoa.

Nem só do aumento de uma riqueza que continua injustamente distribuída, mesmo quando acresçam mais uns cobres nos bolsos de quem trabalha, se faz a felicidade de um trabalhador e da sua família. 

A vida de um homem e a sua plenitude não se preenchem apenas com mais ou menos dinheiro, mesmo que este, apesar de mal distribuído, possa, por vezes, evitar, ainda assim, o infortúnio da miséria que se lhe oferece em alternativa.

O tempo que o homem pode, por si, desfrutar e o que, com ele, a família e os amigos podem usufruir, partilhando a espiritualidade, a cultura, o desporto e a festa, podem e devem completar a sua vida.

Na sua redução, supressão e consequente sobre-exploração, a insatisfação gerada.

É a consciência do nível do descontentamento dos que fizeram e dos que não puderam fazer greve, que levou os populistas a virar rápido o bico ao prego e, vocalmente, a colocarem-se agora na linha da frente dos descontentes.

Que os social-liberais e os neoliberais de todos os matizes não tenham dado conta dele é apenas sinal de que a sua leitura do mundo não acompanha o grau de civilização que a maioria dos cidadãos já adquiriu.

Recordemos que entre os descontentes que não puderam fazer greve contam-se os imigrantes, legais e ilegais, empregados em restaurantes, em balcões de lojas, em cabeleireiros, em estaleiros de obras, em distribuidoras de comida a casa.

A participação na greve custa a quem a faz o preço de um dia de trabalho e para um trabalhador precário que a fizer pode, a mais breve ou longo prazo, custar mesmo o emprego.

Foi por o 25 de Abril ter proporcionado aos trabalhadores a possibilidade de compreenderem cabalmente o afastamento da civilização a que o antigo regime os condenara que muitos detestam tal data e o que, verdadeiramente, ela significou para os portugueses.