quarta-feira, 11 fev. 2026

2026: Cenários e riscos dos mercados financeiros

Bolsas norte-americanas, tecnológicas, ouro, petróleo, café ou cacau. O que esperar no próximo ano?
2026: Cenários e riscos dos mercados financeiros

À medida que os mercados se aproximam do final de 2025, os investidores entram em 2026 com um cenário marcado por fortes ganhos em alguns ativos, correções noutros e um elevado grau de incerteza macroeconómica, monetária e geopolítica.

A concentração das bolsas norte-americanas nas grandes tecnológicas, o papel central da inteligência artificial, a procura por ativos de refúgio e a volatilidade das matérias-primas deverão continuar a definir o comportamento dos mercados no próximo ano.

Para Ricardo Evangelista, CEO da ActivTrades Europe, e Henrique Valente, analista da mesma instituição, 2026 será um ano de transição, no qual os investidores passarão a exigir resultados mais concretos, tanto das empresas como das narrativas que sustentaram os mercados nos últimos anos.

Bolsas dos EUA: dependência das tecnológicas aumenta riscos

Segundo Henrique Valente, a evolução das bolsas norte-americanas continua fortemente dependente de um número reduzido de empresas tecnológicas. “A bolsa norte-americana continua fortemente dependente do desempenho das grandes tecnológicas, que têm sustentado os principais índices nos últimos anos”, afirma.

O peso crescente destas empresas nos principais índices tornou a narrativa da inteligência artificial um pilar essencial para o mercado. “O peso crescente destas empresas no S&P 500 e no Nasdaq fez com que a narrativa da inteligência artificial funcionasse como principal suporte do mercado, compensando dúvidas sobre crescimento económico, taxas de juro e riscos geopolíticos”, explica.

No entanto, esta concentração representa também uma vulnerabilidade clara. “Esta concentração torna o mercado mais sensível a qualquer desilusão no setor tecnológico”, alerta Henrique Valente, sublinhando que, caso a IA não se traduza em ganhos efetivos, “o impacto irá além das tecnológicas, podendo pesar de forma mais ampla sobre os índices, sobretudo num contexto de avaliações exigentes e de maior cautela por parte dos investidores”.

Inteligência artificial: o ano da prova de fogo

Depois de sustentar receitas e valorizações em 2025, o setor tecnológico entra em 2026 sob maior escrutínio. “O setor tecnológico norte-americano tem sido dominado pela inteligência artificial, que em 2025 sustentou receitas e valorização em bolsa”, refere Henrique Valente.

Apesar de o crescimento ter sido suportado pela cloud, publicidade e infraestrutura de IA, o mercado começa agora a exigir resultados mais palpáveis. “Em 2026, o desafio será claro: as tecnológicas precisam de provar que o investimento em IA gera retornos reais”, afirma.

O analista alerta ainda para sinais de maturação tecnológica. “As versões mais recentes dos modelos de linguagem em grande escala têm mostrado ganhos cada vez mais limitados e, até agora, os ganhos de eficiência foram modestos face ao capital investido”. Sem avanços relevantes, cresce o risco de pressão financeira. “O risco de pressão sobre margens e de compressão dos múltiplos aumenta, num ambiente de concorrência mais intensa e maior escrutínio regulatório”.

Ouro: refúgio continua a brilhar em 2026

O ouro caminha para fechar 2025 com uma valorização superior a 60%, num movimento impulsionado por fatores políticos e económicos globais. “Sustentado por uma procura crescente por ativos de refúgio, resultante da turbulência geopolítica, de decisões políticas pouco convencionais em Washington e da incerteza económica”, o metal beneficiou também da fraqueza do dólar, explica Ricardo Evangelista.

Apesar dos ganhos expressivos, o responsável mantém uma visão construtiva para 2026. “A perspetiva para 2026 permanece positiva”, afirma, acrescentando que “espera-se que a procura por ativos de refúgio se mantenha elevada e que o dólar norte-americano sob pressão”.

Ainda assim, alerta para riscos que podem travar o movimento. “Os investidores deverão estar atentos a potenciais fatores adversos, incluindo uma postura menos acomodatícia da Reserva Federal do que atualmente antecipado”, bem como “um aumento do apetite pelo risco nos mercados acionistas”.

Petróleo: excesso de oferta limita recuperação

No mercado energético, o petróleo termina 2025 com quedas superiores a 20%. Segundo Ricardo Evangelista, a principal razão foi “um excesso de oferta a nível global, impulsionado pelo aumento da produção dos países da OPEP+ e dos Estados Unidos, bem como por um abrandamento da procura mundial provocado pelo choque das tarifas”.

Este cenário deverá prolongar-se em 2026, embora existam sinais de estabilização. “Previsões recentes da Agência Internacional de Energia apontam para um aumento da procura global e para um crescimento da oferta mais lento do que anteriormente antecipado”, o que poderá “limitar o potencial de queda do preço do barril”.

Café: normalização com volatilidade à vista

Depois de máximos históricos no início de 2025, o mercado do café entrou numa fase de correção. Henrique Valente recorda que os preços foram sustentados por “inventários reduzidos e risco climático no Brasil”, com a arábica a atingir “cerca de 4,39 dólares, um máximo histórico”.

A partir da segunda metade do ano, o cenário começou a inverter-se. “O mercado começou a antecipar uma normalização da oferta”, refere, apontando para previsões do USDA de “uma produção mundial recorde, de 178,7 milhões de sacas”.

Para 2026, o cenário base é mais moderado. “O cenário base aponta para preços abaixo dos extremos registados no início de 2025”, embora o mercado continue vulnerável, já que “com os inventários globais limitados, o mercado continua vulnerável a episódios de volatilidade, sobretudo perante novos choques climáticos no Brasil”.

Cacau: preços mais baixos, mas risco climático persiste

No cacau, 2025 foi marcado por uma correção após níveis históricos. “Os preços do cacau começaram 2025 nos níveis mais altos de sempre, mas perderam força ao longo do ano”, explica Henrique Valente.

A normalização resultou de uma combinação de menor procura e resposta da oferta. “O mercado entrou num processo de normalização: a procura cedeu, a oferta começou a reagir”. Os dados confirmam o abrandamento: “Na Europa, as moagens caíram 7,2%. Nos EUA, a descida foi de 2,8%. Na Ásia, a quebra foi bem mais acentuada, de cerca de 16%”.

Para 2026, a expectativa é de continuação da correção. “O cenário base aponta para preços mais baixos, com uma normalização sustentada por procura condicionada, oferta mais favorável”. Ainda assim, o analista alerta que “o clima continuará a ser o fator crítico e qualquer choque meteorológico pode reintroduzir volatilidade”, sobretudo num mercado onde “grande parte do cenário de descida já parece refletida nos preços”.