Em princípio, não se deve matar pessoas.
Está escrito em todas as religiões, faz parte do senso comum e é fundamental para se poder ir de férias à vontade. No entanto, a aplicação deste imperativo moral aos judeus é mais complicada. Isto, porque no século passado havia cientistas alemães que garantiam que aquela gente de cabelos encaracolados e narizes aduncos não era gente. E grandes pensadores como o Mufti de Jerusalém, Hajj Amin al-Husayni, tinham a certeza absoluta de que os judeus não pertenciam à raça humana. Além disso, neste século há cada vez mais pessoas a pensar algo semelhante em relação a este grupo étnico: não são bem gente; são uma espécie de gente estranha e mal-intencionada; vieram ao mundo para causar desgraça aos outros. Logo, na dúvida, é legítimo dar-lhes um tiro ou explodi-los com umas bombas. E apenas estas soluções são aceitáveis porque está na moda defender os direitos dos animais e é considerado desumano usar gás para exterminar pragas. Em Portugal o PAN, em princípio, seria contra o uso de gás contra judeus.
Todavia, isto de matar judeus complica-se ainda mais pela razão de que pode haver judeus que, volta e meia, se sintam seres humanos. Ora, se há homens que se sentem mulheres quando estão na cadeia, mulheres que se sentem homens em liberdade e gatos que sentem que estão vivos e mortos ao mesmo tempo, temos de aceitar que alguns judeus poderão realmente sentir-se pessoas como nós. A Identidade de Género Judaica é um assunto pouco estudado. No entanto, como estamos num século onde alguém sentir-se ofendido é mais importante do que qualquer tragédia humanitária não causada pelos judeus, é preciso ter-se cuidado para não se ofender a sensibilidade de elementos deste grupo étnico que se possam sentir pessoas. Inclusão é isso mesmo: cabe lá toda a gente, todos os animais, e até os judeus que se possam sentir pessoas.
Por exemplo, um judeu cisgénero sente-se perfeitamente judeu; um judeu transgénero quer ser uma pessoa; e um judeu não-binário não quer ser judeu, nem pessoa ou quer ser as duas coisas ao mesmo tempo. Logo, em qual deles damos um tiro? Obviamente que o judeu cisgénero pode ser abatido, mas o que fazer aos outros dois? Atirar-lhes apenas com pedras? Empurrá-los para o mar e esperar que, como as bruxas de antanho, soubessem, ou não, nadar?
Como se vê, com os judeus nada é fácil e eles nunca facilitam a vida a quem apenas lhes quer dar um tiro.
Veja-se o caso daquele pai e filho que decidiram ir à caça aos judeus num belo dia de sol. Encontraram-nos numa praia, a celebrar uma daquelas festas estranhas que acabam sempre aos pinotes, o pai ensinava o filho a fazer pontaria, o filho abatia um, depois outro, pum, pum, estava tudo a correr bem e, no final, dá-se uma tragédia familiar por culpa dos judeus.