sexta-feira, 06 fev. 2026

Quando a escola deixa de cuidar

Poucos gostam da Escola tal como está: não só os alunos, mas também os docentes, o pessoal não docente e até os pais

Nos últimos anos temos assistido a um aumento histórico dos casos de alunos com necessidades educativas especiais no nosso país. Seja por estarmos mais atentos, seja porque o diagnóstico é feito mais precocemente, ou por outros fatores, a verdade é que a resposta das escolas está longe de acompanhar esta tendência.

Quando os pais de uma criança que precisa de um apoio mais individualizado procuram uma escola capaz de acolher e responder adequadamente às suas necessidades, sentem-se muitas vezes sozinhos e angustiados. Dependendo da zona onde residem e das características da criança, pode ser praticamente impossível encontrar uma escola adequada. A maioria das escolas privadas prefere manter o leque restrito aos bons alunos, e as escolas públicas não conseguem dar resposta a todos os casos, especialmente quando as necessidades são muito diversas.

São poucas as escolas que dispõem de professores de ensino especial ou de técnicos especializados em número suficiente. Como consequência, há alunos com apoio escasso ou mesmo inexistente, enquanto os profissionais se desdobram, sobrecarregados, esgotados e pressionados, para fazer o trabalho de dez ou vinte, sucumbindo, cada vez mais, a esgotamentos e a baixas médicas.

Perante esta incapacidade de resposta que não permite a muitos alunos corresponderem às expectativas de um currículo regular, muitos pais são aconselhados a considerar as medidas adicionais como alternativa, mesmo quando o aluno tem potencial, se devidamente acompanhado, para se manter nas medidas seletivas. Esta decisão não só não potencia as capacidades reais da criança como pode mesmo comprometer o seu futuro académico, pessoal e profissional, dificultando o acesso ao ensino superior ou a cursos profissionais. Além disso, tem implicações emocionais sérias, como a perceção acentuada da diferença, sentimentos de incapacidade e frustração, ansiedade e redução da autoestima.

É muito triste e grave assistir a este desinvestimento e aceitar com naturalidade as consequências que podem ter na vida de cada aluno, que se confronta diariamente com as suas fragilidades sem receber o apoio adequado. Todos os alunos deviam ser apoiados na sua singularidade, podendo explorar as áreas em que têm maior aptidão e usufruir de um sistema educativo mais aberto, flexível e atento.

Uma vez uma professora chegou ao ponto de me dizer que ‘a escola não é para gostar’. Aquela frase incomodou-me profundamente. Felizmente, a maioria dos professores não pensa assim, mas a verdade é que poucos gostam da Escola tal como está: não só os alunos, mas também os docentes, o pessoal não docente e, muitas vezes, os pais. Vive-se um descontentamento generalizado, alimentado pela falta de valorização, reconhecimento e cuidado. Onde há excesso de burocracia, rigidez nos métodos e uma gritante falta de recursos humanos. Onde resta pouco espaço, tempo e energia para aquilo que deveria ser a prioridade: cuidar.

E, quando a escola deixa de cuidar, deixa também de reconhecer cada aluno como sujeito, abrindo um risco claro de poder transformar-se num espaço onde o potencial se perde e o sofrimento se instala em silêncio.