Você decide visitar um país. É um país pequeno, fica longe, a muitas horas de voo, e você tem uma vaga ideia de que é um país na moda. Faz uma pesquisa e, uau!, é bonito e barato, lá nasceu o melhor jogador de futebol do mundo, acaba de ser eleita a economia do ano e diz que tem praias lindas e uma bela pastelaria. Faz as malas e parte, voa durante a noite, ao raiar do dia está a ver Lisboa tão de perto que a asa do avião ameaça roçar os telhados mais altos, aterra e… fica mais de três horas de pé numa fila à espera de mostrar o passaporte, chega ao tapete das malas e elas já lá não estão, os miúdos atazanam-no com uma birra insuportável, mete-se num falso táxi que lhe leva 400 dólares para fazer dez quilómetros até ao hotel, entra no quarto exausto e encontra uma mensagem na televisão: «Welcome to Portugal! Taxa turística: 4€ por dia».
Não sei quantos americanos já passaram por isto. Nem quantos turistas, migrantes, expatriados, nómadas digitais, trabalhadores do comércio internacional, potenciais investidores estrangeiros e outros visitantes extra-comunitários foram assim recebidos. Mas esta é uma rotina frequente no aeroporto de Lisboa, uma infraestrutura velha, antiquada, esgotada, que foi crescendo para os lados, com péssimos serviços no controlo interno e péssimo controlo nos serviços externos. Não há ninguém que não concorde com isto, incluindo a ANA e o Governo. Não há ninguém que assuma a responsabilidade, incluindo a ANA e o Governo. Não há ninguém que resolva, incluindo a ANA e o Governo.
Um aeroporto é das infraestruturas mais complexas de gerir, porque agrega múltiplos serviços de múltiplas empresas, desde transporte aéreo, polícia e alfândegas, comércio e alimentação, manutenção, bagagens, etc. Mas essa gestão é eficaz mais ou menos na Europa toda. Em Portugal, é uma desgraça, agravada pela saturação perante um turismo que cresceu muito e depressa.
O que fazer? Dar um murro na mesa e tomar decisões. Foi o que fez o ministro da tutela dos transportes, Miguel Pinto Luz, em outubro, prometendo resolução em duas semanas. Dois meses depois, tudo na mesma, até porque a sua colega da Administração Interna nem murro nem mesa nem nada: o então criado grupo de trabalho agrupou-se e trabalhou… debalde. Talvez tenha sido o colega das Finanças que não autorizou o cheque para contratar mais polícias. Lá está: muitos serviços, muitas empresas, muitos ministros.
Esta semana, a ministra Maria Lúcia Amaral assumiu a falta de presteza, partilhou-a com vários serviços e deu a explicação técnica que faltava: «o servidor, por momentos, pifou». A malta riu-se, mas só porque é melhor rir do que enfurecer.
Individualizei os americanos pelo peso que hoje têm (e antes não tinham) no turismo: são cada vez mais, ficam muitos dias, têm muito poder de compra e gastam bem, deitam-se relativamente cedo e gostam de bom serviço. Ter um aeroporto sem polícias suficientes nas caixas de entrada e com máquinas de controlo automático avariadas é mais um sinal de crescimento descontrolado do turismo, mas é também um atestado de incompetência política e de burrice económica. Se deixarmos de ter crescimento a partir dos Estados Unidos, a responsabilidade será nossa.
Mas ‘nossa’, de quem? Quando não manda ninguém, manda o Governo. Sim, ‘o servidor pifou’, o servidor informático e o servidor público. Aliás, a frase da ministra é tão boa que devíamos imprimi-la em t-shirts, em português e em inglês. E deixá-la de lembrança à saída do hotel daquele turista americano, depois de pagar a conta e antes de se enfiar num táxi rumo às partidas do aeroporto: «I went to Portugal and the server pifou».