O maior impacto da greve geral resultou, em larga medida, da perceção que foi amplificada por alguma comunicação social. Quem viu as televisões, pôde assistir a diretos sucessivos em que nos tentaram convencer de que o país estava parado. Já quem, no dia seguinte, leu os jornais foi confrontado com uma realidade paralela, que não correspondia ao que tinha vivenciado nas estações televisivas.
Na verdade, quem esteve em greve foi o Estado nas suas múltiplas vertentes. Com impacto sério nos serviços públicos: nos transportes, escolas, hospitais e infindas repartições. E, como o dia seguinte ao da greve geral era uma sexta-feira, os funcionários públicos cuidaram de fazer ‘ponte’ e mantiveram a perturbação até ao fim de semana. O resto do país trabalhou e acomodou-se à falta de serviços públicos. Até porque já está habituado e treinado para se ajustar às frequentes greves da ‘casta superior’.
A esquerda rejubilou com o sucedido e, sobretudo, com a cobertura jornalística, que potenciou o impacto da greve. Como de costume, os serviços mínimos decretados não serviram a ninguém, porque a arbitragem é sempre inclinada para a oferta e ignora a procura e os seus direitos.
Demonstrou-se, pelas declarações das suas cúpulas, que as duas centrais sindicais não são, hoje, tão diferentes entre si como já foram no passado. Tudo isto porque têm de dividir as sobras. A taxa de sindicalização em Portugal está em mínimos históricos: é absurdamente baixa no sector privado, com exceção das empresas de Lisboa e Vale do Tejo, a antiga ‘cintura’, que em larga medida vivem dos negócios com o Estado ou de subsídios.
No resto do país, a influência dos sindicatos é mínima nos vários setores produtivos, com exceção dos funcionários do sector público. Estes trabalhadores têm, de facto, uma situação de claro privilégio. São uma casta protegida pelo regime, com um estatuto diferenciado. Desde logo, porque o seu posto de trabalho é imune a qualquer risco.
Um trabalhador de uma têxtil no Vale do Ave pode ter um vínculo de dezenas de anos com o seu empregador, mas percebe que a sua situação laboral depende da viabilidade da empresa. Um trabalhador da CP, pelo contrário, sabe que o seu posto de trabalho está sempre garantido, apesar dos eternos e sucessivos prejuízos da empresa. O primeiro esforça-se por cumprir a sua função, ao segundo tanto lhe faz. O primeiro sabe que a empresa precisa de ter qualidade e de satisfazer os clientes e tem consciência do seu papel nessa equação, coisa que, para o segundo, é totalmente irrelevante, porque é inamovível.
É esta a nossa realidade, o que explica que tenhamos serviços públicos de péssima qualidade. Até porque o modelo que interessa aos sindicatos privilegia a antiguidade e é contrário ao reconhecimento do mérito.
Independentemente do pacote laboral, que tem coisas boas e coisas más, o que interessa às centrais sindicais é garantir que a sua casta é capaz de se mobilizar preventivamente. Mesmo quando, como é o caso, se trata de combater um pacote que nem sequer toca nos seus interesses instalados. Até porque as centrais sindicais sabem que contarão sempre com toda a oposição, sejam os amigos da esquerda, seja o Chega. Nesta matéria, o partido de Ventura é e será sempre amigo, porque depende de um eleitorado que já foi de esquerda e porque tem uma visão estatizante – como é, aliás, tradição dos partidos radicais, que são autoritários e iliberais também na economia.
É por isso que tudo ficará na mesma. Continuaremos a pagar um Estado bolorento e serviços públicos preguiçosos, absentistas e sem qualidade. Um Estado onde somos utentes-pagadores, quando devíamos ser vistos e tratados como clientes.
É bom, ainda assim, que a divisão de águas fique clara. Até para quem aplaude, vota e financia o Chega.