María Corina Machado: o rosto da oposição venezuelana

“O medo não tem lugar no coração de um povo que escolheu ser livre”, disse María Corina Machado à Forbes em março de 2024. “Que o medo tenha medo de nós – porque juntos somos imparáveis, e a hora é agora”. Hoje, parece que, de facto, o medo mudou de lado
María Corina Machado: o rosto da oposição venezuelana

O regime venezuelano está por um fio. Nicolás Maduro, sucessor de Hugo Chávez, está no poder há mais de doze anos. Ao longo desta última década, que foi uma continuidade da política de Chávez, todos os dados apontam para a escassez, a repressão, a criminalidade e a emigração em massa, com cerca de sete milhões de venezuelanos a abandonarem o país dotado das maiores reservas de petróleo do mundo.

A pressão sobre o regime tem subido de tom. Em 2019, Juán Guaidó foi eleito presidente da Assembleia Geral e, por ter considerado as eleições presidenciais de 2018 ilegítimas, a oposição venezuelana afirmou que a presidência estava vacante. Assim, seguindo a constituição, Guaidó tomou posse como presidente do país, apoiado por mais de cinquenta países, dos quais se destaca naturalmente os Estados Unidos. Todavia, Maduro conseguiu resgatar o poder e o destino de Guaidó acabou por ser o inevitável exílio.

Mas 2024 pode ter sido o ano definidor. A oposição venezuelana, encontrando respaldo na maioria do seu povo, fez emergir uma nova líder: María Corina Machado. Impedida de concorrer às eleições e obrigada a uma constante clandestinidade, Machado fez avançar Edmundo González que acabou por vencer nas urnas com uma esmagadora maioria. Mas, claro, Maduro reivindicou a vitória e manteve-se agarrado ao poder. No entanto, 2024 foi palco de mais um evento importante: Donald Trump foi eleito como presidente dos Estados Unidos. A intenção de Trump de reavivar a Doutrina Monroe é evidente e a reconfiguração do hemisfério ocidental assumiu novos contornos. 

Corina e o Nobel

E se a pressão exercida pelo executivo americano é o fator crucial para enfraquecer Maduro com hard power, outro acontecimento confere à resistência venezuelana um imprescindível soft power: María Corina Machado foi a vencedora do Prémio Nobel da Paz de 2025 «pelo seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos do povo da Venezuela e pela sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia». «Meu Deus… Não tenho palavras», foi a primeira reação da política venezuelana quando lhe foi comunicado que havia vencido um dos mais prestigiados prémios internacionais. «Muito obrigado», continuou, «mas espero que compreenda que isto é um movimento. É uma conquista de toda a sociedade. Eu sou apenas uma pessoa. Certamente não mereço isto». «Sinto-me honrada e humilde. Estou muito grata em nome do povo venezuelano. Ainda não chegámos lá. Estamos a trabalhar muito para alcançar esse objetivo, mas tenho a certeza de que vamos vencer. E este é certamente o maior reconhecimento para o nosso povo, que sem dúvida o merece».

Assim, a política de cinquenta e oito anos natural de Caracas deixa de ser apenas a líder do Vente Venezuela – partido da oposição – e tornou-se na grande líder da alternativa ao regime tirânico de Nicolás Maduro, não só pelo prémio, mas também porque «desempenhou um papel central na união de uma oposição política profundamente fragmentada – uma oposição que se uniu para exigir eleições livres e um governo representativo», pode ler-se no website do Prémio Nobel. Machado criou, em 2002, a Súmate, uma organização que tem como objetivo promover eleições livres e justas e foi eleita para Assembleia Nacional em 2010, tendo sido afastada pelo regime em 2014.

Ao resgate da liberdade venezuelana

Alejandro A. Chafuen, economista argentino-americano e membro do conselho diretivo fundador da Fundación Internacional para la Libertad, diz à VERSA que conheceu Corina Machado no início do século, quando a agora líder da oposição venezuelana «liderava a Súmate, uma organização de educação cívica». Depois, continua, «passou para a política», onde tem levado a cabo um «trabalho constante, baseado em princípios, contínuo». Mas diz também que, depois de um encontro em Lima, Perú, em 2014, e devido à naturalmente complicada vida política de Machado, teve de esperar mais de onze anos por um novo contacto pessoal, desta vez em Oslo para «abraçá-la e felicitá-la».

Corina Machado é alvo de várias críticas. Deste leque destacam-se duas: a de que é uma reacionária e uma marionete dos Estados Unidos, tendo sido até chamada de «trumpista». Mas estas afirmações parecem chocar com a realidade no terreno. «Embora no início da sua carreira política María Corina parecesse uma conservadora talentosa, mas típica», diz Chafuen, «a sua aproximação às classes populares e, posteriormente, o seu esforço para ampliar o diálogo com outras forças permitiram-lhe conquistar o apoio da grande maioria dos venezuelanos». E se a relação com os Estados Unidos se encontra agora num inegável ponto alto, nem sempre foi assim. O caso mais evidente é o do apoio prestado pelos norte-americanos a Juan Guaidó em 2019: «María Corina e a sua equipa sentiram-se muito sozinhos quando os Estados Unidos apostaram em Juan Guaidó como presidente no exílio da Venezuela», diz o economista, porque Washington deu «todo o seu apoio a Guaidó e aos seus aliados mais próximos, e nada, ou quase nada, a outras forças opositoras». «Concentrar todos os esforços na sua estratégia preferida», explica Chafuen, é algo «frequente em muitas burocracias, como a do Departamento de Estado». Mas «Guaidó nunca contou com o apoio da maioria das forças conservadoras e liberais da Venezuela». 

Assim, Machado e a sua equipa, «sem o apoio dos Estados Unidos e dos fundos apreendidos, aceitaram o apoio modesto e a colaboração de várias organizações com pensamentos muito diversos, especialmente em questões sociais. María Corina Machado moderou a sua postura nessas questões, o que provocou críticas em setores mais conservadores». 

Mas esse episódio já passou à história e Corina Machado é indisputavelmente a grande figura da oposição Venezuelana e, para o amigo Alejandro Chafuen, a orgânica do seu pensamento está bem definida, ainda que, dada a sua popularidade, «os conservadores liberais das Américas estarão a competir com os liberais ‘progressistas’ da Europa e do resto do mundo, para aproximá-la dos seus campos»: «No campo da economia, que é o que mais conheço, María Corina apresentou programas económicos sólidos, alinhados com o liberalismo clássico. Em geopolítica, não tenho dúvidas de que ela se alinhará mais com o lado conservador dos Estados Unidos. Machado não mencionou Trump durante os seus discursos na Noruega, mas não descartou o seu apoio a uma eventual operação militar ou quase militar para derrubar o tirano usurpador e seus capangas». 

O ex-diretor internacional do Acton Institute diz que a recente viagem de Machado a Oslo assumiu os contornos de uma «odisseia de características cinematográficas», mas, no final do dia, que admira Corina Machado tem «o dever de apresentar as [suas] ideias e dar-lhe espaço a ela e à sua eventual equipa para escolher as melhores ideias e políticas para resgatar a Venezuela dos horrores de um regime criminoso». 

«Maria Corina Machado demonstrou que as ferramentas da democracia são também as ferramentas da paz», disse Jørgen Watne Frydnes quando anunciou o Nobel. «[Corina Machado] personifica a esperança de um futuro diferente, onde os direitos fundamentais dos cidadãos são protegidos e as suas vozes são ouvidas. Neste futuro, as pessoas serão finalmente livres para viver em paz».