domingo, 18 jan. 2026

Lando Norris. O campeão da laranja mecânica

Dois pontos bastaram para Lando Norris sagrar-se campeão mundial, numa corrida onde encontrou alguns ‘obstáculos’ e esteve sempre no fio da navalha. No momento da consagração, o jovem inglês admitiu que não tinha o ‘estilo típico’ dos campeões de Fórmula 1, mas o título assenta-lhe muito bem
Lando Norris. O campeão da laranja mecânica

Aos 26 anos, Lando Norris sagrou-se campeão do mundo de Fórmula 1 e terminou com o reinado de Max Verstappen. Teve a inteligência para aproveitar o seu talento num ambiente que lhe era favorável. A sua consistência e rapidez permitiram-lhe vencer sete grandes prémios, subir ao pódio 18 vezes e fazer sete pole positions ao longo da época. 

O inglês pode ser menos espetacular e não arriscar tanto quanto Max Verstappen, mas não mostrou fragilidades emocionais e superou as dificuldades. Tem um estilo muito cool, como ficou claro quando disse: «Odeio ter de me comparar com outros pilotos. Cabe a vocês [jornalistas] decidir se um é melhor do que o outro». A sua fama disparou com a série Drive to Survive, da Netflix, que deu uma visão mais aprofundada da sua personalidade fora dos circuitos.

Após seis temporadas na Fórmula 1 e 152 corridas – é o piloto da McLaren com mais grandes prémios disputados – tornou-se o 11.º britânico a ser campeão do mundo. Na corrida mais importante da sua vida, foi irrepreensível. Não correu o menor risco na partida e jogou da melhor forma com as paragens nas boxes. Na volta de consagração, chorou de forma quase descontrolada. Eram lágrimas de felicidade, mas também de alívio pelo que passou no final e por se ter livrado do ‘obstáculo’ Tsunoda (Red Bull), que o poderia ter feito perder o campeonato. «Não pensei que fosse chorar, mas chorei. Foi uma longa jornada», afirmou depois de sair do McLaren, já como campeão do mundo. «Este é o sonho de muitos pilotos e eu estou a vivê-lo. Quero agradecer a toda a equipa e aos meus pais, que me apoiaram desde o início», fez questão de salientar. «Precisava que as estrelas se alinhassem para conquistar o título. Coloquei-me na melhor posição possível e dei o meu melhor. Não foi o final de campeonato com que sonhava, mas estou muito orgulhoso com a temporada que fiz. Houve altos e baixos, vou guardar os bons momentos e olhar para os outros como aprendizagens», referiu Lando Norris. 

O piloto da McLaren não esqueceu quem esteve com ele desde o início. «Este não é o meu campeonato, é o nosso campeonato. Estou orgulhoso porque fiz outras pessoas felizes, como o Will Joseph e o Andrew Jarvis [engenheiros da equipa]. Eles não conseguem ver as suas famílias com frequência. O facto de se esforçarem tanto para que eu possa ter um bom desempenho, faz-me pensar que valeu a pena o tempo que me dedicaram. Consigo fazê-los sorrir, é isso que eu quero na minha vida, que todos eles estejam felizes e comemorem», salientou.

Rossi como referência

Lando Norris vive intensamente o desporto motorizado desde muito jovem. Aos seis anos, começou por dominar com mestria uma moto de 50 cc, foi aí que viveu as primeiras emoções da velocidade, depois de ter experimentado equitação. Assistia às corridas de MotoGP e Valentino Rossi era o seu ídolo, isso explica que tivesse adotado as cores azul e amarelo do seu capacete. «Eu queria ser como ele!», disse na altura. Quando tinha sete anos, um acidente afastou-o das motos e passou para as quatro rodas com o karting oferecido pelo pai. A primeira experiência em pista foi arrebatadora e começou aí a história do novo campeão do mundo. Nessa altura, os ingleses estavam eufóricos com o aparecimento de um tal Lewis Hamilton, que conquistou o seu primeiro título também com a McLaren. Além do karting, Lando Norris passava muito tempo a jogar PlayStation com o pai, e nas corridas virtuais SimRacing, como as 24 Horas Le Mans, onde tinha como adversário Max Verstappen! 

A família não precisou de fazer grandes sacrifícios financeiros para que Lando Norris pudesse correr de karting. O seu pai, Adam Norris, adora desportos motorizados e, segundo o Sunday Times, tem uma fortuna estimada em 228 milhões de euros. A família passou a percorrer os principais circuitos e, com apenas 13 anos, tornou-se o mais jovem campeão do mundo de karting. Com o objetivo de aprender a conduzir um carro de GT em circuito, começou a disputar o campeonato Ginetta Junior, onde terminou em terceiro lugar, após quatro vitórias. Entretanto, o jovem Norris profissionalizou-se e passou a ter um empresário e um preparador físico. A partir daí, foi tudo uma questão de trabalho, dedicação e determinação. Naturalmente que o facto de ter nascido num berço de ouro ajudou a tomar as decisões certas.

Soube sempre utilizar a sua rapidez e inteligência para subir na carreira. Em 2015, dominou o campeonato de Fórmula 4, com oito vitórias. No ano seguinte, venceu a Toyota Racing Series, com seis triunfos, e conquistou o título de Fórmula Renault 2.0, com cinco vitórias, e, em 2017, sagrou-se campeão de Fórmula 3, com nove triunfos. Em 2018, deu o salto para a Fórmula 2. Ganhou a corrida de estreia, mas perdeu o título para George Russel, atual piloto da Mercedes. 

A fulgurante ascensão e as origens sociais nem sempre foram bem aceites pelas redes sociais, onde era tratado como o filho do papá. A todas essas críticas respondeu de forma tranquila e educada. «Os meus resultados são suficientemente bons e consegui evoluir. Desde a primeira temporada que mostrei competência e as boas equipas quiseram-me como piloto. Tive de trabalhar muito para chegar onde estou. Para estar na Fórmula 1 é preciso ter algum talento», lembrou.

O seu percurso até à Fórmula 1 começou a tomar forma em 2016, quando recebeu o prémio McLaren Autosport BRDC Young Driver of the Year, iniciativa que tinha por objetivo descobrir um piloto promissor, a quem seria dado apoio financeiro e aconselhamento profissional. Esse programa permitiu aos pilotos experimentar vários carros de competição. No teste com o potente Mercedes DTM, Lando Norris foi 1,2 s mais rápido do que o piloto oficial da marca Maximilian Gotz. Gotz não gostou da brincadeira, exigiu um conjunto de pneus novos e foi para a pista com o objetivo de bater esse tempo, mas, por mais que tentasse, não conseguiu.

Chegada à McLaren

Depois dessa demonstração, Zak Brown, CEO da McLaren Racing, contratou-o para o Programa de Desenvolvimento de Pilotos e rapidamente conquistou a equipa pelo seu talento, mas também por ser uma pessoa acessível e de trato impecável. A McLaren fez com Lando Norris o que tinha feito antes com Lewis Hamilton: elaborou um completo plano de preparação e desenvolvimento, que passou por disputar diferentes corridas durante duas épocas. 

Quando Fernando Alonso decidiu interromper a sua carreira, Zak Brown não hesitou em lançar Lando Norris da Fórmula 1. Começou por participar em sessões de treinos livres em 2018, antes de dar o salto a tempo inteiro no ano seguinte. Aos 19 anos, estreou-se na Austrália e, no Bahrain, tornou-se o terceiro piloto mais jovem de sempre a marcar pontos, com o sexto lugar. Em 2020, assumiu a liderança da equipa ao suplantar Carlos Sainz, que era mais experiente. A sua regularidade permitiu à McLaren ficar em terceiro lugar no campeonato de construtores. No ano seguinte, teve a oportunidade de vencer corridas, mas falhou sempre e deram-lhe a alcunha de Poulidor – ciclista que tropeçava sempre na vitória. 

Nos dois anos seguintes, a McLaren falhou na conceção dos monolugares com efeito de solo e os resultados foram desanimadores para os pilotos. Numa entrevista ao canal ITV, Lando Norris desabafou: «As pessoas que veem as corridas pela televisão não percebem o que um piloto vive. Todas as atenções estão centradas em nós e lidar com essa pressão afetou-me muito». Em 2023, houve uma reestruturação interna e a McLaren tornou-se mais competitiva. Lando Norris voltou a andar na frente, mas, estranhamente, mostrou alguma fragilidade no relacionamento com os outros pilotos. Fez declarações sobre a suposta falta de mérito de Lewis Hamilton – «há sete anos, ele tinha um carro rápido e fez o seu melhor, agora somos nós os melhores» –, disse, e cometeu erros de principiante na luta contra o rival e amigo Max Verstappen, frisando que «ele dominou quando tinha o carro mais rápido». Mais tarde, mostrou arrependimento por algumas dessas declarações. «Disse coisas sobre o Max e o Lewis que gostaria de não ter dito. Muitas coisas são ditas no calor do momento, mas respeito muito o Max e, principalmente, o Lewis, que é heptacampeão. Eu, talvez, nunca chegarei a esse nível», reconheceu.

A temporada de 2024 foi uma grande aprendizagem para Lando Norris. Venceu a sua primeira corrida nos EUA (Miami) e, desde então, obteve mais 10 vitórias, fez 15 poles, 18 melhores voltas e até conseguiu três hat tricks (vitória, melhor volta e pole na mesma corrida). O título mundial conquistado em 2025 é o resultado do trabalho de um grupo que está junto há 8 anos. «Tornámo-nos muito próximos e existe uma confiança mútua. Quando ele fez o seu primeiro teste na Fórmula 1, elaborámos uma lista do que queríamos ver dele no futuro. Ao longo dos anos, fomos riscando itens dessa lista. Agora, é o Lando que nos exige cada vez mais. A dinâmica inverteu-se», contou Zak Brown.

No regresso de Abu Dhabi, a McLaren organizou um encontro nas suas instalações, em Woking, para festejar os títulos mundiais de pilotos e construtores na presença dos 1.400 funcionários do McLaren Technology Centre. Na ‘avenida dos campeões’ criada por Ron Dennis para homenagear os grandes pilotos da equipa, Lando Norris aparece agora ao lado de Ayrton Senna, Emerson Fittipaldi, James Hunt, Niki Lauda, Alain Prost, Mika Hakkinen e Lewis Hamilton.