quarta-feira, 11 fev. 2026

Rob Reiner. O filho que quis ter o nome do pai

1947-2025. Tendo redefinido géneros clássicos de Hollywood morreu numa tragédia grega.
Rob Reiner. O filho que quis ter o nome do pai

Como um crítico do The Times (Wesley Morris) assinalou por estes dias, os filmes de Rob Reiner dificilmente encontravam o seu lugar nas listas dos melhores das publicações de referência, mas se falhavam quanto a essas avaliações por vezes tão solenes e presunçosas, quando se tratava de enumerar escolhas pessoais, essas preferências algo inconfessáveis e que forneceram a narração íntima nalgum período mais vulnerável das nossas vidas, aí logo ganhavam destaque. Fitas como When Harry Met Sally… (1989), The Princess Bride (1987), Stand by Me (1986), This Is Spinal Tap (1984), A Few Good Men (1992) ou Misery (1990) continuam a providenciar um belo programa de sustento emocional e nostálgico para diferentes gerações, e a encontrar o seu lugar na coluna dorsal da programação de tantos canais televisivos, aproveitando para nos devolver a uma estrutura de valores mais clássicos e reconhecíveis, marcando um contraste que nos mostra o absurdo dos nossos dias. Esse contraste abrange a tão violenta e absurda morte do realizador e da mulher, numa notícia que mais parece saída de um desolador argumento, daqueles que ele próprio teria recusado filmar. O cineasta, ator, produtor, ativista e uma voz proeminente na denúncia do crescente autoritarismo e desmandos da administração Trump foi encontrado morto, com a mulher, Michele Reiner, na casa de Brentwood, em Los Angeles. Tinha 78 anos. A polícia de Los Angeles informou que foram mortos à facada na residência, na tarde de domingo. O chefe da polícia da cidade, Jim McDonnell, declarou na segunda-feira que o filho do casal, Nick Reiner, de 32 anos, tinha sido formalmente acusado de homicídio. Sabendo-se dos antecedentes deste filho, de um longo e conturbado percurso ligado à toxicodependência, tendo os pais feito de tudo para o apoiar na luta para se libertar do vício, e sabendo-se como o próprio Rob Reiner se debateu com a ausência e, ao mesmo tempo, com a sua idolatria pelo pai, o comediante Carl Reiner, esta é uma história que se fecha com um golpe seco, sem catarse, sem último plano de reconciliação. Nada mais contrário ao seu cinema, cedendo a uma crueldade mais coerente com o contexto político de uma América que ele passou a última década a combater. Assim, Donald Trump saltou sobre mais esta desgraça, aproveitando para se regozijar, atribuindo o trágico final de Reiner ao ódio que despertava nos demais com a sua «neurose anti-Trump».

Reiner pertenceu àquela geração rara que não confundia inteligência com cinismo nem sucesso com oportunismo ou rendição. Filho de Carl Reiner, uma das mentes que ajudou a definir o clima desafiador da comédia televisiva do pós-guerra, e de Estelle Reiner, atriz e cantora de jazz, cresceu num ambiente onde a piada era uma forma de análise social e o humor uma arma de precisão. Mas esta herança não significou um passaporte fácil para o mundo do espetáculo, antes uma urgência de trilhar um caminho que lhe permitisse escapar à sombra monumental e omnipresente do pai, sem deixar de aprender com o seu exemplo e afinar os seus próprios instintos. O certo é que se o sucesso do pai não deixou de alimentar uma insegurança que Reiner nunca escondeu (recordava como aos oito anos explicou aos pais que queria mudar o seu nome, e se estes imaginavam que o motivo era para escapar à sombra de Carl, na verdade Rob disse que queria era ter o mesmo nome do pai, confundir-se o mais possível com ele), acabaria por se transformar no nervo secreto da sua obra, e muito provavelmente viria a firmar como sua absoluta prioridade a escolha de nunca deixar de estar presente na vida dos filhos, sendo bastante compreensivo em relação aos desaires daquele que acabaria por lhe dar a morte.

O público começou por conhecê-lo enquanto ator, com apenas 23 anos, como o «cabeça de abóbora», o genro liberal de Archie Bunker em All in the Family. A série de Norman Lear introduziu o conflito ideológico no centro da sitcom norte-americana, e Reiner, com o seu sarcasmo tenso e a sua postura de esquerda sem condescendência, tornou-se o alvo perfeito do ressentimento reacionário do sogro. Ganhou dois Emmy, mas ganhou sobretudo uma educação prática sobre como o entretenimento pode tocar o nervo das convicções e ajudar a dissolver preconceitos.

Quando passou para a realização, fê-lo com uma audácia desconcertante. This Is Spinal Tap (1984) mostrou-se uma paródia pioneira que zombava de forma incisiva com os documentários sobre as lendas do rock, desferindo um golpe na cultura da grandiloquência, da auto-ilusão e da decadência prolongada como espetáculo. O filme teve um impacto decisivo e impôs-se como um antecedente de séries como The Office ou Parks and Recreation, desde logo porque nunca tratou os seus idiotas como meros palhaços: eram figuras certamente patéticas, mas perigosamente reconhecíveis.

O que se seguiu foi uma sequência absolutamente invejável de êxitos que redefiniram géneros inteiros sem parecerem exercícios de estilo. Stand by Me (1986) é um filme sobre a infância sem sentimentalismo, uma elegia seca à amizade masculina antes da deformação adulta, sendo o retrato mais honesto que Reiner fez da ferida paterna. The Princess Bride (1987), esse objeto anómalo que, mergulhando no reino da fantasia, não abre mão de um humor desconcertante, inteligente, cheio de ironia, mas sem estragar o efeito romântico.

Com When Harry Met Sally… (1989), escrito por Nora Ephron a partir das neuroses do próprio Reiner após o divórcio de Penny Marshall, a comédia romântica deixou de ser um desfile de equívocos e passou a ser um campo de batalha verbal. O filme entende que o desejo é discursivo, que o amor é feito de frases mal colocadas, e que a intimidade nasce menos do corpo do que da conversa. A famosa cena do orgasmo fingido não é um gag obsceno: é uma demolição elegante da masculinidade performativa, coroada pela frase assassina que Reiner ofereceu à sua mãe, Estelle, «I’ll have what she’s having», uma das melhores punchlines numa comédia romântica.