domingo, 18 jan. 2026

Ondas alucinantes

O maior swell do ano levou os big riders para o Canhão na Nazaré. Foi uma prova de coragem e surf de alto risco que proporcionou imagens extraordinárias e igualmente assustadoras. O tamanho das ondas e as performances dos surfistas fizeram desta edição a melhor de sempre.
Ondas alucinantes

O período de espera para a competição Big Wave começou a 1 de novembro e prolonga-se até 31 de março, só que as ondas gigantes apareceram mais cedo e o Tudor Nazaré Big Wave Challenge 2025/26 realizou-se no sábado, com cerca de 50 mil pessoas a assistirem no promontório do Forte de São Miguel Arcanjo, na Nazaré. A romaria começou de madrugada e prolongou-se até ao pôr do sol. Foi um espetáculo esmagador!

O Canhão da Nazaré voltou a ganhar vida com o alerta verde dado pela World Surf League (WSL) e com a indicação de que poderia haver ondas entre os 14 e os 18 metros. A realidade foi ainda mais impressionante, com o big rider português Nic von Rupp a garantir que «atingiram cerca de 25 metros, muito perto dos recordes mundiais».

A prova contou com 18 surfistas (15 homens e três mulheres) que deveriam ter realizado duas baterias de 40 minutos cada, mas só fizeram a primeira, uma vez que a organização decidiu parar a competição devido a problemas técnicos e à falta de luz natural. Durante a segunda fase da prova, registaram-se falhas nos sistemas de comunicação, impossibilitando a articulação entre a organização, os pilotos de jet ski, os surfistas em prova, a equipa de segurança e o painel de juízes. Tratando-se de um evento de tow-in em ondas gigantes, onde a segurança depende diretamente da fiabilidade das comunicações, a WSL considerou não estarem reunidas as condições para continuar com o evento e homologou os resultados existentes nessa altura. Francisco Spínola, director-geral da WSL para a Europa, Médio Oriente e África, justificou a interrupção. «Não podíamos comprometer a integridade da competição. A vitória mais importante é quando os surfistas chegam em segurança à área dos atletas», disse, salientando que «foi um dia épico de surf, com desempenhos incríveis».

‘A Nazaré mostrou

os seus dentes’

O tamanho da onda e a proximidade com a espuma são os aspetos mais valorizados pelos juízes na competição de ondas gigantes, embora só contem as duas melhores notas de cada surfista. No final da primeira ronda, a equipa Nic von Rupp/Clément Roseyro liderava com uma curta vantagem (45.45 pontos contra 45.40) sobre a dupla brasileira Lucas Chianca/Pedro Scooby e foi assim que terminou a competição.

O que aqueles surfistas fizeram num mar medonho foi verdadeiramente incrível. A equipa luso-francesa foi considerada a vencedora pela excelente execução técnica, com drops impressionantes em ondas de enorme dimensão. A capacidade de ler e atacar algumas das ondas mais absurdas do dia valeu uma vitória ainda mais especial do que a obtida na edição anterior. Este resultado reforça o estatuto de Nic von Rupp como um dos melhores big riders do mundo.

Foi um sucesso alcançado em condições extremas, como referiu Nic von Rupp: «A Nazaré mostrou os seus dentes». E especificou: «As ondas que rebentaram no Canhão da Nazaré atingiram cerca de 25 metros. Foi a maior ondulação dos últimos sete ou oito anos. Tivemos algumas ondas com um tamanho muito próximo dos recordes do mundo e ganhar nestas condições é especial». Houve ainda momento delicado quando Nic von Rupp desapareceu no meio da espuma violenta e só voltou e emergir passado longos segundos.  Sobre a interrupção do evento, o surfista português foi claro: «Tivemos todos as mesmas condições. Se houvesse a segunda sessão, acredito que seria igual. Eu e o Clément estávamos totalmente focados em revalidar o título. É um orgulho vencer e representar Portugal. Estamos muito felizes».

Lucas Chianca mostrou aos milhares de espetadores o risco que era desafiar aquelas ondas. Teve um desempenho incrível ao surfar duas das maiores ondas do dia, mas também ao sofrer duas quedas assustadoras. Na primeira queda ficou submerso quase 30 segundos na zona do Pico 1, considerado o mais perigoso. O seu colega de equipa Pedro Scooby resgatou-o e levou-o para nova onda, mas caiu novamente. Foram momentos de alguma apreensão e, simultaneamente, de grande espetacularidade ao ver as motos de água a voar naquele mar revolto em direção ao surfista. «Foi um momento pesado e uma das quedas mais violentas da minha vida. O dia começou muito difícil, mas demos o nosso melhor. O Pedro Scooby colocou-me em algumas ondas e eu coloquei-o em outras. Obrigado à Nazaré por organizar este espetáculo e à WSL por tornar isto possível», disse Chumbo, que elogiou a equipa de tow-in (resgate) e o piloto Sebastian Steudtner, que o foi buscar já muito perto das rochas. «Muito obrigado, salvou-me a vida», reconheceu. O alemão foi chamado em cima da hora para assumir a liderança da operação de segurança do evento.

A abordagem destemida deste campeão, que ganhou na Praia do Norte cinco vezes, ficou bem demonstrada logo a seguir, ao desafiar novamente as poderosas ondas e conseguir a melhor performance masculina, com 23,60 pontos. Recorde-se que Lucas Chumbo é especialista das ondas gigantes da Nazaré e, em 2024, pode ter estabelecido um novo recorde mundial ao surfar uma onda com quase 30 metros de altura – esse registo aguarda reconhecimento oficial da WSL. O recorde oficial do Guinness pertence ao alemão Sebastian Steudtner, que surfou uma onda com 26,21 metros, em outubro de 2020.

Justine Dupont vive na Nazaré e é uma das principais mulheres a competir na Big Wave. A surfista mais premiada em ondas gigantes fez uma exibição incrível e conseguiu a quinta vitória na Praia do Norte. A capacidade de manter uma linha fluída e terminar a onda em grande estilo garantiu-lhe um total de 19,87 pontos, à frente de Michelle des Bouillons e de Laura Crane. «Foi um dia louco e estou muito feliz com a vitória. Só quero agradecer ao Eric Ribiere, ele é o melhor piloto que existe. Obrigada à equipa de segurança e à Nazaré por um dia divertido», disse Dupont.

Equipas de elite para

ondas brutais

A competição de ondas gigantes é extremamente perigosa e, por essa razão, não é possível surfar sozinho. É disputada em tow-in, ou seja, um dos elementos da equipa conduz o jet ski e coloca o surfista no topo da onda para depois começar a louca descida, a mais de 80 km/h, com a ameaçadora parede de água atrás de si. O segredo é escolher a maior onda que seja suficientemente segura para surfar. O tamanho das ondas na Praia do Norte não depende de uma única ondulação, mas sim do cruzamento de outras ondas com direções opostas e que quando se cruzam fazem com que uma onda de 10 metros possa, rapidamente, atingir 15 ou 20 metros.

Os melhores momentos do Tudor Nazaré Big Wave Challenge 2025/26 tiveram origem em ondas monstruosas e com uma energia brutal, mas os surfistas mostraram grande coragem e preparação para conseguirem performances impressionantes. Desceram aquela parede de água a grande velocidade e fizeram trocas de direção numa luta desigual entre o homem e a natureza. Naturalmente que houve quedas violentas, que criaram algum suspense, mas as equipas de resgaste fizeram um trabalho fantástico a resgatar os surfistas no meio daquela imensa massa de água.

Por tudo isto, a Nazaré continua a ser única, só que desta vez houve momentos críticos, onde a linha entre a glória e o desastre foi muito ténue.