Começo por fazer uma declaração de interesses:
Sou da Lousã e tenho sempre defendido que a minha terra esteve sempre a perder desde o dia em que deixou arrancar os carris do comboio sem ter na mão uma alternativa séria para a ligação a Coimbra.
Passaram 15 anos de dúvidas, investimentos loucos, milhões de ilusões e promessas, até que se chegou a Metrobus que começou finalmente a circular.
Tenho memória da velha linha, onde os comboios avariavam todos os dias e o serviço miserável que a CP prestava. Não tenho saudades desses tempo e obviamente era preciso encontrar uma soluções confortável, rápida e eficiente
A linha da Lousã foi estruturante para o desenvolvimento do concelho e dos territórios que atravessou entre Serpins e Coimbra.
Um dia, o vetusto comboio parou e nasceu a ideia era fazer um moderno metro de superfície. Estávamos o tempo dos grandes investimentos e tudo parecia fácil. Comissões, grupos de trabalho, uma empresa pública, fundos comunitários e do orçamento, algumas obras no terreno, mas o projeto encalhou na crise e na Troika. Depois disso e de uns quantos milhões torrados em promessas e uma data de administrações muito bem pagas, lá se chegou a esta solução. É mais ligeira, aparenta ser mais barata, mas se alguma vez se fizerem as contas ao custo da indecisão e aos investimentos feitos pelo meio, teria sido muito mais barato fazer logo a obra e hoje estaríamos a celebrar os 15 anos de um projeto de sucesso. Mas não foi assim, o dinheiro mal gasto nunca volta.
A dúvida e a intriga que se instala sempre que há uma ideia nova, serão responsáveis por muito do que não se fez. Até o corte de arvores na baixa de Coimbra deu direito a indignações e manifestações com uma vontade louca de se parar o projeto e fazer mais umas milionárias comissões de estudos. Nisto somos um país que quer a obra, mas não a quer logo a seguir e anda assim ziguezagueante até se acabar o dinheiro e se arranjar mais, se houver. Dá sempre jeito aos empreiteiros e aos políticos que se vão nomeando para as administrações destas empresas públicas. Neste caso também foi assim.
Mas isso, felizmente, é passadio. O Metro está a funcionar e a linha da Lousã ganhou uma merecida vida, garantindo o começo de um novo paradigma de desenvolvimento. Volta a ser possível viver na Lousã ou em Miranda do Corvo e trabalhar em Coimbra e também o contrário. Isto vai ter impacto no preço das casas, mas principalmente na qualidade de vida de quem opta por manter as raízes no sopé de uma das serras mais lindas do mundo e o trabalho numa cidade média que volta a ficar ali ao lado.
Ganha o país com estas possibilidades e devermos mesmo aprender todos a não andar a ‘empalear’ sempre que é mais do que evidente que é preciso tomar decisões e fazer mesmo algumas obras. Decidir implica rico, mas não decidir, como mostra este estranho caso do Metro, tem um custo brutal. Perguntem aos autarcas, às pessoas que perderam o comboio, aos comerciantes aos estudantes o que significou nas suas vidas não ter o comboio na linha durante estes 15 anos. O impacto é monumental.
O resultado das últimas eleições autárquicas na região poderá conter parte desta resposta. As pessoas não estão dispostas a passar a vida toda à espera de que se resolvam os problemas. A democracia também é isto. Governa quem cumpre a palavra, os outros não servem de nada a não ser para nos ‘empalear’ sem fazerem das obras fundamentais para a nossa vida fazer sentido, no local onde gostamos de viver.
Hoje, em véspera de Natal, esta foi uma prenda fantástica para os lousanenses. Veio de ‘pantufas’, mas chegou no Metro…bus.