«Nós contra eles» é o discurso simplificador que André Ventura usa eficazmente, mudando o ‘eles’, que podem ser ciganos, minorias étnicas, imigrantes, beneficiários de apoios sociais (subsídiodependentes) ou mesmo os partidos do sistema, mas mantendo sempre o ‘nós’, a incógnita transformada na única esperança para o país. E o país tem dado sinais evidentes de que o entende, que partilha dos seus sentimentos e tem vindo a aderir ao discurso maniqueísta.
No livro Por Dentro do Chega, de Miguel Carvalho, publicado pela Objectiva, lemos que na primavera de 2020 Ventura tremeu, temendo que o partido que fundara em abril de 2019 pudesse ser ilegalizado. Desde então, os pedidos para a ilegalização do Chega não pararam. Entretanto, o número de eleitores que votam no partido fundado por Ventura não pára de crescer.
A democracia e a Constituição protegem Ventura e o Chega, as ameaças são criadas pelo próprio, ‘olhos nos olhos’, através de slogans reproduzidos até à exaustão por quem o combate. ‘Isto não é o Bangladesh’ foi provavelmente replicado por mais adversários do que apoiantes. Estes sorriem em contemplação, o culto da personalidade é indisfarçável, e Ventura aproveita todas as paredes livres para colocar o seu retrato, as eleições presidenciais não escapam à regra, embora pareça mais difícil colocar o retrato no Palácio de Belém.
No início de 2020, Ventura dizia numa entrevista ao Observador: «Deus confiou-me a difícil, mas honrosa missão de transformar Portugal». Quando questionado sobre quando isso aconteceu, explicou: «Como é sabido, sou uma pessoa muito religiosa e o espaço que o Chega conseguiu na sociedade portuguesa... costumamos chamar-lhe o milagre da ascensão política». As mais recentes sondagens para as presidenciais confirmam o ‘milagre’, dão Ventura como o mais votado para passar à segunda volta.
Ventura coloca Portugal no mesmo patamar político do mundo onde líderes de extrema-direita estão a caminho ou já no poder, como na Itália ou no Chile, mas, se Giorgia Meloni alinha com princípios europeus, no Chile José António Kast reclama o legado de Pinochet e é senhor de si para impor uma agenda de extrema-direita, sem o disfarce neoliberal falido da Argentina de Javier Milei, que sobrevive com o apoio dos Estados Unidos, quando Trump ameaça o que resta do socialismo na Venezuela liderada por Nicolás Maduro.
Na América Latina, em El Salvador, Nayib Bukele governa desde 2019. Em 2022, implementou um estado de exceção sob o pretexto do combate aos gangues, promovendo detenções em massa e suspendendo algumas garantias constitucionais. Bukele conta com amplo apoio popular, apesar da erosão do Estado de Direito ser visível. Ventura, que disse «prefiro um bandido morto do que um polícia morto», já confessou admirar Bukele, o «ditador mais fixe do mundo», eleito fora dos partidos tradicionais. Bukele nasceu em junho de 1981, Ventura, em janeiro de 1983 – não há dois anos de diferença entre os dois, um é Presidente, outro quer sê-lo. Ventura afirmou que, se eleito, a primeira viagem seria ao Vaticano, a segunda poderá ser a São Salvador.
Ventura é ambicioso, claramente ambicioso, mas os portugueses gostam de ambição – a mesma que lançou naus ao mar e criou o império – e tendem a contemporizar quando evoca não um, mas três Salazares.
Quando foi eleito pela primeira vez, em 2019, o Chega obteve 1,3% dos votos (67.826 votos). Em 2025, nas legislativas, o partido somou 1.438.554 votos, 22,76% do total. Seis anos e a transição do poder do PS para o PSD criaram um padrão: o Chega, liderado por Ventura, cresce em quaisquer circunstâncias.
Tudo começou em 2017, quando o jornal i entrevistou o comentador de futebol e crime da CMTV, candidato do PSD à Câmara de Loures. «Os ciganos vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado» entrou no léxico político e daria a Ventura um lugar à mesa dos grandes. Sebastião Bugalho, agora eurodeputado pelo PSD, foi o entrevistador e confessou-se surpreendido com o discurso de direita populista do candidato social-democrata.
O líder do PSD na altura, Pedro Passos Coelho, manteve o apoio. No livro Na Cabeça de Ventura, de Vítor Matos, da Zigurate, lemos que «os dirigentes do PSD não perceberam que estavam a criar a sua própria Némesis».
Nesse mesmo ano, na Áustria, o Freedom Party entrou no governo, na Polónia e Hungria, partidos populistas governavam, na Itália, Liga Norte e Movimento 5 Estrelas eram relevantes no Parlamento – Fratelli d’Italia de Meloni viria depois –, na Holanda, o Partido da Liberdade tinha representação significativa, em França, Marine Le Pen e a Frente Nacional (Rassemblement National) alcançaram forte votação presidencial.
No final do ano, Donald Trump foi eleito Presidente dos EUA. Em 2018, Ventura apresentou em Lisboa um livro sobre Trump, cujo prefácio escreveu, questionando: «Quem tem a titularidade do poder? Os partidos, as forças corporativas ou o povo?». Mais recentemente, o novo documento de Estratégia de Segurança Nacional de Trump 2.0 elogia a ascensão de partidos europeus «patrióticos», alinhados com a retórica nacionalista e anti-imigração, que resistem ao «apagamento civilizacional» dos países da União Europeia, e eles estão em força na Alemanha, Hungria, Países Baixos, Itália e França. A mensagem quando chega a Portugal é para Ventura.
André Ventura vem da classe média baixa entre Lisboa e Sintra, cresceu em Mem Martins, descobriu a religião na adolescência e converteu-se ao catolicismo. Fez um batizado tardio, peregrinou à Terra Santa e entrou para o Seminário, onde o padre Mário Rui Pedras lhe indicou o caminho fora da Igreja e lhe reforçou o «conservadorismo de valores». Ventura traz para a política a retórica religiosa.
Foi buscar aos Evangelhos a formação retórica. Discursar, falar ao povo, «é a minha purificação», admite, também porque aquilo que as pessoas gostam nele é «da explosão e da autenticidade». Hoje Ventura escreveu os seus próprios ‘evangelhos’: «E aconteceu, naqueles dias, que se levantou um varão no meio do povo, e disse que o país vive no descontrolo e no caos. Que as fronteiras foram abertas e a ordem abandonada pelo governo da Geringonça e pela esquerda parlamentar. Falou dos que vivem do subsídio, contrapondo-os aos que trabalham e pagam impostos. Que muitos sustentam uma tralha que não vale para nada, que vive à conta do Estado. E apontou a justiça, dizendo que protege os poderosos e os líderes do partido socialista. E declarou: nunca estivemos no poder, e por isso não podemos ser responsabilizados, outros foram os que deixaram o país na miséria, com o caos migratório, pensões em desordem e a destruição do SNS. E anunciou que o regime de 1976 está esgotado e precisa de uma nova aurora. Falou de um novo ciclo, de uma nova madrugada, de um novo regime, até de uma Quarta República, livre da corrupção, dos impostos excessivos e de instituições paralisadas. Propõe revisão da Constituição, incluindo prisão perpétua, castração química de pedófilos e novo enquadramento para imigração e segurança. E disse que de Belém não pode escrever a Lei, mas pode guiá-la, pois ninguém tem tanta legitimidade para influenciar o Parlamento como o Presidente. E insistiu que o Presidente deve ser guardião do poder, com autoridade clara de controlo e fiscalização, não uma marioneta ou muleta do Governo».
Para chegar a Belém, Ventura tem de passar à segunda volta das presidenciais, em 18 de janeiro, e não ser derrotado em 8 de fevereiro – aqui as sondagens sugerem que precisará mesmo de um milagre.